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Crítica | Better Call Saul – 1X04: Hero

por Ritter Fan
199 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Obs: Há spoilers da série. 

Mais um capítulo que abre no passado de Jimmy McGill, quando ele era conhecido como Slippin’ Jimmy. E agora entendemos exatamente que tipo de golpes ele fazia antes de ser “convertido” por seu irmão Chuck (provavelmente logo após o flashback que vemos em Nacho). Além de servir de uma espécie de prelúdio à ação no decorrer de Hero descobrimos, finalmente, de onde vem o nome Saul Goodman.

É que, em conversa com sua vítima, outro malandro, Jimmy solta a frase “it’s all good, man” em sua corruptela “s’all good, man” que significa, simplesmente, “está tudo certo, cara”. Divertido e muito bem pensado, dando um toque de inteligência ao peculiar nome que viria a ser escolhido pelo protagonista.

Quando o passeio ao passado acaba, voltamos imediatamente ao ponto em que Nacho se encerrou: Jimmy está conversando com os Kettleman logo após de descobrir onde  estavam escondidos. O dinheiro todo que eles roubaram está lá, ao pé do grupo e vislumbramos a última barreira de honestidade de Jimmy desabar completamente. Os Kettleman oferecem dinheiro para ele ficar quieto ao que Jimmy responde que não. Eles insistem e a resposta ainda é não. Insistem novamente e a certeza de Jimmy começa a falhar. Mais uma vez e Jimmy sugere que os Kettleman o contrate como advogado e o dinheiro seria uma espécie de pagamento adiantado (o chamado retainer). Os Kettleman se negam e dizem o porquê: Jimmy parece o tipo de advogado que é contratado por gente culpada.

He, he. Realmente. Os Kettleman têm bom faro, sem dúvida. Mas acontece que, até aquele momento, Jimmy era só um advogado tentando sobreviver dentro da lei (ok, quase). Quando ele pega o dinheiro – o que só descobrimos com certeza alguns minutos depois em uma tomada com câmera baixa, com Jimmy em sua escrivaninha – seu rito de passagem se completa. Ele volta a ser Slippin’ Jimmy.

Ou será que não?

Afinal, o roteiro de Gennifer Hutchison está longe de ser óbvio. Ele escreve o episódio de maneira a nos manter na dúvida o tempo todo sobre qual é exatamente o plano que Jimmy imagina em sua cabeça para se vingar de Howard Hamlin (Patrick Fabian), co-fundador (junto com Chuck McGill, irmão de Jimmy) do escritório Hamlin, Hamlin & McGill. No começo, vemos uma tentativa boba de copiar a marca do escritório de Hamlin, mas essa trama de se desenvolve com Jimmy se transformando primeiro em vítima e, depois, no herói do título.

A atuação de Bob Odenkirk ajuda muito na farsa que Hutchison tenta estabelecer. Ele parece muito sincero, especialmente depois de tentar se mostrar honesto perante os Kettleman. Estabelece-se dúvida se ele pegou o dinheiro e, depois, as apostas ficam mais altas e o episódio vai sendo montado a partir de nossas certezas, mas que são derrubadas aqui e ali por uma narração esperta e uma construção crível.

Mas é claro – evidente até – que a tentativa de Vince Gilligan de enganar seu espectador jamais poderia funcionar (se funcionou no seu caso, ótimo!) já que estamos lidando com o ex-Slippin’ Jimmy (olha o flashback aí!) e, mais importante ainda, o futuro Saul Goodman. Não havia qualquer possibilidade dos acontecimentos não serem armação.

E esse é, ao mesmo tempo, o ponto forte e o fraco de Hero. O episódio inteiro lida com o golpe de Saul, digo, Jimmy e o flashback ainda deixa claro o desfecho. Com isso, qualquer traço de surpresa desaparece, retirando a efetividade da brincadeira. No entanto, por  outro lado, é lógico que Gilligan não é bobo e não quer tratar seus espectadores como bobos. Ele está contando a origem de um salafrário e o que vemos em Hero, sem rodeios, é o primeiro de potencialmente muitos outros grandes golpes do nosso “herói”. É o começo efetivo da queda de Jimmy ao inferno (na concepção do sofrido Chuck, ao menos) ou sua subida ao paraíso do “advogado de bandido” como profeticamente diz Betsy Kettleman ao oferecer dinheiro em troca de seu silêncio.

A costura da narrativa é brilhante. Há uma espécie de casamento perfeito entre diálogos e a atuação de Odenkirk que hipnotiza o espectador de tal forma que os pouco mais de 45 minutos do episódio passam como se fossem 15. E Hero é um show quase que exclusivo do ator, que tem muito o que fazer durante toda a projeção e ganha generosos close-ups fixos da câmera comandada por Colin Bucksey, veteraníssimo diretor britânico que já dirigira episódios de Breaking Bad e também da 1ª temporada da soberba série Fargo, de 2014.

E aos poucos Better Call Saul vai saindo da sombra da série original, caminhando a passos largos para tornar-se uma das melhores séries novas de 2015.

Better Call Saul – 1X04: Hero (EUA, 2015)
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Colin Bucksey
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Michael McKean, Raymond Cruz, Julie Ann Emery, Jeremy Shamos, Steven Levine, Daniel Spenser Levine, Eileen Fogarty
Duração: 46 min.

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14 comentários

planocritico 6 de setembro de 2018 - 15:23

Primeiro, desculpe-me pela demora em aprovar seu comentário! Segundo, MUITO OBRIGADO pelos elogios e pelo prestígio! Isso é muito importante para nós.

Sobre Jimmy, nossa, ainda tem MUITA coisa a acontecer. Acho que você vai adorar! Continue assistindo.

Abs,
Ritter.

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Leticia Rodrigues 17 de agosto de 2018 - 10:37

Amei a crítica! Confesso que tive esperanças no Jimmy, dá pra ver a vontade dele de fazer as coisas certas, mas realmente nada conspira pra ele conseguir ir por esse caminho! Acho que por esse motivo ele sempre me engana e eu me sinto maravilhada quando vejo que foi tudo uma armação! Espero que não passe nunca, pois a sensação de surpresa é ótima! hahah
Não vejo a hora das coisas começarem a dar certo pra ele (independente de ser pelo caminho ‘certo’ ou ‘errado’), pra mim ele merece!
Estou lendo as críticas da série conforme vou assistindo e não assisti Breaking Bad então não sei nenhum spoiler da série.
OBS: Amoooo vocês! Tudo que vou assistir (até lançamento) leio a crítica de vocês antes <3

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Jonatas Cardoso 18 de março de 2015 - 13:14

Galera, eu nao entendi o golpe q ele aplicou no começo. Alguem pode me explicar? Se o cara deixou a carteira com o dinheiro janera deles entao e o outro levou um rolex falso. O golpe eh soh ferrar com os caras q querem o rolex?

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planocritico 18 de março de 2015 - 15:35

@jonatas_cardoso:disqus, o Slippin’ Jimmy e o cara que se finge de bêbado estão juntos no golpe. Jimmy “acha” a carteira com dinheiro no beco e aponta para o desmaiado.

A carteira fica com o “otário”, pois Jimmy finge que quer o Rolex, que não é Rolex, mas o “otário” acha que é. Então, o “otário” oferece o dinheiro achado pelo Rolex. Até aí, não tem golpe algum. Mas Jimmy diz que não, que o Rolex deve valer mais. Assim, o “otário” entrega a carteira (que já era de Jimmy e do “bêbado”) e MAIS dinheiro do próprio bolso (acho que 600 dólares, se não me engano). É esse o golpe. Pegar esse dinheiro a mais oferecido pelo “otário” que se acha esperto.

Entendido?

Abs,
Ritter.

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Jonatas Cardoso 18 de março de 2015 - 18:38

Entendi! Nao tinha me apercebido dos outros 600 dolares!
Vlw!

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planocritico 19 de março de 2015 - 15:23

É uma cena muito rápida mesmo. E no escuro.

Abs,
Ritter.

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Clayton Fernandes 2 de maio de 2020 - 20:31

Também não tinha percebido!!! Comecei a ver esta semana!!!

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Deathstroke 2 de março de 2015 - 01:33

É engano meu, ou nesse episódio temos um ‘easter egg’ de Braking Bad, no momento em que o irmão de Saul saiu de casa para pegar o jornal na casa vizinha, me pareceu muito com a casa que posteriormente pertenceria a família do nosso querido Professor Walter White?

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planocritico 2 de março de 2015 - 14:49

@Nerd_HELLvesgo:disqus, confesso que, por alguns segundos, cheguei a ter essa impressão, mas acho que não é não. No entanto, nunca se sabe!

Abs,
Ritter.

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Karam 26 de fevereiro de 2015 - 23:12

Vi os dois primeiros EPs. F.O.D.A.

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planocritico 27 de fevereiro de 2015 - 19:09

Continue vendo, pois a série continua do mesmo jeito!

Abs,
Ritter.

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Karam 29 de junho de 2015 - 16:20

Terminei a temporada e achei excelente. Mas agora que terminei Fargo, Better Call Saul foi eclipsada hahaha

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André Santana 26 de fevereiro de 2015 - 14:13

Realmente, um episódio muito bom, crítica bem feita, só faltou fazer alguma referência aí daquela musiquinha brasileira de fundo, na cv no salão onde Saul mora, msm pq, não é todo dia que fazem referência ao Brasil em séries americanas.

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planocritico 26 de fevereiro de 2015 - 16:30

Obrigado, @disqus_nTZEtygNcL:disqus! Sobre a música ao fundo, confesso que cheguei a anotar para comenta, mas acabei de esquecendo de escrever! Mas seu comentário fez os reparos necessários.

Abs,
Ritter.

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