Crítica | Berenice Procura

Segundo relatório da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em 2018, o “Brasil” matou 163 pessoas trans, mais da metade por armas de fogo. A leitura do documento é algo que pede bastante coragem, tamanha a quantidade de informações sobre a crueldade que envolve tais crimes, geralmente relatados como praticados com alto teor de violência. Os alvos, segundo os dados, têm cor e idade: 82,5% são negras e pardas, entre 17 e 29 anos. Muitos casos, ocorridos por conta do envolvimento com a prostituição, revelam como a baixa escolaridade, provocada pelo processo de exclusão do âmbito educacional e familiar, eventos simbolicamente violentos, marginaliza tal grupo. Isabelle, personagem de Berenice Procura, é uma representação ficcional deste universo de calamidade e intolerância.

Para alguns é apenas uma série de pessoas que adotam uma postura de vítima gratuita, mas devo dizer representatividade importa. E muito. Filmes como Berenice Procura não ganham a nossa simpatia e atenção apenas por seus bons elementos estéticos e dramáticos, mas por delinear questões que ainda são singulares num tema que deveria fazer parte de uma pluralidade de produções relevantes e de grande alcance do público, isto é, a representatividade trans, bem como a incômoda violência e a exclusão de um grupo marginalizado.

Com isso, cabe ressaltar que Berenice Procura não é apenas um panfleto sociológico sobre respeito ao grupo em questão, mas é também uma narrativa repleta de altos e baixos estéticos e dramáticos, com bons pontos visuais que nos remetem ao cinema noir. Funciona por duas vias: entretenimento inteligente e debate de questões sociais num país cada vez mais ameaçador para os grupos que lutam por representação justa e igualitária.

Dirigido por Allan Fiterman, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de Flávia Guimarães, o filme nos traz a história de Berenice (Cláudia Abreu), uma taxista de cotidiano massacrante. Seu casamento é um fracasso, ao lado do misógino Domingos (Eduardo Moscovis). Para piorar, o seu relacionamento com Thiago (Caio Manhete) é outro desastre, pois o jovem se mantém cada vez mais distante e inexpressivo quando o assunto é a família estilhaçada. Ao circular pelas ruas do Rio de Janeiro, fotografado de maneira espetacular, haja vista a presença de sombras e outros recursos de iluminação que frisam uma atmosfera noir, ela se vê envolvida numa intrigante investigação de assassinato.

A vítima? Isabelle (Valentina Sampaio), uma trans que precisa sobreviver numa cidade cada vez mais minada pela violência. Sob o olhar e a truculência da grosseira Greta (Vera Holtz), proprietária do clube noturno onde os principais personagens vivenciarão experiências perturbadoras, Isabelle desempenha seu trabalho e se envolve com a prostituição, além de manter um relacionamento que no desfecho da lenta curva dramática da narrativa, proposital para o efeito catártico no espectador. Em sua “investigação”, Berenice descobre coisas que estavam latentes no fragilizado ambiente familiar, prontos para eclodir a qualquer instante. O crime de Isabelle deflagra não apenas os dados violentos nossos de cada dia em relação ao grupo de pessoas trans, mas reflete em seu cadáver frio e mórbido, as hipocrisias e inconveniências cotidianas, representadas com maestria pelos tipos que trafegam pela narrativa.

Ao longo de seus 90 minutos, desfilam muitos personagens. Alguns bem aprofundados. Outros superficiais, no entanto, todos em gravitação para o devido funcionamento da constelação fílmica. Eduardo Moscovis interpreta um marido distante e machista. Ele é um jornalista do que chamamos de imprensa sensacionalista: vulgar e preconceituoso, o personagem de Moscovis dialoga bem com Greta, proprietária da boate onde boa parte da narrativa se desenvolve. Oportunista e egoísta, a empreendedora ganha contornos que vão além do simples vilanesco, graças ao desempenho formidável de Vera Holtz.

Caio Manhete cumpre bem o seu papel como o filho da família disfuncional de Berenice, Emílio Dantas e Leonardo Brício entregam participações que somam ao material, mas o grande destaque, além da protagonista interpretada pela excelente Cláudia Abreu é Isabelle, personagem que ganha vida por meio de uma atriz trans, um caso de representatividade importante na seara do cinema brasileiro. Valentina Sampaio, modelo cearense que pode se gabar de ser a primeira trans a estampar a capa da revista Vogue assume o papel com garra e entrega um bom desempenho dramático. Ao apresentar uma performance de Amor Marginal, de Johnny Hooker, a jovem atriz não apenas magnetiza os personagens ao seu redor, mas o público que lhe assiste do lado de cá da tela.

Carolina Ferraz, ao interpretar uma travesti em A Glória e a Graça, colaborou com a permanência do tema na mídia, tal como Ivana, personagem da dramaturga Glória Perez na telenovela A Força do Querer, jovem que não se reconhecia em seu próprio corpo. São debates importantes e de alguma relevância, mas ainda insuficientes quando tais personagens precisam ser representadas por atores e atrizes trans, uma barreira ainda muito suntuosa, o que impede o devido dialogo coerente entre o que se reflete e o que se pratica.

Adaptação do romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza, a produção segue um bom ritmo, com condução musical de João Paulo Mendonça, profissional responsável por pontuar aspectos sonoros interessantes, somados ao bom desenvolvimento da captação de imagens da equipe de Azul Serra, diretor de fotografia. Fábio Jordão, na edição, colabora com a simbiose entre imagem e som, transformando Berenice Procura numa experiência audiovisual positiva para nossa cinematografia. Em suma, um filme curioso, necessário e responsável por trazer outros olhares para o diverso cinema brasileiro contemporâneo.

Berenice Procura (Brasil, 2017)
Direção: Allan Fiterman
Roteiro: Flávia Guimarães
Elenco: Cláudia Abreu, Danubia Firmo, Debora Zagha, Eduardo Moscovis, Emilio Dantas, Fabricio Assis, Fran Burle Marx, Gabi Katz, Gabriel Sanches, Guta Ruiz, Leonardo Brício, Renan Mattos, Ricardo Ferreira, Thalita Zampirolli, Valentina Sampaio, Vera Holtz, Alessandro Brandão, Brigitte Buzios, Caio Manhente, Carol Marra,
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.