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Crítica | Bellini e o Demônio

por Leonardo Campos
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Baseado no universo literário criado por Tony Bellotto, Bellini e o Demônio é a enigmática e curiosa continuação de Bellini e a Esfinge, tramas que trazem o detetive que nomeia os filmes, interpretado por Fábio Assunção, em perspectivas distintas de vida. Enquanto no primeiro o investigador caminha por uma trilha de perigos que pode o levar para sua derrocada, na sequência, ele já se encontra literalmente mergulhado no fundo do poço da vida, viciado em drogas ilegais, deprimido e um tanto perdido em suas convicções. Acompanharemos, ao longo dos 90 minutos que parecem intermináveis, haja vista o tom confuso adotado pela produção, a jornada de Bellini, agora distante da perspectiva noir do primeiro filme, mergulhado num universo que traça uma série de referências ao estilo de dois Davids do cinema: Lynch e Cronenberg, além de incluir elementos temáticos culturalmente difundidos pelo ocultista Aleister Crowley.

Sob a direção e roteiro de Marcelo Galvão, a nova empreitada de Bellini nos apresenta o encontro do investigador com um livro misterioso, relacionado a uma série de crimes brutais ocorridos há anos, com assinatura ainda não compreendida, tampouco maiores explicações. É nessa missão que ele se envolve com alucinações, rituais satânicos, num festival de situações escabrosas e momentos de muito horror psicológico, indevidamente comandado pela direção comprometida, somada ao texto que não parece avançar na “mitologia” do personagem, transformando o filme num emaranhado de cenas tendenciosas, morosas e cifradas, tudo em prol da suposta complexidade filosófica de um filme que se esforça demais para ser difícil, quando de fato o retorno do protagonista não pede tantas idas e vindas mirabolantes.

Paralelo ao seu trajeto de muitas surpresas, Bellini e o Demônio também nos apresenta a jornalista Gala (Rosane Mulholland), uma jovem com quem o nosso investigador já teve um rápido relacionamento no passado. Ela investiga a morte de uma garota (Caroline Abras), estudante de um colégio sofisticado, personagem que parece ter encontrado a morte pelas mãos de alguém que utilizou um misterioso livro, peça-chave para a narrativa. Com dois policiais envolvidos no processo, as tramas se imbricam em tensões e disputas onde confiar é luxo e temer é necessário. Sem envolver o público com uma história de emoções cadenciadas, como os realizadores de Bellini e a Esfinge conseguiram estabelecer, essa indesejada sequência tardia contribui muito pouco dramaticamente, não expandindo a proposta deixada por seu anterior e pelos materiais literários que servem como ponto de partida.

Além do universo mencionado anteriormente, Bellini e o Demônio guarda algumas similaridades com Coração Satânico, adaptação comandada por Alan Parker para o romance homônimo de William Hjortsberg, desde os aspectos temáticos aos elementos que compõem a visualidade narrativa que tem Rodrigo Tavares na sombria direção de fotografia, Leandro Vilar na direção de arte peculiar e muito bem concebida, setores associados ao tenso, mas pouco memorável, trabalho de Mariana La Riva e Eduardo Queiroz na composição da trilha sonora. Hermético e com escolhas equivocadas em seu ritmo, traz personagens instigantes, mas como já mencionado, se perde na teoria, isto é, nos comandos de sua proposta. Barbudo, abandonado, sujo, sem comer e a dormir apenas sob os efeitos de alguma medicação, Bellini precisava de energias renovadoras ao assumir uma nova jornada, mas acaba pegando uma missão literalmente sobrenatural.

Ao ser contratado por um misterioso cliente para achar o paradeiro do Livro das Leis, material relacionado aos tais crimes sangrentos, ele adentra por um perigoso caminho com magia negra e muita brutalidade. A perigosa publicação que é alvo de sua investigação pode evocar demônios e com isso, ao trilhar por esse caminho obscuro, Bellini confronta os seus piores pesadelos, numa narrativa que ainda traz umbanda e outros rituais mesclados e quase reforçando um discurso estereotipada das religiões de matrizes africanas. Com a câmera constantemente sempre nervosa, a fotografia deixa o tom de instabilidade do personagem ser transmitido para nós, os espectadores, envolvidos com o que é parte da textura fílmica, mas dispersos do desenvolvimento dramático errôneo, aparentemente confuso desde o projeto de concepção.

Bellini e o Demônio— Brasil, 2008
Direção: Marcelo Galvão
Roteiro: Marcelo Galvão
Elenco: Fábio Assunção, Rosane Mulholland, Caroline Abras, Eliana Guttman, Paulo Hesse, Maristane Dresch
Duração: 90 min.

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