Crítica | Berenice, Morella, Ligeia e Eleonora, de Edgar Allan Poe

SPOILERS!

Berenice é um conto assustador, daqueles que se a gente prestar bem atenção no que está lendo, certamente sentiremos arrepios pelo corpo, tamanho é o horror e a bizarrice que vemos cercar Egeu, o protagonista e narrador do conto, que começa a sua história com essa frase fenomenal: “A infelicidade é múltipla. A desgraça se alastra na terra em variadas formas.“.

O narrador começa a sua história falando um pouco de sua família, o casarão onde mora, seus inúmeros e misteriosos livros e sua condição de monomania, que o faz ficar por muito tempo com uma ideia fixa, parado, estacionado, pensando em uma única coisa. Nascido na biblioteca da casa, Egeu é a personificação simbólica da racionalidade, da intelectualidade. O mundo à sua volta não é um lugar para se aproveitar, para se viver, e sim para se pensar. Em alguns momentos, o leitor tem a impressão de que o personagem não necessariamente queria isso, mas é algo mais forte que ele: sua atenção é logo desviada por alguma coisa e ele só consegue pensar naquilo.

Em contrapartida, temos na prima do narrador, Berenice, uma pessoa bem diferente. Ela é a encarnação da vida, da agilidade, do aproveitamento empírico do mundo, e assim como é natural para todos os seres vivos, chega um momento em que seu corpo perde a vitalidade e ela começa a definhar. Todos pensam que a morte está próxima. A jovem tem uma série de doenças, sendo a maioria derivadas da primeira e o narrador destaca duas delas: a epilepsia e a catalepsia. É com base nessas informações que Edgar Allan Poe constrói a relação entre Egeu e Berenice e cria o suspense e o chão para sustentar o horror que vem adiante.

Entre os blocos do conto existem alguns pulos que, para mim, trancam um pouco a leitura, especialmente no momento em que Egeu fala de algo relacionado à paixão e ao pedido de casamento. Dos pequenos pulos narrativos e temporais, este é o único ruim, porque aparece como algo importante, mas termina completamente abandonado pelo autor, que escolhe dar atenção para aquilo que é realmente essencial à trama, uma versão extrema dos problemas que já acompanhamos: Egeu tem uma crise de monomania envolvendo os dentes brancos e certinhos de Berenice e a pobre mulher tem ao que parece ser a sua maior crise de catalepsia, o que dá margem para o verdadeiro horror com o qual o conto se encerra. Um tipo de exposição de paixão intelectual diante de um “objeto de estudo” que coloca medo em qualquer um.

Berenice (Berenice – A Tale) — EUA, março de 1835
Publicação original:
Southern Literary Messenger
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
11 páginas

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Morella

Morella plano crítico edgar allan poe

Escrito três anos antes de Ligeia, Morella parece uma preparação de Poe para a história de uma mulher misteriosa, cuja jornada traz consequências inexplicáveis de pós-morte, fazendo o leitor dar outros significados para a tão falada inteligência e capacidade de compreensão de “assuntos complexos” que tal mulher tinha em vida. A diferença entre os dois contos é que Morella tem eventos acavalados no final que atrapalham muito o aproveitamento total da obra.

Assim como outros contos do autor que tratam de identidade ou duplos (William Wilson, O Homem na Multidão e O Retrato Oval), Morella traz primeiro o conhecimento de uma personalidade/pessoa, para que depois a quebra ou a sugestão de uma duplicidade seja entregue. Aqui, o autor fala de Fichte e Schelling como teóricos, coloca em pauta a erudição da mulher e amiga que amava (mas depois não amava mais) e com quem se casara, e apresenta a ideia de continuação da vida de forma básica (gestação), mas dentro de um aspecto que parece uma possessão ou transferência de alma.

A grande surpresa do conto vem realmente no finalzinho e de fato é uma boa surpresa, aterradora mesmo, mas a estranheza que a envolve não me abandonou um só momento. O renascimento de Morella na “filha” (ela gerou uma outra versão de si mesma, não uma “outra pessoa”, certo?) e a aparente relação de dupla vingança com o narrador são boas resoluções, mas o caráter delas não me agradam na totalidade, especialmente porque são resultado de um acavalamento de ações e de tempos no fim do conto que me incomodam bastante. Isso sem contar a gravidez, que aparece do nada, e o trabalho de parto que parece ser apenas uma passagem de brisa, fácil e suave, para uma mulher que estava morrendo. Todo o detalhe em torno da gravidez, do parto e da morte de Morella são bem ruins, mas para a nossa sorte, estamos diante de um conto bem curtinho e de um encerramento que acaba compensando — ao menos no ideal geral de diversão e surpresa — o encadeamento das coisas.

Morella(Morella) — EUA, 1835
Publicação original:
Southern Literary Messenger
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 2, DarkSide Books, 2018
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
6 páginas

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Ligeia

plano crítico ligeia edgar allan poe

Assim como no caso de Berenice, temos aqui um grande amor que acaba mal — muito mal! — e exposto de maneira instigante e bem macabra por Poe. Dessa vez, seu narrador — mais uma vez sem nome — se apaixona por uma mulher que em tudo o que se imagina está à frente dele. Não se trata apenas de uma beleza “diferente”, “peculiar”, com um olhar marcante (notem que o objeto de fixação é o olhar, diferente do sorriso, em Berenice). Ligeia é também uma mulher extremamente inteligente e por tudo o que o narrador fala dela, a primeira impressão que eu tive foi que se tratava de uma criatura extraterrena.

Claro que para a proposta e abordagem do autor isso não é algo a ser considerado, mas pelo menos para mim, foi a impressão imediata. E isso ficou me martelando na mente à medida que eu fui acompanhando a longa narração desse casamento pautado por uma adoração quase religiosa do narrador pela esposa e por uma certa indiferença dela diante dele, mas com a curiosa informação de que tratava-se de um amor compartilhado. Essa relação em tudo chama a nossa atenção para a ideia trágica que pouco a pouco se forma, especialmente quando a morte ceifa a vida de Ligeia e as coisas tomam um rumo bastante diferente para a vida do narrador.

É muito importante que o leitor tenha sentido de fato a paixão e adoração + os detalhes físicos e emocionais expostos na primeira parte, porque na segunda, Poe explora isso não mais como uma mera narração, mas como um tipo de “ataque”. Surgem aí o segundo casamento, o vício do narrador em ópio e sua nova esposa, Rowena, que são uma ponte para o clímax: perturbador pela ânsia que o texto cria no leitor, primeiro sem saber o que esperar e depois curioso pelo que acontecerá com as idas e voltas da moribunda ao mundo dos mortos.

Quando a história seguiu pelo caminho das tapeçarias, todo o contexto da Abadia restaurada, as sombras e uma certa luz com vozes e movimentos num certo ponto dos gigantescos tapetes, firmou-se na minha mente um cenário similar ao de um encantamento. De fato, o elemento etéreo que o conto trabalha — superficialmente é uma história de fantasma, mas acaba se tornando algo mais — une-se a uma força sugerida, mas não nomeada pelo autor. Como se Ligeia fosse alguém com poderes ou conhecimentos necessários para fazer com que sua alma sobrevivesse ao corpo e tivesse a capacidade de reencarnar, imprimindo à sua nova forma o mesma olhar inesquecível que nós tanto lemos sobre… e que parece que conhecemos de perto. Realmente assustador.

Ligeia (Ligeia) — EUA, setembro de 1838
Publicação original:
The American Museum
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
17 páginas

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Eleonora

eleonora- plano crítico edgar allan poe

Um Poe fofo? Amorzinho? Bom… nem só de um tom vive um autor, isso todos nós estamos cansados de saber. A abordagem do autor aqui dá a entender uma leveza falsa — e que trai toda a narrativa –, primeiro escondendo-se do leitor, como uma espécie de maldição confirmada que todos entendemos que irá aparecer, só não sabemos quando ou como; e depois transformando-se em uma celebração da vida e do amor, o que seria interessante se a proposta sustentasse essa conclusão, o que não é o caso.

Eu comecei a rir quando vi a nomeação do local onde a história se passa: o Vale da Relva Multicor (Valley of the Many-Colored Grass), que é inspirado numa elegia pastoral de Percy Bysshe Shelley chamada Adonais: An Elegy on the Death of John Keats, Author of Endymion, Hyperion, etc. (1821). Mas foi um riso de estranheza interessada, não de desgosto ou desprezo. Foi a primeira vez que eu vi uma linha de abordagem tão sonhadora, romântica e adocicada (até certo ponto) vinda de Poe, com uma descrição detalhada desse espaço geográfico cheio de belezas que só não são maiores do que a beleza do rosto, dos olhos, do sorriso, dos cabelos de Eleonora, prima do narrador.

A fortuna crítica do conto constantemente aponta para a possibilidade deste ser um relato autobiográfico, com Poe colocando esses personagens em isolamento e, através deles, contando a sua própria história de vida, aludindo à saúde frágil e possível morte da esposa (Virginia Eliza Clemm Poe, sua prima de primeiro grau que de fato morreria cinco anos depois, de tuberculose, aos 24 anos) e talvez antecipando uma expiação de culpa por pensar novos relacionamentos — como de fato o autor faria, primeiro tentando um noivado com a poetisa Sarah Helen Whitman (um noivado que não aconteceria por conta das constantes bebedeiras de Poe e seu deplorável comportamento enquanto bêbado), e depois cortejando um antigo amor da juventude, Sarah Elmira Royster.

O que pega para mim aqui é a total falta de unidade nesse Paraíso terrestre do amor que é atormentado pela morte. A promessa tão bem fixada no texto e os horrores prometidos são posteriormente jogados fora em detrimento da “vitória do novo amor, da nova paixão“. Ao menos se houvesse uma explicação além da cartada divina (bem ao estilo “é assim porque é uma resolução celestial, apenas aceite!“), o resultado poderia ser diferente. De toda forma, o início da história vale bastante a pena.

Eleonora (Eleonora) — EUA, 1842
Publicação original:
The Gift: A Christmas and New Year’s Present for 1842 (Carey and Hart)
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
7 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.