Crítica | Big Finish Mensal #44: Creatures of Beauty

creatures_of_beauty_plano-critico-doctor-who

Quando Nicholas Briggs está inspirado, ninguém segura, não é mesmo? Escrito e dirigido por ele, Creatures of Beauty é um fantástico exercício de narração alinear, trazendo temporalidades diferentes não apenas como um recurso para a organização, mas também como meio de elencar distintos pontos de vista sobre um mesmo tema, nesse caso, um desastre ecológico planetário que gerou um doença genética incurável e desfiguradora nos habitantes do planeta Veln.

Com apenas o Doutor e Nyssa na história (a trama está localizada entre o longo período do Universo Expandido da série entre Time-Flight e Arc of Infinity), o texto tem tempo para trabalhar muito bem as ações isoladas e em conjunto dos protagonistas, além de ligá-los de modo inteligente aos habitantes locais. Pela forma como o roteiro foi escrito, o público demora um pouco para montar o quebra cabeça de diversos problemas que a aventura nos traz, como violação de leis galáticas, a violenta prisão de Nyssa, o fato de a TARDIS estar se reparando, o interrogatório e detenção do Doutor e, costurando tudo, uma dualidade hostil na condução política e social do planeta, o que afeta diretamente todos os estrangeiros.

Por um breve momento eu achei que a Rani estava envolvida nessa história, porque existem experimentos aqui que nos dão uma terrível impressão de transformação dos indivíduos, gerando enorme desconforto. A questão, no entanto, muda de figura à medida que os episódios se passam, e este é mais um triunfo do modelo não-linear adotado pelo autor: nosso julgamento moral vai se alterando ao passo que novas informações nos são dadas, ressaltando a ambiguidade do nosso olhar para a justiça e para o alinhamento de cada um.

plano crítico creatures of beauty big finish

Não gosto apenas do final aqui, da maneira como o autor encerrou o problema. Eu admiro a escolha para uma visão de “possibilidades futuras”, mas ao mesmo tempo não creio que esse caminho dialogue bem com a jornada que tivemos. Essa visão, todavia, não me impediu de curtir a saga até os seus derradeiros momentos (é bom deixar claro que o episódio não termina, literalmente, no final do último episódio, pois a trama é alinear, lembram-se?) e por incrível que pareça eu adorei o 5º Doutor aqui, com Peter Davison fazendo um ótimo trabalho nos momentos de medo e de enfrentamento direto com seus antagonistas. E para melhorar ainda mais, Nyssa tem um ótimo papel. O roteiro faz uso do conhecimento da personagem e também de suas características morais para ajudar a delinear sequências difíceis, às vezes em conflito com o próprio Doutor, o que é sempre algo prazeroso de se ver.

Creatures of Beauty é a história de um terrível acidente que infectou um planeta, quase exterminou uma espécie e gerou uma situação complicada a longo prazo: poucos sabem o que de fato ocorreu no passado e poucos sabem o que de fato ocorre no presente. Diante desses “pedaços de conhecimento” o ódio cresce nos nativos desfigurados. O resultado dessa briga torna bem difícil uma conciliação. E o julgamento de quem é bonito ou feio, certo ou errado nessa história, se torna um verdadeiro dilema moral para todos nós.

Creatures of Beauty (Big Finish Mensal #44) — Reino Unido, maio de 2003
Direção: Nicholas Briggs
Roteiro: Nicholas Briggs
Elenco: Peter Davison, Sarah Sutton, David Daker, David Mallinson, Jemma Churchill, Nigel Hastings, Michael Smiley, Philip Wolff, Emma Manton, Nicholas Briggs, Ian Farrington
Duração: 109 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.