Crítica | Benilde ou A Virgem Mãe

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O filme começa com a câmera atrás do set de filmagens, perambulando entre os corredores registrando todo o aparato técnico a ser usado durante a gravação. Durante os créditos iniciais, essa marcha assombrosa até o palco deve durar uns cinco minutos, até que é chegado até a casa onde será encenada a história. Essa invasão vindo de fora para dentro será replicada de forma contrária ao final do filme, um expurgo, uma expulsão. É um movimento que registra a persistência divina, que circunda o espaço nesta obra de Manoel de Oliveira, mas também registra a própria Benilde, que decide sair de casa ao engravidar antes de seu casamento.

Benilde ou a Virgem Mãe é a primeira execução fiel do diretor a encenação teatral que o fez um grande cineasta, na minha opinião. É um filme controlado, tradicional às formas e estruturas, demarcado em três atos onde há apenas atores discutindo a respeito da gravidez de Benilde, supostamente virgem, que estava para se casar. Supõe-se de que ela estaria grávida por meio de um milagre, enquanto ela prefere fugir de casa por ter quebrado a tradição familiar muito respeitada dentro de seu lar.

Muito tem em comum  Manoel de Oliveira e Carl Theodor Dreyer cineasta dinamarquês que o português sempre apontava como grande influência. A figura de Benilde como mártir e associada a algo paranormal reflete nas figuras dos filmes de Dreyer, seja Joana D’Arc ou as mulheres de Dias de Ira, além dessa paixão pela dramaturgia teatral que reflete em A Palavra e Gertrud. Manoel buscou ao longo dos anos estabelecer um meio termo tanto entre o cinema e teatro quanto pelo naturalismo e fantasia.

Seus próximos filmes ressaltam esse ar ao articular a encenação cada vez mais fortemente em seus filmes, mas que aqui em Benilde já está em um nível de outro mundo. Seus elementos sempre acrescentam-se, movimentos de câmera, posicionamentos e interpretações que apenas destacam umas às outras, jamais contrastando.

A presença de Benilde excepcionalmente é uma luz transcendental dentro de um jogo de austeridade. Um traço fantasmagórico diante de um mundo sem qualquer luz, e que no final do filme culminará em um dos milagres mais radiantes da história do cinema, onde nenhuma resposta é dada e o desprendimento de um mistério é o mais importante para agraciar-se com os gestos dirigidos por Oliveira. A loucura e o sagrado desde a Grécia andaram lado a lado, e justamente aqui não se dão como resposta certa momento algum. A câmera prefere deixar o palco e aquela família que não pode aceitar Benilde, nem como louca, nem como santa.

Benilde ou A Virgem Mãe (Portugal, 1974)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: José Régio, Manoel de Oliveira
Elenco: Maria Amélia Matta, Jorge Rolla, Varela Silva, Glória de Matos, Maria Barroso, Augusto de Figueiredo, Jacinto Ramos
Duração: 112 minutos

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.