Crítica | Better Call Saul – 5X02: 50% Off

plano crítico Better Call Saul – 5X02 50% Off

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Na crítica do episódio anterior, apontei como único ponto negativo a desconexão entre as histórias de Saul Goodman e de Gus Fring e companhia. Esse aspecto de Better Call Saul não é propriamente uma novidade e nem algo que definitivamente desabone esse magnífico prelúdio spin-off de Breaking Bad, mas, pessoalmente, sempre me incomodou.

Tinha certeza de que alguma hora isso ia mudar e faz absoluto sentido que seja a partir de agora, com Jimmy assumindo de vez sua persona que reúne as melhores (ou piores, dependendo do ponto de vista) qualidades de Slippin’ Jimmy e Jimmy McGill. 50% Off parece um episódio equivalente àquela peça que faltava para o quebra-cabeça fazer sentido. Não é a peça final, que fique claro, mas sim aquela que efetivamente permite um vislumbre mais exato do que virá. 

A sequência de eventos é magistral, uma verdadeira aula de roteiro. Do lado “das drogas” vemos Nacho ser ameaçado por Gus que exige que ele estabeleça uma relação de confiança com Lalo e a oportunidade vem durante uma batida policial em um dos pontos de venda de droga dos Salamancas, com Nacho arriscando ser preso para mostrar a Lalo que tem valor. E tudo isso vem fortemente contextualizado e, diria, deflagrado, pelos dois marginais que se sentem impunes depois que “ganham” os tais 50% de desconto do título sobre os honorários de Saul, precisamente o que Kim dissera que aconteceria se seu parceiro oferecesse isso a seus clientes. A fluência dos acontecimentos no roteiro de Alison Tatlock é, sem papas na língua, absolutamente irretocável, com a direção de Norberto Barba materializando o texto com excelentes momentos de tensão, todos eles curiosamente tendo o interior de automóveis como elemento central. 

Do lado de Saul, a percepção de encadeamento de eventos não é menos espetacular. Em diálogos precisos que Borba decora com um plano-sequência frenético nos corredores do Tribunal onde Saul transita com seu terno espalhafatoso, aprendemos que sua estratégia de representar pequenos marginais deu muito certo e que sua abordagem malandra tem gerado bons resultados, nem que para isso ele tenha que dar um jeito de “forçar” uma reunião de elevador com a promotora que tem 16 casos em comum com ele. A instituição Saul Goodman está de vento em popa.

No entanto, é interessante notar a relação de Jimmy com Kim, algo que ganha a dedicação de vários minutos de tela nesse episódio e nenhum deles gratuito ou expletivo. Primeiro, temos a frieza do tratamento que Kim dispensa a Jimmy, algo que não é de hoje, é verdade, mas que se intensificou com a assunção da personalidade Saul Goodman. Jimmy, por seu turno, parece perceber isso e tenta mitigar os problemas mostrando o que reputo ser uma demonstração genuína do que parece ser sua versão de amor: deixar muito evidente para Kim, com a visita de supetão a uma casa à venda, que ele vê um futuro em que eles permanecem juntos, com a tradicional sessão de filmes clássicos à noite. 

São sequências muito bonitas, mas melancólicas em essência. Jimmy – e venho usando esse nome por estar convicto que ele ainda não é Saul de corpo e alma e talvez nunca venha a ser –  parece ver um fim para os dois e a visita à casa não vem apenas da vontade de mostrar que ele ama Kim, mas sim, também, do desejo de confessar seu pecado de ter se vendido pela metade do preço. Kim, sisuda e distante no começo, acaba conseguindo entrar no espírito da brincadeira e entrega-se ao chiste, mas sem realmente convencer, sem mostrar que está ali de braços abertos. Ver Bob Odenkirk e Rhea Seehorn contracenando em momentos acridoces como esses, por outro lado, é um privilégio que fará muita falta quando a série chegar a seu fim na próxima temporada.

A confluência narrativa, então, dá-se com o que podemos chamar de cliffhanger para o próximo episódio, com Jimmy sendo levado por Nacho provavelmente para livrar Krazy-8 da prisão, algo que tende a colocar Saul em seu patamar mais “evoluído” de advogado de peixe grande e não só de marginais de ocasião. Uma cena final simples – diria até óbvia – mas que é resultado de um encaixe de peças que sim, ganhou mais destaque na dupla inicial de episódios da quinta temporada, mas que, na verdade, vem sendo milimetricamente trabalhado por Peter Gould e Vince Gilligan desde o começo. 

Deixei, propositalmente, uma linha narrativa de lado para abordá-la somente aqui no final, pois ela retorna ao tema de abertura da presente crítica, ou seja, a desconexão narrativa. Claro que estou falando de Mike, agora não mais trabalhando para Gus e sofrendo pela culpa de ter matado Werner Ziegler. Sua entrega à bebida e sua consternação pelo ocorrido, evidente quando recebe ligação de sua nora, acaba explodindo do lado mais fraco, com uma violenta e desmedida bronca de Mike na doce Kaylee, a última pessoa no mundo que ele sequer pensaria em agredir. São poucos minutos, mas é o suficiente para vermos um homem quebrado, que parece não ter mais saída a não ser voltar a ser o que era, com a atuação de Jonathan Banks mais uma vez trazendo toda a bagagem de personagem em expressões faciais que parecem o equivalente dramático de uma panela de pressão prestes a explodir.

E esse foco em Mike parece solto em relação aos demais e de fato é, mas não de forma negativa. O episódio, lá no fundo, lida com vidas se reinventando e diria que é isso que vemos aqui com Mike. É até possível concluir que o personagem está prestes a assumir de vez sua persona final a que fomos apresentados em Breaking Bad

Se Magic Man já havia sido um excelente começo de temporada, 50% Off não se vende barato e, diferente de Krazy-8, aposta tudo e mais um pouco na maravilhosa mão que tem. E o jogo tem tudo para ser inesquecível.

Better Call Saul – 5X02: 50% Off (EUA, 24 de fevereiro de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Norberto Barba
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Robert Forster, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.