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Crítica | Bem Vindo à Chechênia

por Luiz Santiago
360 views (a partir de agosto de 2020)

Bem Vindo à Chechênia é aquele tipo de documentário que carrega todas as chaves do incômodo, um filme em que o espectador termina realmente tocado, enraivecido e amedrontado. O longa nos mostra um recorte das políticas de expurgo, perseguição, prisão, tortura e assassinato de indivíduos homossexuais e bissexuais na Chechênia, uma das repúblicas da Rússia, localizada na região do Norte do Cáucaso. A despeito de manhas formais que certamente podem desagradar alguns espectadores (com momentos-cartilha para a criação de suspense… reforçado pela trilha sonora) o filme é um alerta e ao mesmo tempo um grito de socorro; a exposição de uma situação ideológico-social que pode chegar a qualquer lugar onde o fundamentalismo político e religioso se instaura.

Dirigido por David France, que também assinou Como Sobreviver a uma Praga e A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson, Bem Vindo à Chechênia adota uma linha dupla de exposição para um problema sério. Na primeira delas, a mais ampla, temos o contexto social. Essa é a camada que costura o filme, nos mostrando vídeos interceptados por organizações LGBT, onde se veem parentes matando pessoas da própria família… por serem homossexuais. E tudo isso incentivado e encoberto pelo governo local (há uma cena de entrevista com o infame líder da Chechênia, capaz de revoltar a qualquer um, pelo cinismo). Num campo maior, esses eventos estão inseridos na onda de perseguição a pessoas LGBT+ a partir de 2017, com reportes de sequestro de “suspeitos” e relatos de tortura, para que entregassem “outros gays“. Isso sem contar as mortes.

Um dos casos famosos e de repercussão internacional nesse cenário foi o do jovem cantor Zelim Bakaev, que até hoje encontra-se desaparecido. E o documentário faz essa abordagem contextual para nela inserir a organização pró-LGBT que se propõe a salvar indivíduos homossexuais em perigo, primeiro levando-os para um abrigo ou para esconderijos em algum lugar da Rússia, e daí procurando conseguir vistos internacionais para retirar essas pessoas do país. Trata-se de uma realidade absolutamente tocante, e é difícil ver o sofrimento dessas pessoas literalmente correndo risco por conta de sua pulsão sexual. Justamente por conta da perseguição é que a organização, desde o início, ganha um tratamento heroico, e por mais que haja uma cinematográfica exploração disso, vejo esse tipo de manipulação da emoção como plenamente justificada para o tipo de narrativa que temos em cena.

A situação é inteiramente perigosa para todos os envolvidos e o tom é de grande urgência. A forma de comunicar isso para o público até poderia ser de outra forma (sempre pode!), mas da maneira como David France o faz aqui, não é como se pudéssemos dizer que não faz sentido para o filme. Se na base do próprio gênero trabalhamos com algum tipo de corte, de manipulação, então que isso seja feito através de um formato de suspense óbvio, para uma situação que lembra ou representa esse tipo de abordagem. Mas independente da legitimidade formal, o público entende que esse é o tipo de filme necessário para todos nós que vivemos em um mundo democrático em frangalhos, com muitas conquistas sendo retiradas e muitas brechas sendo aproveitadas para dificultar ou minar um direito até então garantido.

Bem Vindo à Chechênia nos mostra uma realidade extrema e de grande dor, servindo como um alerta para todos nós, ressaltando que liberdades conquistadas não necessariamente são “para sempre“. É preciso lutar constantemente por elas. É preciso defendê-las, para que um dia não sejamos nós, por qualquer motivo imaginável, aqueles que precisam se esconder e fugir de sua terra natal por preferir algo que o grupo dominante diz ser errado.

Em tempo: o espectador fica aliviado quando lê que os rostos dos resgatados aqui são digitalmente modificados, a fim de não serem reconhecidos e encontrados. E é justamente frente a esse recurso tecnológico que temos uma interessantíssima surpresa na reta final do filme.

Bem Vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya) – EUA, 2020
Direção: David France
Roteiro: David France, Tyler H. Walk
Elenco: Olga Baranova, David Isteev, Maxim Lapunov
Duração: 107 min.

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