Crítica | Big Finish Mensal #46: Flip-Flop

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A Big Finish deveria comercializar Flip-Flop com um aviso em letras garrafais: “ouça esse arco com vários remédios para dor de cabeça perto de você“. Porque o negócio fica complicado, viu. Complicado até demais…

Em termos puramente teóricos/conceituais, esse drama de Jonathan Morris é genial. Depois de Creatures of Beauty (de Nicholas Briggs) era a vez de mais um escritor fazer um experimento narrativo na Série Mensal da Big Finish, e Morris não desperdiçou sua oportunidade: os dois discos (cada um contendo dois episódios) podiam ser ouvidos na ordem em que o ouvinte escolhesse, tendo o espectador em vista que o roteiro está trabalhando com eventos num loop temporal. No ponto central da trama está “o que aconteceu quando…” o Doutor foi coagido a mudar o passado, alterando o destino do Presidente de uma colônia humana. E tudo termina sem uma conclusão sobre qual das versões da história é a “correta”.

Os episódios se passam nos anos de 3060 e 3090, na véspera e no dia de Natal, na Colônia Humana de Puxatornee. Uma frota de refugiados de Slithergee pede aos humanos que os deixem instalar-se na Primeira Lua da Colônia. A recusa pode causar guerra. A Presidenta Bailey concorda. Anos depois, os Slithergee já colonizaram as Luas do planeta e grande parte de sua superfície. Os humanos foram reduzidos a guias dos aliens, que são cegos. A Resistência está reduzida, mas construiu secretamente uma máquina do tempo, e tentam voltar para 3060 e assassinar a Presidenta Bailey na noite em que ela concordou com a proposta dos Slithergee. Quando o Doutor e Mel chegam ao local à procura dos raros cristais de leptonita — que lhes permitiriam lutar contra os Quarks –, Mel é quem é levada de volta no tempo e o Doutor vai em busca dela. Começa (ou termina?) a jornada temporal de mudanças. E esta é apenas uma das grandes narrativas.

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Ilustração desse episódio feita por Martin Geraghty na DWM #333.

A outra pode até ser vista como um episódio à parte ou como integrante do loop, a meu ver, só funcionando até o terceiro episódio. O grande problema geral da história é que de um lado ela nos entrega um resultado quase acadêmico de como trabalhar viagem no tempo + o conceito de alteração do passado + alguns diferentes paradoxos temporais, e de outro, exibe sem reservas uma grande quantidade de falas que já tivemos na “mudança da linha do tempo anterior“, sempre com a mesma explicação geral do Doutor sobre “quem é quem” e sempre caindo em dilemas morais que às vezes parecem a resposta para um genial problema visto em outro momento. Ou às vezes mais uma camada de confusão para o espectador. Sem contar que os Slithergee são ruins demais, apesar de terem uma dublagem sensacional.

As correrias do 7º Doutor e Mel são majoritariamente hilárias e eu gosto de como a companion foi trabalhada, não só como ajudante, mas também como alguém que desde a sua chegada na série, em Terror of the Vervoids, está envolvida com uma linha temporal fora de ordem. Minha impressão geral é que se o roteiro não insistisse o tempo inteiro em encontros paradoxais e no Doutor explicando a mesma coisa, o ingrediente central da confusão ou o desconforto pelos diálogos dariam lugar a uma base mais fluída da obra. E sim, eu sei que há uma piadinha interna aqui em torno do filme Feitiço do Tempo, mas é aquela velha história: há muitas formas de se fazer uma homenagem ou abordar a essência de alguma coisa. Este não é um arco que eu indicaria para novos fãs dos áudios da série, mas com certeza é um que os mais calejados na mídia gostarão de ouvir. Nem que seja para terminar com uma dorzinha de cabeça.

Flip-Flop (Big Finish Mensal #46) — Reino Unido, julho de 2003
Direção: Gary Russell
Roteiro: Jonathan Morris
Elenco: Sylvester McCoy, Bonnie Langford, Richard Gibson, Pamela Miles, Francis Magee, Audrey Schoellhammer, Trevor Littledale, Trevor Martin, Daniel Hogarth, David Darlington
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.