Crítica | Better Call Saul – 5X03: The Guy for This

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Sei muito bem que esse foi o tão aguardado episódio de Better Call Saul em que mais dois queridos personagens de Breaking Bad foram reintroduzidos, mas a grande verdade é que a volta de Hank Schrader (Dean Norris) e Steven Gomez (Steven Michael Quezada), por mais divertida e nostálgica que possa ter sido, foi apenas os confeitos em cima de um bolo já muito saboroso. Em outras palavras, é legal e tal ter os dois ampliando a conexão com a série original, mas eles são apenas detalhes em The Guy for This.

Não me levem a mal: são detalhes bem inseridos, que não parecem forçados dentro da estrutura do prelúdio e que ganham tempo de tela justo, que não detrai do que realmente importa, mas, mesmo assim, são detalhes. Afinal, mesmo que a conversão de Krazy-8 em informante do DEA – explicando algo revelado por Hank a Walter White depois do fim do traficante em Breaking Bad – seja bem engendrada, com uma justificativa inteligente que transforma o personagem em um peão de Lalo em seu plano para derrubar Gus Fring, o foco do episódio fica mesmo em Jimmy e especialmente em Kim, cada um deles “o cara certo” do título em sua luta contra o determinismo.

Para começar, notem o medo de Jimmy ao ser levado por Nacho para um encontro com Lalo. Aquele ali é Jimmy ainda (a magnificamente bem filmada metáfora das formigas e do sorvete deixa isso evidente), alguém que escolheu ser Saul para desbravar um nicho de advocacia em que ele poderia ser bem-sucedido, mas que está prestes a ser devorado pela voracidade de traficantes pesados, muito diferente dos pequenos marginais responsáveis por crimes, digamos, menores, que são seus alvos efetivos. Seu suor, sua hesitação, sua forma atabalhoada de lidar com a situação na garagem para onde é levado mostra, como mencionei em minha crítica anterior, que Saul é mesmo apenas uma identidade assumida, mas que ainda não tomou conta da de Jimmy, mesmo que, novamente me socorrendo das formigas, esteja prestes a ser dominante. Ele luta contra aquilo, mas sabe que não pode evitar o destino e é obrigado a dobrar-se e fazer o que lhe é comandado.

Kim, por seu turno, está feliz por ter um dia inteiro só de casos pro bono que é o que ela realmente ama fazer. Mas seu grande cliente pagante, Mesa Verde, exige sua presença imediata e ela também não tem como fugir daquilo. A conexão com o drama de Jimmy é evidente, mas a diferença é que Kim não tem duas personalidades, mesmo considerando que, por vezes, ela sinta prazer em dar pequenos golpes aqui e ali. Portanto, o drama, para ela, é mais dilacerante e inconciliável, sem que ela enxergue uma válvula de escape que não seja, por enquanto, arremessar garrafas de cerveja pela varanda de seu apartamento.

Rhea Seehorn há tempos vinha demonstrando sua profundidade dramática que ainda, criminosamente, não foi reconhecida nas grande premiações e, aqui, ela tem vários de seus melhores momentos. Seja no tribunal defendendo não exatamente seus clientes, mas sim sua vontade inamovível de permanecer ali, descartando Mesa Verdade, seja na expulsão de um senhor de sua propriedade para a construção de um call center (Up – Altas Aventuras feelings!), a atriz demonstra não dever absolutamente nada a mais ninguém do elenco, batendo de frente muito facilmente com o alarido colorido de Bob Odenkirk. Sua capacidade de fazer uma Kim sempre impecável, sisuda mesmo, mas que demonstra por todos os poros sua vontade de fazer o que considera nobre, dá gosto de ver, além de deixar o coração quebrado quando tudo conspira para ela não alcançar seus objetivos.

Esse conflito entre livre arbítrio e determinismo ganha cores e contexto também com o drama familiar de Nacho, aqui ilustrado por seu desejo de salvar seu pai dessa vida que ele também foi forçado a mergulhar de cabeça. A ironia é que ele quer tirar o pai dali a força, usando de subterfúgios para comprar o negócio da família por intermédio de um laranja. Michael Mando é outro que merece ser reconhecido pela forma como consegue desenvolver seu personagem de um simples bandidinho a um homem conflitado, repleto de dilemas insolúveis. Apenas as sequências com Mike é que realmente pareceram deslocadas no episódio não só por não rimar completamente com o restante da narrativa (ok, há um certo determinismo no caso dele também, mas existe uma distância maior), como também por não acrescentar nada que os eventos em 50% Off não tivessem já deixado sobejamente claros.

The Guy for This começa com um fan service divertido e bem colocado, mas ele – ainda bem! – logo abre espaço para uma discussão muito mais profunda e de viés sombrio. Parece que não há mesmo mais saída para Jimmy e para Kim. O futuro (aquele lá do Cinnabon) está posto. O único detalhe é que Vince Gilligan e Peter Gould já demonstraram que não ligam muito para isso não… e ainda bem!

Better Call Saul – 5X03: The Guy for This (EUA, 02 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Ann Cherkis
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.