Crítica | Better Call Saul – 5X07: JMM

Hello darkness, my old friend.
– Simon & Garfunkel

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Um dos maiores pontos de interrogação dessa temporada de Better Call Saul era a razão para a presença intermitente de Howard, primeiro oferecendo emprego em seu escritório para Jimmy e, depois, sendo alvo de bolas de boliche arremessadas e prostitutas enviadas por Saul, em uma espécie de vingança mesquinha. O que Vince Gilligan e Peter Gould queriam com isso, afinal de contas, já que, apesar da comicidade das sequências, elas não estavam de forma alguma se encaixando no todo. Mas a resposta veio agora, em JMM, como mais uma prova que essa dupla criativa não costuma errar.

Howard, ao que tudo indica, foi usado como a proverbial gota d’água, como o vetor para a explosão de Saul que terminou de dissipar o que ainda havia de Jimmy nele. Chega a dar pena do advogado almofadinha que ainda tenta, mais uma vez, oferecer o emprego a Jimmy como uma forma de expiar seus próprios pecados e de “salvar” o irmão de Chuck. Essa última oferta, ali nos corredores do tribunal, com Jimmy olhando para as consequências dos atos do cartel que agora passou a defender, era, quase que literalmente, sua última chance, sua última forma de escapar de seu futuro sombrio de defensor de criminosos que não mostram um pingo de arrependimento pelo que fizeram.

Não é que Howard seja um inocente útil em toda essa equação, pois ele tem sua parcela de culpa em tudo o que aconteceu antes – ainda que infinitamente menor do que a parcela de culpa de Chuck e do próprio Jimmy -, mas sim que sua tentativa de se redimir ao tentar redimir Jimmy mostrou-se genuína ao ponto de ele entender os ataques que sofrera, ataques esses que foram válvulas de escape para um Jimmy furioso consigo mesmo. E, novamente, quando, ainda furioso, esse Jimmy perde as estribeiras com Howard, gritando nos corredores de seu local de trabalho, é como se ele estivesse deixando, ali, suas últimas palavras como Jimmy e abrindo de vez as portas para Saul, o advogado de bandido ou, como diria Jesse para Walter, o advogado bandido.

Sei que me adiantei nos comentários, começando pelo final, mas é que ver o descontrole de Jimmy foi chocante, um momento realmente forte e que, em retrospecto, podemos ver que estava em banho maria já há muito tempo, quase passando do ponto. Se rebobinarmos para os momentos anteriores do próprio episódio, com Lalo e depois Mike exigindo que Jimmy soltasse o bandido com pagamento de caução, por mais improvável que isso fosse sob o ponto de vista jurídico, com a transformação da sigla JMM de James Morgan McGill (que nunca foi) para Justice Matters Most (“Justiça é o Que Mais Importa”) para, finalmente, Just Make Money (“Apenas Fazer Dinheiro”) e os olhares de Jimmy para a família da vítima de Lalo, entendo a magnitude do que estava fazendo, entenderemos o dilema e a certa facilidade com que Jimmy varre o que ainda tinha de moralidade para debaixo do tapete e encara o trabalho que o tornaria famoso de braços abertos, sem, aparentemente, mais reservas.

E isso porque a abrupta proposta de casamento de Kim à Jimmy ao final de Wexler v. Goodman tinha, no final das contas, um raciocínio frio e prático por trás: minimizar as mentiras entre eles e impedir que um testemunhe contra o outro se um dia eles chegarem a esse ponto. Tive a impressão que havia sido algo fruto do desespero de Kim em ver sua relação com Jimmy desmoronar; mas não, ela tinha um plano sólido por trás daquele discurso que colocou seu parceiro contra a parede. Mas, na execução do plano, no casamento em cartório dos dois com Huell como testemunha (e hilariamente achando que tudo é um golpe – o que, de certa forma, não deixa de ser), vemos pela primeira vez em todas essas temporadas os dois realmente juntos e… felizes. A maneira distante como eles sempre se trataram é dissipada aqui, com sorrisos, brincadeiras e um momento raro de desejo e intimidade na cama em que Kim recebe a notícia de que Jimmy havia sido contratado pelo cartel de drogas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Muitos podem ver isso tudo como algo que coloca Kim e Jimmy mais próximos ainda do abismo, mas, sinceramente, tenho uma visão especulativa diferente e creio que o caminho que a relação dos dois tomará será no mínimo peculiar.

Um episódio perfeito talvez merecesse mais comentários, mas acho que o uso do adjetivo “perfeito” deixa já muito claro minha opinião sobre ele. Eu poderia falar da curta, mas excelente sequência de Mike finalmente voltando a contactar Jimmy e, depois, revelando-se como “curado” diante de sua nora e neta, como se o trabalho para Gus fosse sua própria válvula de escape; de Gus e Nacho explodindo a loja dos Los Pollos Hermanos para manter a farsa em relação aos Salamancas e a Don Eladio, com o ódio fluindo do olhar destruidor de Gus; do estabelecimento ainda mais forte da conexão de Gus com a Madrigal, empresa dona de sua cadeia de lojas de frango frito e que, como fica claro, banca o super-laboratório subterrâneo na futura lavanderia, mas isso seria chover no molhado, pois é quase inacreditável que tantas peças móveis conectadas na base dos “seis graus de Kevin Bacon” funcione tão bem narrativamente, com transições fluidas e lógicas que mantém a temática de expiação e de mergulho no lado mais sombrio da personalidade em cada momento.

JMM parece ser o enterro de Jimmy e o começo de Saul como o vemos no episódio 2X08 (Better Call Saul) e seguintes da 2ª temporada de Breaking Bad. Mas ainda há um grande espaço temporal para ser coberto, mesmo que, eventualmente, as duas séries não se alcancem completamente e, tenho certeza que, no processo, Gilligan e Gould têm ainda diversas bolas curvas para arremessar.

Better Call Saul – 5X07: JMM (EUA, 30 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Melissa Bernstein
Roteiro: Alison Tatlock
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.