Crítica | Bérénice (1954)

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Quatro anos depois de dirigir o seu primeiro curta, Diário de um Canalha (1950) — filme hoje considerado perdido –, o diretor Éric Rohmer voltou para trás das câmeras, agora para adaptar Berenice, conto de Edgar Allan Poe, uma das três histórias de “mulheres etéreas” do escritor estadunidense, ao lado Ligeia e Eleonora.

Fotografado por ninguém menos que Jacques Rivette, o curta não nega a inexperiência do diretor e também ator principal da fita, especialmente no encadeamento das cenas e na forma abrupta como ele escolheu resolver algumas cenas. O interessante de se notar aqui é que o teor gótico e o elemento de terror do conto só aparecem no final do curta, com um menor impacto visual e uma sugestão bem maior de perturbação mental/emocional, já indicando a predileção do cineasta em se aprofundar na psique de seus personagens, principalmente aqueles entregues aos mais estranhos ou inesperados desejos.

A essência de Poe, no entanto, é bem capturada pelo diretor, e o filme tem algumas cenas de puro desconforto e fomentação de um sentimento de empatia no espectador. O principal momento disso no filme é quando olhamos para os recém-noivos caírem em suas doenças, ela com um ataque de epilepsia e ele petrificando o olhar em algo indefinido, ambos felizes, mas incapazes de aproveitar essa felicidade. Na reta final, a decisão da montagem para a fixação de Egeu (Rohmer) nos dentes de Berenice (Teresa Gratia) não começa bem, mas termina de maneira aceitável. Claro que compreendemos a falta de recursos e de experiência, mas a imagem em grande plano da amada não corresponde ao tipo de monomania que o protagonista diz estar sentindo naquele momento. Só depois de um tempo, quando os planos se tornam menores e destacam o rosto, o sorriso e os dentes da prima é que o visual se encontra com a proposta narrativa e então as coisas voltam aos trilhos.

O horror do conto, como aludi antes, é mais ou menos dissipado e agrupado a um outro sentimento aqui, algo mais próximo da loucura do que da ideia fixa extrema que o original nos traz. Ainda assim, faz sentido para o desenvolvimento do personagem, como se este fosse o último estágio de sua doença, colocando-o em um ponto tão desesperador quanto o de sua prima enterrada viva (cataléptica) e agora sem nenhum dente na boca…

Bérénice (França, 1954)
Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer (baseado em conto de Edgar Allan Poe)
Elenco: Teresa Gratia, Éric Rohmer
Duração: 15 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.