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Crítica | Better Days

por Iann Jeliel
739 views (a partir de agosto de 2020)
Better Days

Indicado a melhor filme internacional, representando Hong-Kong/China no Oscar 2021, Better Days, trata-se de um drama romântico que aborda de maneira generalista e específica ao mesmo tempo, o bullying em ambiente colegial. Digo isso porque existe um panorama desde seu aviso inicial, que abre o jogo sobre a temática, demostra ela de maneira até exagerada, mas culturalmente condizente com o país em que se passa a história, mas tampouco, deseja explorar quais as origens de tamanha agressividade por justamente querer abraçar todo o universo da mensagem. Isso, inevitavelmente se torna um problema, porque mesmo que sua execução pelo cenário em específico eleve o tema a seriedade necessária, a falta de contextualização do ambiente, dá um aval superficial a abordagem, que procura caminhos cada vez mais exagerados na história para a recomposição constante do tema.

Tudo bem que esse exagero, faz parte da identidade do filme e do cinema de Hong-Kong de modo geral. Seus filmes de ação, por exemplo, se destacam justamente por conseguirem transformar o exagero das coreografias em uma poética visual.  Aqui, o romance é tratado em alguma medida, com o mesmo caminho. Há uma construção lírica na história dos jovens, uma idealização cuidadosamente sugerida entre os dois por efemeridades em comum. Ambos quebrados por uma perseguição que eles não compreendem direto – o que justifica, por acompanharmos tudo em seu olhar, que também não compreendemos totalmente –, além de presos a um sistema que se não os oprimem mais, também não os socorre, forçando-os a se socorrerem, um no outro. Há química no casal, isso é inegável, mas fora desse eixo, o filme não consegue ter um arsenal tão interessante de dramaturgias sem contar com terreno apelativo.

O bom que o apelo emocional das cenas de humilhação do bullying captura o telespectador pela maneira estudada a qual o diretor Kwok Cheung Tsang executa. Geralmente focando na lente do cumplice que não faz nada e observa a absurda situação passivamente, trazendo ainda mais o efeito de incomodo desejado. No entanto, a escolha da realização dos atos, não deixam de ser, um chamativo gráfico exagerado e unidimensional, que poderia facilmente ser ressignificado em alguns diálogos com o mínimo de exploração aos antagonistas, nem que fosse, para confirmar sua vilanização completamente maniqueísta. Até tem no terço final, para uma das personagens principais ali envolvidas, mas é muito pouco. Fora que é feita quando o filme já está num outro momento, onde o coming off age é abandonado, para flertar quase com um thriller policial, momento esse, de bem menos força na crescente do melodrama.

Acho válida a inserção de um novo gênero no desdenhar dos fatos, reflexo consequencial da reatividade ao sofrimento que a todo momento flertava ali para acontecer. Contudo, fica no mínimo estranho num percurso que mal conseguiu se fechar como jornada de amadurecimento. E tudo bem, um dos objetivos críticos é mostrar essa juventude cessada por esse contexto de competitividade nociva que indiretamente forma o bullying, mas isso, como dito, é mais parte mais de uma espetacularização dos eventos, do que necessariamente uma tomada natural dentro da narrativa. Sorte que, o filme já havia implementado um bom complemento que acaba sendo fundamental para a expansão do raciocínio, no caso, o salto temporal que inicialmente estabelece essa história como uma memória, logo, uma reflexão didática do que melhorou, ou melhor, do que não pode voltar a ser.

Nesse sentido, dá até para acusar o discurso do filme como um impositivo correspondente ao que crítica, já que a visão crítica do resultado dos personagens pós aqueles traumas, não anula o orgulho deles terem reagido, mesmo que de forma moralmente errônea. Ora, caímos num território paradoxal da intolerância ao intolerante que tanto é discutível, onde o filme também acaba refletindo mesmo que indiretamente sobre, só que de uma maneira neutra como não tinha se posicionado até então. Uma armadilha vinda da dualidade entre o exagero denunciando de uma realidade, que Better Days não conseguiu evitar.

Shao Nian de Ni (Better Days | China – Hong-Kong, 2019)
Direção: Kwok Cheung Tsang
Roteiro: Wing-Sum Lam, Yuan Li, Yimeng Xu, Nan Chen (Baseado no livro In His Youth, In Her Beauty de Jiuyue Xi)
Elenco: Dongyu Zhou, Jackson Yee, Fang Yin, Ye Zhou, Yue Wu, Jue Huang, Yifan Zhang, Yao Zhang, Xinyi Zhang, Runnan Zhao
Duração: 135 minutos

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