Home FilmesCríticas Crítica | Ben-Hur (2016)

Crítica | Ben-Hur (2016)

por Guilherme Coral
289 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 1

O clássico livro de Lew Wallace, desde seu lançamento, já rendeu quatro adaptações cinematográficas sendo a terceira o eterno clássico estrelado por Charlton Heston e dirigido por William Wyler que nos impressiona até hoje não só pela sua produção, como pelo seu primor técnico, em especial a icônica sequência das quadrigas. O novo Ben-Hur, quinto filme a adaptar o romance, contava imediatamente, portanto, com a grande responsabilidade de se provar ao menos relevante, especialmente visto que em 2010 já tivemos a história contada por meio de uma série televisiva. O diretor Timur Bekmambetov, contudo, não consegue fazer sua obra sequer beirar o aceitável.

A narrativa tem início já nos momentos que antecedem a corrida de quadrigas. Vemos Judah Ben-Hur (Jack Huston) e Messala Severus (Toby Kebbell) trocando ardilosas palavras e logo somos levados para o passado, quando ainda eram amigos. Severus, romano adotado pela rica família de Judah, cresceu ao lado do judeu em Jerusalém e sempre tiveram uma relação bastante próxima. A história desde aqui já se delineia como o clássico irmão x irmão, o que não seria um problema se a motivação desse embate fosse, de fato, bem elaborada. Messala, todavia, é retratado como uma criança mimada e é rápido para descartar os anos de companheirismo com Judah. Naturalmente, os anos que serviria na legião romana o tornaram uma pessoa dura, mas sua mudança, no filme, ocorre como que da água para o vinho e não temos tempo de, efetivamente, acreditar na cisão entre os dois.

Chega a ser engraçado até como o filme gasta grande parte de sua duração para mostrar a vida de ambos antes do incidente que levou à escravidão de Judah e, nesse tempo todo, o que vemos são apenas relances de bases que poderiam ter sido mais bem construídas. Tudo soa extremamente raso, como se isso tudo não se tratasse apenas de um resumo da história, que tenta aprofundar em questões como a exploração romana da província da Judeia, ou as diferenças étnicas dentro do império, sem conseguir sequer arranhar a superfície.

Sequer culpo o roteiro de John Ridley e Keith R. Clarke por tais questões, visto que a artificialidade da projeção é mais que garantida pela direção de Timur Bekmambetov, que, aliado ao trabalho de montagem, simplesmente não consegue deixar a câmera parada por mais de três segundos sem antes trazer um corte. Mesmo em algumas cenas nas quais só vemos diálogos ele nos traz, ocasionalmente, uma câmera tremida, como se o operador de câmera estivesse sob o efeito de muito café. Os planos, que já são curtos, ainda não dão espaço para um trabalho de atuação mais envolvente, visto que impossibilitam que o elenco transmita qualquer emoção antes de serem interrompidos.

O pior, contudo, vem nas cenas de ação, que precisamos esperar alguns segundos para, de fato, entender o que acontece na tela. Chega a ser tão gritante o amadorismo de Bekmambetov (que já conta com boa experiência, apesar de seus filmes normalmente fracos), que na icônica sequência das quadrigas ele consegue errar completamente. É simplesmente impossível entender o que ocorre naquela arena, ao ponto de não sabermos quem morre, quem vive ou até mesmo em qual posição Ben-Hur se encontra. Isso sem falar no exagero dos efeitos especiais (claramente visíveis) que trazem uma artificialidade ainda maior para a cena e no 3D que parece estar presente somente para jogar poeira na tela, dificultando ainda mais o nosso entendimento da obra.

Não contente com esses erros, o diretor russo falha miseravelmente na construção, ou melhor, desconstrução do protagonista na segunda metade do longa. E não entrarei sequer na questão de sua caracterização risível logo antes da corrida, que parece ter sido feita pensando em jovens adolescentes. A calma que apresentara anteriormente parece que não lhe deixou tempo suficiente para nos contar a história e, por isso, teve de correr ao máximo para finalizar seu filme. O absurdo é tamanho que Ilderim, interpretado por um provavelmente arrependido Morgan Freeman, arrisca sua fortuna (que é declaradamente tudo o que tem) por um homem que acabara de conhecer, nos mostrando que não é só a relação entre irmãos que foi mal construída. Isso sem falar na forçada redenção do personagem principal, que parece estar presente na obra apenas para trazer um epílogo feliz e uma relevância para o personagem de Jesus (Rodrigo Santoro).

Resta alguma dúvida que essa adaptação foi totalmente irrelevante e desnecessária? Certamente que não. Ben-Hur é um filme muito aquém de seu potencial e seu maior problema é justamente seu diretor, que trabalha como se estivesse dirigindo seu primeiro longa-metragem sem qualquer assistência ou bom senso. Temos aqui uma obra que não serve nem pelo espetáculo visual, visto que este é uma completa bagunça que nos deixa mais perdidos que Judah em seus anos de escravidão. Melhor nos atermos ao clássico de 1959 mesmo.

Ben-Hur (idem) – EUA, 2016
Direção:
 Timur Bekmambetov
Roteiro: Keith R. Clarke, John Ridley
Elenco: Jack Huston, Toby Kebbell, Rodrigo Santoro, Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer,  Pilou Asbæk,  Sofia Black-D’Elia, Morgan Freeman
Duração: 124 min.


Você pode querer

Ficaram tão decepcionados quanto eu com essa nova adaptação? Talvez seja uma boa revisitar o (imbatível) clássico de 1959, então! Basta clicar nesses links, ou nas imagens abaixo, se tiverem interesse em adquirir o Blu-ray ou DVD. Bom filme!

113097259_1GG 7273538_1GG

Você Também pode curtir

41 comentários

JONATHAN ESTECHE 22 de agosto de 2016 - 21:09

Talvez cada geração supere a outra…menos na arte.

Responder
JONATHAN ESTECHE 22 de agosto de 2016 - 21:09

Talvez cada geração supere a outra…menos na arte.

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:14

Infelizmente!

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:14

Infelizmente!

Responder
Gillian Alves 22 de agosto de 2016 - 03:37

Muito bem dito, só pra clarear um pouco mais as ideias, praticamente tudo foi mudado, até as vestimentas de alguns personagens, que usavam calças, kkkk isso mesmo! Mas isso é o de menos, toda a história foi reinventada de uma maneira grotesca, remake decepcionante! Fico com o de Willian Wyller mesmo, sem tirar nem pôr nada!

Responder
Gillian Alves 22 de agosto de 2016 - 03:37

Muito bem dito, só pra clarear um pouco mais as ideias, praticamente tudo foi mudado, até as vestimentas de alguns personagens, que usavam calças, kkkk isso mesmo! Mas isso é o de menos, toda a história foi reinventada de uma maneira grotesca, remake decepcionante! Fico com o de Willian Wyller mesmo, sem tirar nem pôr nada!

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:14

William all the way!

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:14

William all the way!

Responder
H-Alves 20 de agosto de 2016 - 17:14

Eu sou uma pessoa que não costumo rejeitar remake, principalmente se for de um livro. Já que na maioria das vezes, a adaptação fica um pouco aquém da história original, mas até pra mim que nunca vi o filme clássico, estava me parecendo que esse filme aí não daria certo.
Bom, por enquanto já que não irei mesmo ao cinema ver esse, se for pra eu assistir em casa, pelo menos que seja a melhor versão.

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:15

Ele já tinha toda a cara de produção genérica hollywoodiana mesmo.

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:15

Ele já tinha toda a cara de produção genérica hollywoodiana mesmo.

Responder
H-Alves 20 de agosto de 2016 - 17:14

Eu sou uma pessoa que não costumo rejeitar remake, principalmente se for de um livro. Já que na maioria das vezes, a adaptação fica um pouco aquém da história original, mas até pra mim que nunca vi o filme clássico, estava me parecendo que esse filme aí não daria certo.
Bom, por enquanto já que não irei mesmo ao cinema ver esse, se for pra eu assistir em casa, pelo menos que seja a melhor versão.

Responder
Diogo Amorim 19 de agosto de 2016 - 16:47

Vendo a crítica do Tiago Belotti (meu crítico favorito) do Canal Meus Dois Centavos do YouTube sobre esse filme, logo de cara ele já resumiu tudo em uma única frase “um filme que ganhou 11 Óscars não precisa ser refeito”, isso é um fato inquestionável, mas infelizmente nessa falta de criatividade cada vez maior em Hollywood toda hora lançam um remake desnecessário de um filme clássico e na maioria das vezes resultado é terrível, temos mais um exemplo disso aqui.

Nunca tive preconceito com filmes antigos, muito longe disso, mas o Ben-Hur clássico de 1959 é um dos muitos que ainda ainda falta eu ver, e pretendo fazer isso o mais breve possível. De qualquer forma, passarei muito longe dessa imundície que este filme desnecessário deve ser.

Responder
Diogo Amorim 19 de agosto de 2016 - 16:47

Vendo a crítica do Tiago Belotti (meu crítico favorito) do Canal Meus Dois Centavos do YouTube sobre esse filme, logo de cara ele já resumiu tudo em uma única frase “um filme que ganhou 11 Óscars não precisa ser refeito”, isso é um fato inquestionável, mas infelizmente nessa falta de criatividade cada vez maior em Hollywood toda hora lançam um remake desnecessário de um filme clássico e na maioria das vezes resultado é terrível, temos mais um exemplo disso aqui.

Nunca tive preconceito com filmes antigos, muito longe disso, mas o Ben-Hur clássico de 1959 é um dos muitos que ainda ainda falta eu ver, e pretendo fazer isso o mais breve possível. De qualquer forma, passarei muito longe dessa imundície que este filme desnecessário deve ser.

Responder
Laila Santos 21 de agosto de 2016 - 02:38

Eu tbm sou incrita no canal do Tiago Belotti,e não estava com nenhum hype para esse filme,achava que seria uma verdadeira bomba,dito e feito.

Responder
Laila Santos 21 de agosto de 2016 - 02:38

Eu tbm sou incrita no canal do Tiago Belotti,e não estava com nenhum hype para esse filme,achava que seria uma verdadeira bomba,dito e feito.

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:15

Fique com o original mesmo!

Responder
Guilherme Coral 23 de agosto de 2016 - 03:15

Fique com o original mesmo!

Responder
jcesarfe 19 de agosto de 2016 - 12:43

O filme foi tão ruim assim?
De todo modo o trailer não me empolgou para assisti-lo, para falar a verdade nem gosto muito do antigo que todos colocam nas alturas, mas para mim é apenas sonolento e muito mais uma propaganda de brancos que qualquer outra coisa.

Responder
jcesarfe 19 de agosto de 2016 - 12:43

O filme foi tão ruim assim?
De todo modo o trailer não me empolgou para assisti-lo, para falar a verdade nem gosto muito do antigo que todos colocam nas alturas, mas para mim é apenas sonolento e muito mais uma propaganda de brancos que qualquer outra coisa.

Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Delfim Ribeiro 19 de agosto de 2016 - 00:18

Realmente é inacreditável as mudanças no roteiro. Apenas uma é positiva, em minha visão: A que justifica a prisão do Ben Hur quando acontece o atentado. Ficou muito melhor que a versão original. E só. De resto, muita coisa a lamentar, principalmente o final, parecendo a novela da Record…

Responder
Delfim Ribeiro 19 de agosto de 2016 - 00:18

Realmente é inacreditável as mudanças no roteiro. Apenas uma é positiva, em minha visão: A que justifica a prisão do Ben Hur quando acontece o atentado. Ficou muito melhor que a versão original. E só. De resto, muita coisa a lamentar, principalmente o final, parecendo a novela da Record…

Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Anônimo 18 de agosto de 2016 - 15:13
Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:56

Exatamente isso. Eu pessoalmente gostei muito de Noé, pela pega psicológica do Aronofsky. Mas Ben-Hur realmente não precisava de mais uma adaptação, não desse jeito pelo menos.

Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:56

Exatamente isso. Eu pessoalmente gostei muito de Noé, pela pega psicológica do Aronofsky. Mas Ben-Hur realmente não precisava de mais uma adaptação, não desse jeito pelo menos.

Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Phil de Punxsuatawney 18 de agosto de 2016 - 15:13

Guilherme, apesar de não ter assistido ao filme ainda, gostei do tom da crítica.
Tenho a impressão de que a história não necessita mais ser “remakeada” depois do clássico de 1959. Digamos que ela já foi esgotada em todas as mídias.
Fazer um filme destes só com a expensa de atualizar a história para a geração pipoca de hoje em dia, acho muitíssimo raso mesmo.

Me parece que devido ao boom de filmes de super-heróis dos últimos anos, querem transformar esses personagens também em super-heróis mega-power-over-blaster.

Sei lá. Acho que a estética que estão usando para estes filmes (Noé, Exodo: Deuses e Reis, etc) não está na sintonia certa. O tom das histórias já é épico por si só, e dá a impressão que os diretores querem espremer essa laranja ainda mais, “enfodecendo” demais os personagens (perdão pelo termo inventado :)).

Pega por exemplo o Mad Max Fury Road: não é bíblico, mas é mais épico que qualquer um desses ditos “Swords and Sandals” por aí.

Abraço!

Responder
AleCassia Aguiar 18 de agosto de 2016 - 12:40

Caramba…Não costumo ler críticas antes de assistir, mas 1 estrela para esse épico, clamou por minha atenção. Não esperava que seria tão decepcionante assim.

Abs.:
Alexandre Aguiar

Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:56

Totalmente desnecessário esse filme.

Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:56

Totalmente desnecessário esse filme.

Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
AleCassia Aguiar 18 de agosto de 2016 - 12:40

Caramba…Não costumo ler críticas antes de assistir, mas 1 estrela para esse épico, clamou por minha atenção. Não esperava que seria tão decepcionante assim.

Abs.:
Alexandre Aguiar

Responder
Joly81 18 de agosto de 2016 - 12:39

Se existe um filme épico que não necessita de remake, esse é Ben-Hur.

Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:57

É uma adaptação do livro, não chega a ser remake, mas realmente, só o de William Wyler já mais que dá conta do recado.

Responder
Guilherme Coral 18 de agosto de 2016 - 18:57

É uma adaptação do livro, não chega a ser remake, mas realmente, só o de William Wyler já mais que dá conta do recado.

Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Anônimo 2 de outubro de 2019 - 21:57
Responder
Joly81 18 de agosto de 2016 - 12:39

Se existe um filme épico que não necessita de remake, esse é Ben-Hur.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais