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Crítica | Berserk – Vols. 3 a 5: A Era de Ouro (Início)

por Kevin Rick
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Quando eu fiz a crítica de O Guardião do Anjo do Desejo, eu realmente pensei no projeto de trazer Berserk para o Plano Crítico como algo esporádico, considerando a irregularidade pela qual a série é lançada. Iria ler e escrever quando quisesse retornar a este fantástico universo, com a mesma (falta de) periodicidade do genial Kentaro Miura, do qual todos nós, fãs da série, ficávamos bravos, fazíamos piada e, acima de tudo, compreendíamos. Infelizmente, é com imensa tristeza que escrevo sobre o falecimento deste grande autor que tem agraciado a arte com sua magnum opus desde os anos 80.

Kentaro Miura, 54 anos de idade, no dia 6 de maio de 2021, morreu devido a uma dissecção da aorta, e na madrugada do dia de hoje (20 de maio de 2021), a editora japonesa Hakusensha, casa da sua obra Berserk, divulgou seu falecimento ao público. Mais um gênio nos deixou muito cedo, e ficamos órfãos do trabalho especial de um artista que sedimentou um legado gigantesco.

E assim, com o coração dolorido, a mente pesada e lágrimas escorrendo, eu presto minha efêmera forma de homenagem à Miura ao trazer meus devaneios e experiência com sua tão querida série, Berserk. Vamos lá.

Arco: A Era de Ouro

Capítulos: 0I a 0P – A Era de Ouro

Como eu já frisei na crítica anterior, a numeração inicial da série é um caso a ser estudado, com capítulos (ou episódios como são chamados), tendo denominações alfabéticas de 0+letra, compondo a primeira saga Espadachim Negro, e mantendo-se assim durante O Guardião do Anjo do Desejo, e também os primeiros oito capítulos do arco mais célebre do mangá: A Era de Ouro. É um arco simplesmente gigantesco, compilando mais de dez volumes, logo, seria impensável eu fazer uma crítica completa dele, e, aqui, trago os capítulos “finais”, no sentido de anteriores à numeração normal da série, que também recebem o nome de A Era de Ouro, e acompanham a trágica história de origem do sofrível Guts. E, caramba, coloca trágico nisso.

Eu considero Miura um dos pioneiros no que chamamos Dark Fantasy, e certamente é um dos autores que popularizou o subgênero que mistura high fantasy e Espada e Feitiçaria com um abordagem mais, digamos, visceral e um enfoque no horror como elemento atmosférico de construção de mundo. Dito isso, curiosamente, o mangaká desvencilha-se do fantástico na gênese de Guts, e busca no medieval a subversão dos clichês de fantasia e de mangás ao colocar o escolhido em um âmbito pessimista e destrutivo.

Guts é o filho da maldição ao ser encontrado em um local de morte, sendo criado por uma mulher doente e castigada, e uma “figura paterna” torturante e maldosa, que, num ato de pura crueldade, vende o corpo do jovem para que um soldado possa estuprá-lo. Miura expõe no nanquim a extrema violência sexual e de combate, a ambiguidade moral e, acima de tudo, o realismo histórico para conceber seu conto de fadas macabro. À medida que Guts amadurece, ele não é apenas o filho da maldição, mas torna-se o resultado do descaso humano, o fruto da batalha e a cria do trauma. Ele lentamente assume seu papel imposto de anti-herói, só que em seu cerne de caracterização e construção emocional, Guts é a personificação da proposta de Miura: a tragicidade humana no medieval, com a fantasia, ainda sem espaço aqui, como mais um elemento de soma de horror do que necessariamente um escapismo.

Tudo é bastante chocante e difícil de ler, proporcionando uma experiência emocional e moral totalmente negativa no leitor. Sabe aquele tipo de livro, filme ou quadrinho que você não tem vontade de revisitar por causa do choque visual? Esse é o nível de impacto com a origem de Guts. Mas, e sempre temos um “mas”, acaba sendo, em certa medida, situações esperadas pensando no arco anterior que somos apresentados a um Guts adulto melancólico e traumático. Termina por ser uma ilustração das entrelinhas da composição do personagem. Contudo, Miura torna as coisas interessantes ao inserir o otimismo na vida do futuro Espadachim Negro.

A segunda metade no mini-arco nos apresenta o Bando do Falcão, um grupo de mercenários liderados por Griffith. A inserção destes personagens provocam uma curiosa inversão de expectativa para o rumo da história, pois situa o solitário e perturbado Guts em um grupo coeso, amigável e familiar. Essa proposta esperançosa numa narrativa até agora derrotista é melhor construída na relação de Guts com Griffith, um personagem aparentemente oposto ao protagonista: angelical, sorridente, alegre, gracioso, pueril, mas igualmente destemido e habilidoso. Griffth é o escolhido, o filho da esperança, e a luz nas trevas de Guts, mostrando para o protagonista a importância da fraternidade, amabilidade e, especialmente, o poder de um objetivo.

A pergunta é “Até quando isso vai durar?”, pois sabemos o futuro do personagem pelos arcos anteriores, então Miura inteligentemente traz o artifício da idealização para um mangá sobre o trágico. Isso mantém o interesse e a curiosidade do leitor, além de compor complexidade a um personagem que apenas conhecia o conflito. Berserk evolui tematicamente, enquanto continua desconstruindo a típica história do anti-herói de fantasia, aqui muito mais calcado no medieval, e busca diversidade narrativa ao trazer o interessantíssimo Griffith como oposto, amigo e líder idealizado do bruto.

Kentaro Miura tinha plena consciência do poder de sua história, se tornando influência para várias obras de fantasia em múltiplas mídias, e continuaria chocando e entretendo por muitas décadas. Infelizmente, seu período conosco terminou, mas seu trabalho continua eternizado. Descanse em paz, Kentaro Miura. Nós agradecemos.

Berserk – Vols. 3 a 5: A Era de Ouro (黄金時代篇, Ōgon Jidai-hen) – Japão, 1991/1993
Roteiro: Kentaro Miura
Arte: Kentaro Miura
Editora (no Brasil): Panini
Editora (no Japão): Hakusensha
480 páginas

 

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