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Crítica | Bidu – Juntos

por Luiz Santiago
247 views (a partir de agosto de 2020)

Qualquer pessoa que tem, já teve ou conhece alguém que tenha um animal de estimação, especialmente um cachorro, vai ler esse 13º one-shot do projeto Graphic MSP com um misto de identificação, emoção e ataques de fofuchismo, como é típico de histórias ou representações desses “serumaninhos” (só para avisar aos navegantes desnavegados, isso é um meme, ok?) que há tanto tempo vem acompanhando a nossa espécie.

Escrito e desenhado por Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, que voltam ao projeto depois de Bidu – Caminhos (2014), Juntos é um volume mais pessoal e narrativamente mais bem acabado que o anterior. Se em Caminhos tivemos o sofrimento a partir do ponto de vista do próprio Bidu e sua chegada até o Franjinha, aqui em Juntos a visão é de parceria, convivência e adequações, tanto da famosa dupla dinâmica quanto da mãe do Franja e até de Jeremias, que tem uma boa participação na história, coerentemente ligada à questão da adoção de um animal.

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A percepção de mundo do animal ganha um grande respeito por parte dos roteiristas, e é imaginada e mostrada em ações e hipóteses. A representação da “fala” de Bidu, seus latidos e as vontade de Franjinha que não têm nada a ver com o que o bicho está “dizendo” e as consequências temporárias disso para a relação entre os dois chega a emocionar no meio da história, começando do momento em que o azulzinho fica sozinho em casa pela primeira vez e faz uma bagunça tremenda, reagindo à saudade do companheiro e ao medo do espaço da casa, que de repente parece tão grande e assustador, sem os humanos. Existem experimentos na internet que colocam câmeras para filmar a reação dos cães quando os donos saem e os deixam sozinhos, e a essência dessas reações foi mostrada com acuidade e beleza nas páginas de Juntos. Impossível não compartilhar uma certa angústia com Bidu.

Mas existe um outro foco também. A mensagem que sempre acompanha os lançamentos da Graphic MSP se mostra através da necessidade da adoção de animais abandonados, da tentativa de tornar o ambiente da casa harmônico para animal de estimação e humano, e a plena noção de que “dono” não é exatamente a palavra correta para se usar quando se tem um animal. Claro que não levanto aqui a bandeira da chatice sobre o termo. É uma expressão convencional, é comum e válio utilizarmos. A questão é realmente diferenciar o termo e da ação. O que mais me chamou a atenção no texto dessa GN foi a verossimilhança com que certas relações de criadores e animais criados são divulgadas por inúmero veículos, ou seja, algumas pessoas acham mesmo que ter um animal é apenas algo para constar na lista, uma amenidade, um capricho. Bidu – Juntos vem para mostrar que apenas alimentar e dar abrigo não é o bastante.

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A arte aqui tem um papel todo especial em nos fazer ver esse lado sentimental. A paleta rosa utilizada para boa parte das cenas interiores com o Franjinha em cena — existem outras cores como padrão, mas elas possuem significados diferentes, como a fria e belíssima página dupla com o Bidu sozinho, olhando para a porta, visto em perspetiva com a sala em ponto de fuga — e as exteriores, que vai mudando à medida que a dificuldade de comunicação entre humano e animal aumenta. Como cada um vai aprendendo pequenas lições ao longo da história, fica difícil não relacionar cores, luzes e sombras com os estados de espírito de Franjinha e Bidu.

Exceto no comecinho da HQ, todos os pequenos arcos, especialmente o do ponto de vista do Bidu, são trabalhados com perfeição. A organicidade com que as coisas acontecem, o trabalho com o tempo — os roteiristas estão de parabéns por nos transmitirem de maneira orgânica essa passagem — e o significado das relações estabelecidas possivelmente farão alguns leitores lacrimejarem. O entendimento final entre a dupla é o resultado de um impasse que se resolveu com um pouco de sofrimento para os dois lados, mas que enfim encontrou um status de compreensão final. Enfim, humano e cachorro, estão juntos.

Bidu – Juntos (Brasil, 2016)
Graphic MSP #13

Panini Books e Mauricio de Souza Editora
Roteiro: Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho
Arte: Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho
82 páginas

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