Crítica | Better Call Saul – 5X08: Bagman

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Bagman é um dos raros episódios de “ação” de Better Call Saul, especialmente se levarmos em consideração que Jimmy/Saul está no centro dela. Com todo o jeitão de um daqueles fillers extremamente bem executados que volta e meia aparecem em séries dessa qualidade, o episódio é muito mais do que apenas isso e consegue trabalhar questões realmente importantes para o protagonista, Mike e também Kim.

Mas, antes de abordar a narrativa principal, vale refletir um pouco sobre o cuidado visual de Vince Gilligan, que também dirige o capítulo. Não é nenhuma novidade, claro, pois a série é, com raríssimas exceções, um deleite nesse quesito. Mas, considerando que 95% do episódio é composto de sequências desérticas, aquele início com o retorno de Leonel e Marco Salamanca, os “primos gêmeos” de Lalo voltando para a série, é impressionante na quantidade de detalhes que contam toda uma outra história paralela que está ali “apenas” para servir de prelúdio silencioso.

Do banco de couro branco todo sujo de sangue sendo lavado (lembrei-me imediatamente de Mr. Wolf, de Pulp Fiction, claro), com direito a pedaços de cérebro sendo usados como uma mera brincadeira, passando pelo galpão repleto de carrões que fariam invejam ao elenco de Velozes e Furiosos, e chegando até o cofre velha guarda repleto de dinheiro onde os gêmeos pegam os sete milhões de dólares necessários para pagar a fiança de Lalo, tudo é trabalhado de maneira a criar uma espécie de outro mundo, mais um “pedaço” do império do cartel de drogas do qual vemos, semanalmente, apenas um pequeno vislumbre. É tanta riqueza nesses breves minutos iniciais, que deu vontade de ver mais um ou dos episódios passado somente lá que abordasse a mecânica do funcionamento do local.

Mas o tira-gosto, ainda que fascinante, é rápido e logo é substituído pelo foco da narrativa: o envio de Jimmy por Lalo ao deserto para pegar o dinheiro. Em princípio, mesmo sabendo que não seria uma tarefa simples, que ocorreria sem problemas, a premissa não tem os contornos de algo capaz de nos fazer ficar de queixo caído, mas a grande verdade é que, com Gilligan no comando, com roteiro do produtor executivo Gordon Smith, ninguém em sã consciência deveria esperar algo básico.

Primeiro, temos Lalo na prisão entendendo exatamente como funciona a mente de Saul Goodman, talvez melhor do que qualquer outro personagem da série, incluindo Kim. Ele sabe – e diz – que o advogado não é ninguém e que não levantaria suspeitas carregando duas enormes sacolas de dinheiro, mas, mais do que isso, que Saul reúne características importantes para ele: há hesitação e covardia suficiente ali para Lalo ter a mais absoluta certeza de que Saul não vai fugir com o dinheiro e, mais do que isso, mesmo fazendo um joguinho psicológico no começo, o traficante tem certeza que a tentação para Saul aceitar a missão é grande demais para ele resistir. E o que são 100 mil dólares a mais para quem nem piscou para pagar sete milhões de fiança, não é mesmo? Por seu turno, Saul usa seus “honorários” avantajados na esperança de que ele seja uma barreira intransponível, que jamais seria aceita por seu cliente, ao mesmo tempo em que, lá no fundo, ele sabe que será aceita.

E, como Moisés e Jesus Cristo, o restante de Jimmy vai ao deserto e volta modificado profundamente, deixando mais ainda de sua persona antiga pela areia cheia de sangue de uma facção que tenta roubar o dinheiro. Mike – e seu indefectível rastreador na tampa do tanque de gasolina – salva o dia em uma excelente, ainda que levemente clichê sequência de tiroteio que tem como função principal mostrar para Jimmy que essa é a vida que o espera ao abraçar o cartel. O advogado com roupa espalhafatosa confortavelmente andamento pelos corredores do tribunal, mesmo que como parte das estratégias jurídicas ele tenha que fazer muita armação, é apenas uma de suas funções. Sua peregrinação ao deserto mostra-lhe o que o espera, estripando toda e qualquer esperança de que Jimmy possa sobreviver ao périplo sem deixar Saul tomar o controle total.

Mas esse episódio na linha de “perdido no deserto”, uma tradição no Universo Breaking Bad, tem mais a oferecer, bem mais. Eu até poderia abordar novamente o cuidado com a fotografia e o T.O.C. de Gilligan com enquadramentos simétricos, mas arquivemos isso na prateleira mental de “BCS não tem igual” e vamos logo para o que torna Bagman algo que nem de longe pode ser chamado de filler. Não só esse parece ser o capítulo que conecta Mike a Saul de maneira mais profunda, algo importante, claro, para o futuro que vemos em Breaking Bad, como ele trabalha as conexões familiais e o que move alguém como Mike a não desistir nunca.

De certa maneira, as motivações de Mike são parecidas com as de Walter White (pelo menos no começo), ainda que por vias bem diferentes. A família é o grande objetivo, mesmo que o auto-sacrifício seja necessário. Isso é que faz o ex-policial levantar todo dia da cama e é isso que o faz caminhar pelo deserto como uma máquina invencível, apesar de ser bem mais velho que Jimmy/Saul. Mas a família de Mike não sabe de seu lado sombrio e a abordagem desse assunto, nesse exato ponto da história, agora que o advogado malandro casou com Kim, mesmo que por razões mais práticas do que ideais, é perfeito, deixando-nos entrever que, possivelmente, essa conversa entre os dois no meio do nada com coisa foi objeto de conversa entre os showrunners antes mesmo de a série entrar no ar. A convergência é belíssima, pois Kim, ao contrário da família de Mike, sabe de “quase” tudo do lado sombrio de Jimmy, especialmente sua recente conexão com o cartel via Lalo e, no episódio, essa circunstância fica clara para todos os jogadores quando Jimmy conta para Mike e, mais ainda, quando Kim visita Lalo como fruto de sua genuína preocupação com o marido.

Kim, como diz Mike, mesmo que Jimmy discorde, passou a fazer parte desse mecanismo insidioso. O Pecado Original do advogado foi tragar sua esposa para essa estrutura e, agora, não há mais saída. Lalo certamente usará isso de agora em diante e a própria Kim, depois que Jimmy voltar de sua peregrinação, também não será a mesma. O quanto isso poderá influenciar no futuro dos dois? Tenho para mim que esse é o ponto de virada para eles e o que pode “explicar” o sumiço de Kim durante os eventos de Breaking Bad, isso se minha teoria de que ela não só está viva, mas ainda está “com” Saul, for procedente.

Se Better Call Saul já era uma série espetacular, um episódio como Bagman simplesmente não tem classificação. Obra-prima, cinco estrelas ou qualquer outra coisa assim não faz jus ao que testemunhamos aqui. Talvez seja melhor simplesmente canonizar o episódio e adorá-lo incondicionalmente com lágrimas de alegria nos olhos. Exagero? Diria que não…

P.s.: Queremos saber: você aceitaria a missão de Saul pelos mesmos 100 mil dólares?

Better Call Saul – 5X08: Bagman (EUA, 06 de abril de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Daniel Moncada, Luis Moncada
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.