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Crítica | Big Finish Mensal #136: Cobwebs

por Rafael Lima
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Equipe: 5º Doutor, Nyssa, Tegan, Turlough
Espaço: Planeta Helheim
Tempo: 3490 / 3530.

Entre os muitos motivos que fazem a 19ª Temporada de Doctor Who o ano mais fraco do mandato de Peter Davison, o excesso de companions com certeza foi um dos maiores. Não por coincidência, a qualidade das histórias desta era aumentaram a partir do momento em que o time Full Tardis foi reduzido. Assim sendo, foi com desconfiança que vi a proposta da Big Finish de reunir o elenco principal da 20ª Temporada para uma série de aventuras reunindo o Quinto Doutor com Nyssa, Tegan, e Turlough. Por outro lado, a ideia de situar essas histórias entre os arcos Enlightenment e The King’s Demons, trazendo uma Nyssa mais madura para viajar com seus velhos amigos parecia instigante. Cobwebs, o primeiro arco dessa fase do 5º Doutor na Big Finish, embora traga uma trama interessante e com bons momentos, reforça a dificuldade em trabalhar com qualquer time Full TARDIS fora da era do 1º Doutor.

Na trama, a TARDIS é misteriosamente tirada do curso, aterrissando em uma estação de pesquisa genética abandonada em um planeta tóxico. Ao mesmo tempo, Nyssa, cinco décadas após os eventos de Terminus (de sua perspectiva), chega ao mesmo planeta em busca da cura de uma terrível doença que já ceifou bilhões de vidas. Quando a Trakenite reencontra os seus velhos amigos, o grupo logo descobre que a cura que Nyssa procura pode estar próxima. Mas uma terrível descoberta indica que talvez nenhum deles esteja destinado á deixar a estação vivo.

Escrito por Jonathan Morris, Cobwebs desenvolve-se como um atmosférico Thriller de horror espacial, conseguindo criar uma identidade particular para cada uma das 4 partes do arco. A direção de Barnaby Edwards se destaca especialmente no primeiro episódio, onde a boa construção sonora cria uma ambientação absolutamente enervante, transportando o ouvinte para uma central de pesquisa lúgubre e deserta cheia de ruídos assustadores. Ainda que o desenho de som do arco seja ótimo como um todo, nada se compara a esta boa construção de cenário feita no episódio de abertura.

O roteiro de Jonathan Morris é cheio de boas ideias, talvez até cheio demais. O conceito do computador EDGAR, a A.I. que coordena a estação e que enlouqueceu de solidão, tornando-se esquizofrênico e autodestrutivo por motivos que são revelados ao longo da história, é bastante atraente. O gancho que fecha o primeiro episódio e dá todo o tom do arco, onde os viajantes encontram esqueletos vestindo as suas roupas (em uma repaginação macabra de um conflito semelhante visto no clássico arco televisivo The Space Museum) combina com a atmosfera sinistra da trama. E aqui estamos falando apenas do 1º ato, já que a partir do segundo episódio, nossos protagonistas voltam quarenta anos no passado, para quando o centro de pesquisa funcionava. Nesta etapa, o roteiro inclui entre as suas pautas discussões sobre conspirações da indústria farmacêutica e também sobre a relação entre memória e identidade, pois os membros da equipe de pesquisa têm as lembranças de suas vidas pessoais temporariamente apagadas para terem maior concentração no trabalho. Como dito antes, são todas premissas muito boas, que ganham uma camada extra de complexidade por esta ser uma típica trama de Doctor Who onde o Time Lord e seus companheiros se veem em um paradoxo temporal, ao estarem vivendo os eventos fora de ordem. O problema é que todas essas linhas narrativas parecem abarrotadas no roteiro, com nenhuma delas ganhando tempo significativo para se desenvolver completamente. 

O que nos leva a questão do time Full TARDIS. Morris apresenta alguns tensionamentos interessantes na dinâmica do time da TARDIS.  É legal vermos Tegan desconfiada de Turlough após descobrir que ele era um infiltrado do Guardião Negro; já que a TV nunca explorou o impacto imediato de tal descoberta. Da mesma forma, gosto de como o roteirista nos reintroduz Nyssa como uma médica geneticista, que cinquenta anos após ter deixado a TARDIS para ajudar a encontrar a cura para uma doença, continua viajando pelo universo para encontrar a cura para outros males, tendo até um companheiro na figura do simpático robô de segurança Loki.

Entretanto, assim como outros fatores desta história, todos estes interessantes elementos na dinâmica do elenco principal acabam sendo subdesenvolvidos. O desconforto entre Tegan e Turlough é simplesmente esquecido a partir de certo ponto, e o retorno de Nyssa não tem o impacto que poderia, já que pelo menos neste arco, a Trakenite não apresenta grandes mudanças na dinâmica com seus colegas. Percebe-se que pela movimentação da história e excesso de personagens centrais, nenhum desses interessantes conflitos têm tempo para se desenvolver, com alguns membros do elenco ficando escanteados em alguns episódios, uma velha maldição das histórias com equipes Full Tardis.

Com isso, não quero dizer que Cobwebs seja um arco ruim, longe disso. Na verdade é muito bom. A história possui um ótimo ritmo e seus quatro episódios passam voando. O elenco está muito bem entrosado, especialmente Peter Davison, que entrega aqui um 5º Doutor com diferentes camadas, alternando os seus momentos tipicamente gentis com uma autoridade sutil; e Sarah Sutton, que nos apresenta um trabalho de voz bem diferente para Nyssa do que o que estamos acostumados, já que ela não precisa imprimir uma voz mais jovem para a Companion, entregando assim uma personagem mais experiente, mas ainda reconhecível. Vale a pena ainda destacar o trabalho duplo de voz de Raymond Coulthard como os robôs EDGAR e Loki, criando um trabalho distinto entre os dois personagens que, ironicamente, acabam sendo os mais desenvolvidos do arco.

Cobwebs é uma daquelas histórias que gostamos muito quando ouvimos a primeira vez, mas quando começamos a refletir sobre ela, passamos a perceber as várias oportunidades perdidas por falta de uma maior organização. A ambientação do arco é ótima, mas o roteiro de Jonathan Morris acaba tentando trabalhar muitas ideias ao mesmo tempo, sem conseguir se aprofundar em muita coisa — embora deva se admitir, faz um uso interessante dos conceitos envolvendo paradoxos temporais no episódio final. No geral, é um começo divertido e atmosférico para esta fase do 5º Doutor na Big Finish, explorando um terreno completamente inexplorado na linha do tempo da encarnação de Peter Davison, mas que não tem o brilho que poderia ter. Esperamos que a famosa problemática do time Full TARDIS da nave do 5º Doutor seja melhor resolvida nos próximos arcos.

Cobwebs (Big Finish Mensal # 136) – Reino Unido. Julho de 2010.
Direção: Barnaby Edwards
Roteiro: Jonathan Morris
Elenco: Peter Davison, Sarah Sutton, Janet Fielding, Mark Strickson, Helen Griffin, Raymond Coulthard, Adrian Lukis, Charlotte Lucas
Duração: 120 Minutos

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