Crítica | Better Call Saul – 5X09: Bad Choice Road

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não seria exagero dizer que Eduardo “Lalo” Salamanca, vivido maravilhosamente bem por Tony Dalton e introduzido na série apenas no oitavo episódio da temporada anterior, já é um dos grandes personagens exclusivos de Better Call Saul. Reunindo uma comicidade sinistra com sorrisos e posturas descontraidamente ameaçadoras que chegam a rivalizar até mesmo o sombrio Gus Fring, Lalo é um verdadeiro achado que ganha enorme destaque em Bad Choice Road, episódio que faz exatamente o que um episódio imediatamente posterior a uma obra-prima como Bagman deve fazer: levar os personagens afetados pelos eventos a remoerem o que passaram, carregando os espectadores juntos nessa jornada.

Afinal, algo grandioso como um tiroteio de Mike contra uma gangue que Gus logo descobre vem de Don Eladio para criar dissenso entre os Salamancas, seguido de uma viagem torturante e reveladora pelo deserto, simplesmente não poderia ser glosado como mais um capítulo da série. Era essencial que, mesmo chegando bem no finalzinho da temporada, houvesse tempo para degustar os transformadores eventos anteriores de maneira apropriada.

E o roteiro de Thomas Schnauz, produtor executivo da série que também dirigiu o episódio, tem justamente esse objetivo, primeiro “encerrando” a peregrinação forçada de Saul e Mike lembrando-nos mais uma vez de Pulp Fiction, com os personagens usando bermudas, camisetas estampadas e chinelos e lentamento levando-nos à contagem do dinheiro, à saída de Lalo da prisão, à história simples contada por Saul tanto para Lalo quanto para Kim para justificar seu sumiço e retorno parecendo um bife bem passado, até chegar ao momento em que Kim percebe que seu marido descumpriu a única regra deles e mentiu sobre o que realmente ocorreu.

A descoberta do copo furado por bala é um momento importantíssimo para Kim e sua reação, diferente do que podemos esperar, não é de confrontamento, mas sim de introspecção, característica, aliás, muito presente ao longo de todo o capítulo. Ela olha para si mesmo e finalmente, depois de diversos testes pelos quais ela forçou-se a passar, culminando com toda a trama da temporada envolvendo a expulsão do último proprietário de terra onde seu cliente Mesa Verde desejava construir um call center, Kim decide largar sua confortável, mas nada recompensadora posição de sócia do escritório Schweikart & Cokely, aí incluído seu próprio e fiel cliente, para focar seus esforços no trabalho pro bono. Exatamente como a rolha da cara tequila Zafiro Anejo que Jimmy (então ele ainda era Jimmy) dera para ela significa a vitória dos pequenos sobre os grandes, Kim decidiu dedicar-se aos pequenos, aos que não tem defesa de qualidade no Tribunal.

Essa decisão não era, claro, inesperada. Muito ao contrário, ela viria mais cedo ou mais tarde. Apenas as circunstâncias talvez tenham surpreendido, especialmente a reação negativa de Saul que, diferente de Kim, não aceita essa escolha tentando mal e porcamente repetir – sem talvez verdadeiramente entender – a lição de Mike sobre a “estrada da má escolha” do título, estrada essa pela qual ele, não Kim, enveredou.

Schnauz, porém, não tem pressa alguma. Cada peça no tabuleiro da série é movida com precisão, mas sem movimentos bruscos, de forma que todo o jogo fique pronto para seu encerramento – até ano que vem – já no próximo episódio. As trocas entre Lalo e Saul, Mike e Saul, Mike e Gus, Lalo e Hector e, claro, Saul e Kim são preciosas, com o diretor e roteirista extraindo o máximo do incrível elenco à sua disposição, inclusive voltando ao deserto para terminar de expor a mentira de Saul sobre o ocorrido, o que, claro, leva ao momento ímpar que encerra o episódio e que rivaliza em qualidade com quase tudo o que a temporada até agora mostrou, o que é dizer realmente muito.

O retorno de Lalo para extrair a verdade de Saul é, inicialmente, uma das grandes sequências de Tony Dalton na série, com o ator trabalhando à perfeição uma postura indefinível que equilibra cafajestagem, inteligência, humor, intensidade e ameaça em um conjunto definitivamente impressionante que, como disse no parágrafo de abertura, o coloca lá em cima no panteão dos personagens inesquecíveis da série, quiçá de todo o Universo Breaking Bad. Mas, a cada vez que Saul repetia sua história entregando cada vez mais detalhes com Mike de sniper no prédio em frente, mais era possível notar a ansiedade e a força no olhar de Kim. Sem falar quase nada, Rhea Seehorn começa, ainda sentada no sofá, a roubar o momento tanto de Dalton quanto de Bob Odenkirk. E, quando todos estão de pé com Saul na defensiva, a pistola de Lalo destacada, a mira de Mike no peito do traficante e Kim, que estava levemente atrás, dá um passo para a frente e começa a falar em defesa do marido, todos os sons desapareceram por completo da minha sala e somente o som da voz de Seehorn podia ser ouvida em uma sequência tão absurdamente tensa em que ela manda o bandido “por ordem na casa dele” que, confesso, tive que assistir outras três vezes para ter certeza de que não tinha perdido nada. Alguém precisa mandar entregar um caminhão de prêmios para Seehorn já e pelo menos uma meia dúzia só para Schnauz por ter orquestrado algo tão incrível nesses brevíssimos segundos.

Em algum momento ao longo da redação da presente crítica cheguei a pensar em escrever que o episódio, por vezes, me pareceu com uma minutagem maior do que a estritamente necessária para cumprir sua função, mas a cada vez que esse pensamento chegava à superfície, eu lembrava de Lalo e Kim se enfrentando ou da fotografia de Marshall Adams decididamente mais escurecida aqui para fazer a mímica dos momentos sombrios e o “problema” ia embora, soterrado pela qualidade de tudo ao seu redor. Queria era ter sempre esse tipo de reclamação para fazer de um episódio de série…

Chega a ser inacreditável que o capítulo seguinte a Bagman seja outra obra-prima se não do mesmo nível, quase lá. Mas é isso que ganhamos em Better Call Saul e não sou eu que reclamarei de presentes atrás de presentes como esse.

P.s.: Já disse nos comentários da crítica anterior e vou repetir aqui: quero um spin-off só sobre o Lalo!

P.s.2: Em uma nota triste, caso não tenham percebido esse é o penúltimo episódio da temporada. Mais de BCS só em 2021 e isso se a pandemia deixar. Preparem-se para um longo período de abstinência…

Better Call Saul – 5X09: Bad Choice Road (EUA, 13 de abril de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Thomas Schnauz
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Daniel Moncada, Luis Moncada
Duração: 59 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.