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Crítica | Bernardo e Bianca

por Gabriel Carvalho
577 views (a partir de agosto de 2020)

“Talvez Rufus, o gato, esteja certo. O que dois ratos podem fazer?”

Uma aventura simpática. Não é muito complicado simplificar tudo o que Bernardo e Bianca, animação lançada no mesmo ano que o longa As Aventuras do Ursinho Pooh, é. Tendo sido baseado nos livros The Rescuers e Miss Bianca, ambos de Margery Sharp, o filme abrange uma missão destinada a Sociedade de Resgate, organização composta por ratos das mais diferentes nações. Na trama, uma jovem garotinha sumiu e cabe à Bianca (Eva Garbor), ao lado do porteiro Bernardo (Bob Newhart), salvarem-na das ameaças existentes no mundo, seja crocodilos gigantes, seja exploradoras gananciosas. Mas como dois ratos conseguirão realizar tal feito? Com a ajuda de muitos parceiros de viagem, é claro. Sendo assim, Bernardo e Bianca conta com um vasto elenco de personagens coadjuvantes, os quais, em suma, são bastante simpáticos. Como maior destaque, a ave Orville (Jim Jordan, em último papel de sua carreira) protagoniza momentos divertidíssimos, comparando-se a um avião e assumindo, consequentemente, uma aproximação da sociedade humana a sociedade de ratos. Curiosamente, o nome do personagem é dado em referência a um dos irmãos Wright, pioneiros da aviação. Aliás, muitos aspectos que vivemos são levados para esse novo universo, de escala muito menor ao “real”, algo que, em termos de imagem, cria inventivos contrastes diante do reajuste na proporção dos objetos em relação aos protagonistas.

Mas, ainda antes de sermos apresentados a Orville, a jornada teria seu princípio, introduzindo uma dupla de heróis improváveis. A mocinha assume papel dianteiro em relação ao trabalho, e Bernardo, que nem era um voluntário, é chamado por ela para participar da missão, resgatar uma menina de altos apuros. Sob uma análise anacrônica, abre-se espaço na obra para certas críticas em relação a função de Bianca na narrativa, visto que a personagem, sempre ela, acaba em apuros, precisando ser salva por Bernardo – caindo da ave, durante a explosão dos fogos de artifício, e quase se afogando na água, enquanto era guiada por Evinrude, uma libélula marcante, diferente das inúmeras personalidades que surgem, abruptamente, para ajudar no resgate de Penny (Michelle Stacy), a garotinha sumida. A relação entre os dois protagonistas também caminha sobre águas comuns, sem muito destaque, com uma fortificação na conexão gradual, paralela ao tempo de tela destinado a eles. Uma pena que, durante essa trajetória, de Nova Iorque ao pântano do ato final, pouco seja dedicado à investigação, a qual permanece existindo de uma maneira simplificada, sem rodeios maiores. A garrafa é enviada, os ratos passam pelo orfanato, lar de Penny antes de seu desaparecimento, e, não muito tempo depois, já estão a caminho do pântano. A qualidade de animação básica não promove, ao lado da pouca variedade de cenários, uma obra com todo o chamativo visual possível pela realidade dos protagonistas, personagens pequenos em um mundo gigantesco.

Ademais, para uma animação destinada a crianças, é bastante interessante uma abordagem em relação a questão do trabalho infantil. Porém, muito pouco Bernardo e Bianca tem para falar sobre isso, visto que a simplificação em relação às figuras antagônicas não permite um aprofundamento suavizado. A jovem Penny foi sequestrada por uma razão débil, pouco crível, que emburrece a narrativa visando um consumo presumidamente mais acessível. A Madame Medusa (Geraldine Page) não poderia ter usado de seculares técnicas de mineração para conseguir o seu precioso diamante? A justificativa para a necessidade de uma criança, coincidentemente essa criança, é bastante falha. Aliás, a vilã acaba sendo, de certa forma, externamente e internamente, uma versão reciclada de Cruella de Vil, antagonista de 101 Dálmatas, mas sem o mesmo charme indescritível e crueldade deliciosa de acompanhar. De semelhanças, nota-se o caráter histérico da personagem, impulsionado exageradamente pelas coisas horríveis ditas por ela de modo indiscriminado à Penny, assim como a existência de um capanga deveras atrapalhado, servindo de pontual alívio cômico. Dentro desse meio, apenas os corpulentos crocodilos, Brutus e Nero, tem algum carisma a mais. Em termos de vilões, portanto, o espectador não tem mais nada a fazer senão lamentar a inexistência de antagonistas mais bem resolvidos, capazes de serem equiparados aos ótimos protagonistas.

Mas Penny é uma personagem extremamente amável, o ponto alto desta aventura simpática. Por acertar no alvo do resgate, este, ainda simplíssimo, torna-se deveras mais instigante; queremos que ele seja executado e torcemos pelo final feliz da história. A apresentação de Rufus (John McIntire) contribui para uma identificação do público com a garotinha, embora a questão da adoção seja inserida no meio de tudo isso aleatoriamente, criando-se algo de bom, no final das contas, para a menina sonhar. A música Someone’s Waiting For You engloba o sentimento de tristeza atrelado à Penny, apesar dela não se dar por vencida, lutando bravamente para fugir, por contra própria, sem ajuda de ninguém. Um adendo a participação especial de Bambi e sua mãe, durante esse segmento. Todavia, a independência, em alguns casos, não nos fazem atingir os sonhos que ousamos sonhar, mantendo-nos estagnados. O resgate pode vir de qualquer lugar, até dos mais improváveis. Por fim, a atribuição de coragem, de dever aos protagonistas do filme, é notável. Bernardo questiona a sua capacidade, mas é relembrado pela grudenta, mas significativa e cantarolante, Rescue Aid Society. A música em Bernardo e Bianca assume um importante papel, quase sabotado pela genérica Tomorrow is Another Day. Em suma, com todas essas características apresentadas, a vigésima-terceira incursão cinematográfica da Walt Disney Animation Studios acaba por ser meramente simpática.

Bernardo e Bianca (The Rescuers) – EUA, 1977
Direção: Wolfgang Reitherman, John Lounsbery, Art Stevens
Roteiro: Larry Clemmons, Vance Gerry, Ken Anderson, Frank Thomas, Burny Mattinson, Fred Lucky, Dick Sebast, David Michener, Ted Berman
Elenco: Bob Newhart, Eva Gabor, Michelle Stacy, Geraldine Page, Joe Flynn, Jim Jordan, John McIntire, Jeanette Nolan, Pat Buttram, Bernard Fox, George Lindsey, Dub Taylor, John Fiedler
Duração: 77 min.

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13 comentários

Diogo Maia 7 de janeiro de 2021 - 09:44

Disparada a melhor animação do estúdio dos anos 70, época que ficou conhecida como a “Era de Prata da Disney”. O filme tem um clima melancólico e até mesmo pesado para uma obra infantil. Obviamente os vilões são mal desenvolvidos, até mesmo para os padrões do gênero, e o plano da Medusa é ridículo (consigo pensar em pelo menos umas dez soluções mais fáceis para se obter o tal do diamante em vez de simplesmente apostar num sequestro de uma menina). Entretanto, o charme é assegurado pela Penny, uma das melhores protagonistas da filmografia da companhia. A garota tem muita atitude e o seu drama pode ser sentido apenas no tom de voz da dubladora. Outro ponto negativo é a relação entre o Bernardo e a Bianca, que é meio estranha. Parece que a segunda fica se insinuando para o primeiro desde a primeira cena dos dois juntos, gerando uma tensão sexual despropositada para uma obra para crianças. No mais, os personagens coadjuvantes são simpáticos e carismáticos e a trilha sonora é deliciosa, sendo que a “Tomorrow Is Another Day” certamente está entre os meus temas favoritos do estúdio, acima de outras canções mais famosas e muito mais badaladas pela crítica e pelo público. Recomendadíssimo. Nota 7/10.

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paulo r carvalho jr 31 de maio de 2018 - 20:01

Obrigado pela critica. Simplesmente amo esse filme. Deixando a nostalgia de lado entendo os pontos levantados pela critica, mas para um filme infantil daquele tempo, creio que ele atende a carga dramática que a história pede. Tem seus furos é claro e por isso vale a critica, mas aos olhos de uma criança tais pontos são meramente desinteressantes. Excelente filme para assistir com os pequenos. Um clássico que merece ser revisitado sempre e instiga a conhecer os livros da coleção.

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Gabriel Carvalho 2 de junho de 2018 - 16:51

Eu acredito que o filme é bastante divertido para crianças, de fato. A perseguição final é muito boa. Por isso, Bernardo e Bianca não chega a estar no panteão dos maiores fracassos e acaba sendo relembrado por certas pessoas como um de seus filmes favoritos do estúdio. A memoria afetiva pega bem nesse caso.

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paulo r carvalho jr 3 de junho de 2018 - 13:23

É verdade. Não existe filme perfeito e cada um de nós tem sua interpretação de um ou outro filme mas poder conversar sobre eles e sugerir novas opções tornam esse exercício muito divertido e recompensador.

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G. Hoffmann 1 de junho de 2018 - 12:47

Pô muito legal isso! Eu penso que teria sido benéfico para esse filme terem usado a Cruella de uma vez, já que realmente a Madame Medusa fica um pouco aquém do charme dos outros núcleos do filme.

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Herbie: The Love Bug 1 de junho de 2018 - 14:15

Acontece que, se fosse a Cruella no lugar da Madame Medusa, os crocodilos teriam aparecido no filme de forma um tanto quanto diferente….as imagens do “casaco” que a Cruella está usando nas artes conceituais explicam tudo. Kkkkkkkk
Vi que Bernado e Bianca foi o último filme do ator Joe Flynn. Ele estrelou vários filmes da Disney com o Kurt Russell (que começou como ator lá, ainda teve a chance de conhecer o Walt Disney). Morreu afogado em 1974. Ele dublou o Mr. Snoops.

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Gabriel Carvalho 2 de junho de 2018 - 16:49

Que morte horrível teve Joe Flynn. Infelizmente, Mr. Snoops não é um personagem memorável

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Herbie: The Love Bug 2 de junho de 2018 - 20:13

Ele e o David Tomlinson estavam bem engraçados em Se Meu Fusca Falasse. Tomlinson era o típico Dick Vigarista, e Flynn era seu mero capanga que só obedece o chefe e mesmo assim é xingado por algum motivo besta kkkkkkkkkkkk
Aposto que se esse acidente terrível não tivesse acontecido, ele ainda teria contribuído muito mais com a Disney. Acho que ele deveria ser colocado como um Disney Legend. Fez 10 filmes para o estúdio.

Huckleberry Hound 29 de maio de 2018 - 09:26

Pesquisei pra ver se esse negócio foi real ou fake acontece aos 28 minutos em apenas 2 frames do filme e ouvi falar que a própria Disney falou que foi brincadeira de um estagiário!

http://1.bp.blogspot.com/-kmds4GHUSw4/UgsXrCbzqiI/AAAAAAAAZWw/hj4AqmGV46c/s1600/bernardo+e+bianca+Mensagens+Subliminares.jpg
Se o filme é infantil acho que isso foi uma brincadeira bem pesada,você passou em câmera lenta pra ver?

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Alvaro Viana Batista 2 de junho de 2018 - 10:39

O que é? Não consigo ver.

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Huckleberry Hound 2 de junho de 2018 - 11:30

Aparentemente um corpo nú de mulher é impossível ver sem saltar os frames muito lentamente!

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Gabriel Carvalho 2 de junho de 2018 - 16:47

Isso só foi possível ser visto quando o filme foi lançado em plataformas caseiras. Ver isso no cinema era impossível, por ser extremamente rápido. Uma brincadeira que acabou fazendo a Disney recolher milhares de cópias.

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