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Crítica | Belíssima (1951)

por Rafael Lima
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Alguns veem a busca pela fama como mero meio de realização e glória pessoal, mas para outros, esta é uma forma de sonhar com uma vida melhor. Assim, alguns pais e mães (muitas vezes de maneira equivocada) buscam inserir seus filhos (e filhas principalmente) no showbusiness, acreditando que assim, essas crianças poderiam ter uma vida melhor do que a que eles mesmos tiveram. Em um cenário tão pobre e desolado quanto a Itália após 2ª Guerra Mundial, não é de se surpreender que tal comportamento tenha aflorado e chamado a atenção de Luchino Visconti, que explora o fascínio da fama como meio de almejar uma vida melhor, nesta produção de 1951.

Na trama, Madallena Cecconi (Anna Magnani) é uma mulher batalhadora que vive em Roma com o marido Spartaco (Gastone Renzelli) e a filhinha Maria  (Tina Apicella). Quando começam a acontecer audições na cidade procurando uma menina para estrelar o próximo filme de um importante diretor italiano, Madallena vê a chance de uma vida melhor, e inscreve a filha nas audições.

Em Belíssima, Visconti conta uma bela história do amor de uma mãe por sua filha e dos sacrifícios que esta mãe está disposta a fazer por sua rebenta. A atriz Anna Magnani faz um brilhante trabalho como protagonista, pois era uma personagem que podia facilmente atrair antipatia. É claro que Madallena projeta na pequena Maria os seus próprios sonhos de infância e ignora o fato de a garotinha não estar nem um pouco interessada nas audições, além de não levar o menor jeito pra coisa. É curioso observar como o diretor acertadamente escolhe uma pequena não-atriz (segundo a lógica do neorrealismo italiano de trabalhar com este tipo de atuação) e só dá enfoque dramático nela durante os testes. O público vê que, apesar de ser uma gracinha, Maria é uma menina desengonçada e sem nenhum “talento artístico” aparente, o que torna a insistência de Madallena para que a filha participe das audições até um pouco cruel (mesmo que longe de ser intencional).

Mas não é somente a projeção que Madallena faz sobre a filha que faz com que ela não veja a falta de interesse da criança, diferente de outras mães vistas nas audições. Madallena realmente ama a sua filha de todo o coração e, aos seus olhos, é mesmo uma criança “belíssima“, digna dos holofotes. É esse amor e devoção de Madalenna a Maria que faz com que não consigamos sentir raiva dela. Ao mesmo tempo, há um claro fundo social na história (como em qualquer filme de Visconti e do neorrealismo italiano em geral). Ao assistir aos filmes que passam no drive-in localizado ao lado de seu prédio, Madallena vê no cinema a chance de a filha conhecer lugares lindos, ter dinheiro e “se casar com um homem gentil e charmoso como Burt Lancaster”, e não com um “bronco ignorante” como o seu marido Spartaco. Claro que Madallena ignora as armadilhas e a crueldade do showbusiness, que é representado na história e que são apontados pelo assistente de produção Tilde Spernanzoni (Tecla Scarano).

Apesar de possuir fortes tintas dramáticas, Belíssima não é um filme pesado, possuindo uma série de elementos cômicos pouco usuais dentro da filmografia de Visconti. As constantes confusões em que o casal Cecconi se envolve com seus vizinhos são um show á parte, se desenvolvendo como um bom alívio cômico para o filme sem com isso soar deslocado dos trechos de maior intensidade emocional.

Funcionando tanto como uma sátira à indústria cinematográfica, quanto como uma crítica social que não exclui os elementos mais íntimos de seus personagens, o longa-metragem foi mais uma ótima adição ao movimento do neorrealismo italiano, entregando uma obra que diverte e emociona. Com o perdão do trocadilho óbvio, Belíssima é um belíssimo filme de Luchino Visconti que eu recomendo fortemente.

Belíssima (Bellissima) – Itália, 1951
Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Francesco Rosi.
Elenco: Anna Magnani, Walter Chiari, Tina Apicella, Gastone Renzelli, Arturo Bragaglia, Tecla Scarano, Linda Sini, Mario Donatone
Duração: 108 min.

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