Crítica | Benção Mortal

A crítica ao esfacelamento da família e a derrocada do american way of life de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos continuavam presentes dentre os interesses narrativos de Wes Craven, mas em 1981, Benção Mortal estava mais para Verão do Medo, a incursão televisiva anterior do cineasta. Eis o que tal eixo comparativo representa: elementos sobrenaturais, sustos e desconfiança. Assim a narrativa se oferta ao espectador, um festival de tensão crescente, sem o sangue e a brutalidade física de algumas das suas histórias anteriores e posteriores.

Ao longo dos 100 minutos de Benção Mortal, o cineasta Wes Craven nos coloca diante de uma claustrofóbica história com cenas bem pontuais em sua filmografia, retomadas mais adiante em filmes mais famosos, tal como a cena da banheira com Nancy e Freddy Krueger, aqui apresentada com uma personagem que se banha enquanto sequer desconfiança da presença de uma perigosa e mortal serpente. Vamos, então, ao enredo. Depois voltamos com as ilações e análise estética e histórica. O filme se desenvolve na Fazenda “Nossa Benção”. Este aparentemente idílico espaço será o palco dos horrores sofridos pelos personagens diante das celeumas do fanatismo religiosa e de crenças que beiram ao ocultismo.

É em Nossa Benção que conhecemos Martha (Maren Jensen), interesse amoroso de Jim (Douglas Barr). Eles levam uma vida calma, tranquila, tipicamente bucólica na região rural, quando de repente são tomados por uma situação dolorosa e inesperada. Pausa. Somos informados da presença de uma seita religiosa extremista, comandada por Isaiah Schmidt (Ernest Borgnine), grupo devoto de uma entidade mitológica que segundo a crença, contamina e possui as pessoas durante o sono. Jim, saberemos, é um antigo membro desgarrado do rebanho. Além de ter renegado a seita, casou-se com Martha, mulher mundana na visão de seu pai, alguém que ele acredita ser uma possuída.

Os conflitos começam quando no aniversário de primeiro ano de casamento, Jim sofre um acidente misterioso e morre. Em luto, Martha é acompanhada por Lana (Sharon Stone) e Vicky (Susan Buckner), amigas que a convidam para Los Angeles, tendo em vista passar o tempo e desanuviar. O problema é que as moças começam a se tornar alvo de eventos assustadores, o que demonstra que há algo muito bem planejado para prejudicar as suas vidas. O que a seita pode ter agendado para essas mulheres incautas? O clima de mistério se estabelece, principalmente quando observamos o interesse financeiro da seita pela fazenda de Martha, bem como o envolvimento de Vicky com um dos membros traz mais perigos para o grupo.

Visualmente, a experiência não é negativa. A iluminação e os quadros propostos pela direção de fotografia de Robert C. Jessup cumprem os requisitos narrativos mais básicos, com alguma ousadia entre um ponto e outro. O design de produção de Jack Marty também é eficiente, pois constrói os espaços de maneira a nos fazer mergulhar no clima de horror obscuro presente a cada página do roteiro encenada. Ainda nesta seara, podemos observar o bom desempenho da cenografia de Okawita, responsável por um clima que me remeteu ao ambiente rural da tradução intersemiótica do conto de Stephen King, chamado Colheita Maldita no cinema.

A narrativa, cabe ressaltar, envelheceu menos que Verão do Medo, outro filme próximo do período de realização de Benção Mortal, realizado três anos depois, mas ainda insuficiente para tornar Wes Craven um homem de volta do poder na indústria, algo alcançado em 1984 com o excelente A Hora do Pesadelo. Como não há perfeição no mundo, Wes Craven perde um pouco o rumo das coisas do meio ao final, algo que deixa a narrativa a desejar. A perda do foco parece ser uma constante em suas produções medianas, vide outras experiências que não deram certo. É o típico diretor que ao acertar, catapulta ao universo as suas possibilidades narrativas, mas quando erra, desde ao “pré-sal” da qualidade cinematográfica.

Benção Mortal (Deadly Blessing/Estados Unidos, 1981)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven, Matthew Barr, Glenn M. Benest
Elenco: Sharon Stone, Maren Jensen, Susan Buckner, Jeff East, Colleen Riley, Douglas Barr, Lisa Hartman, Ernest Borgnine, Michael Berryman, Kevin Cooney,
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.