Crítica | Big Finish Mensal #50: Zagreus

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Oh, Lord… Que bagunça! Que ambição! Que… curioso e ao mesmo tempo longo demais e até forçado demais arco da Big Finish Productions, o 50º de sua Linha Mensal. O projeto foi concebido para comemorar os 40 anos de Doctor Who, e elenca absolutamente todos os companheiros e Doutores da série que já haviam aparecido na Big Finish até aquele momento (novembro de 2003), embora nem todos interpretem os seus papéis originais.

Dividida em três partes (WonderlandHeartlandWasteland), a trama representa o grande resultado de uma jornada iniciada em Neverland, mas que na verdade explora todos os elementos relacionados ao Paradoxo de Charlie, a companheira do 8º Doutor naquele momento. O texto de Alan Barnes e Gary Russell faz o máximo para tornar palatável a longa e confusa fusão de tempos, pseudo-Doutores, variações da TARDIS e união de companions ou personalidades de Gallifrey, tudo numa única história. Nem é preciso falar o quanto isso é cansativo e sobre a quantidade de repetições que o texto precisa fazer para retomar conceitos mais complexos a cada mudança de quadro, especialmente porque as vozes que a gente conhece muito bem da série não estão vivendo os personagens que a gente imagina que estão.

Eu sou um dos espectadores que gosta muito de paradoxos e união de pontas vindas de diferentes lugares da série, mas chegou um momento desse arco que eu não conseguia aproveitar o que ouvia de jeito nenhum. Vejam a “participação” de Jon Pertwee, por exemplo. Ora, o ator havia falecido em 1996, não era necessário recortar suas falas do fan film Devious (com cenas do ator gravadas em 1995) para complementar uma participação que, para ser sincero, nada traz de necessário para a história como um todo. Infelizmente isso se dá com uma série de  versões, intrigas e problemas paralelos da trama. Olhando mais atentamente é compreensível que eventos em camadas menos importantes fossem adicionados ao texto, já que a ambição do arco era colocar todo mundo junto, trabalhando sob a temática sugestiva de Alice no País das Maravilhas e No País do Espelho, com direito a citações e brincadeiras com o Gato de Cheshire e o Jaguadarte. Ainda assim, chega um ponto em que a coisa parece ser demais, até para a versão-TARDIS interpretada por Nicholas Courtney.

Ilustração desse episódio feita por Roger Langridge na DWM #340.

Dessa luta contra a entidade anti-time chamada Zagreus, a melhor parte — e que me fez rir com gosto em alguns pontos — foi o bloco com Walton Winkle (Sylvester McCoy), o criador da Winkle’s Wonderland. McCoy está genuinamente hilário nesse ato e ele é um dos meus favoritos do arco. Também devo destacar o peso que o texto dá ao desenvolvimento psicológico de Charlie e sua relação com o Doutor, certamente encontrando um tenso momento de crise. Para quem vem acompanhando cronologicamente os áudios da BF, certamente esperava por uma “explosão” desse tipo, mas para quem chegou aqui de cara (boa sorte e parabéns para você, se este for o caso!), essa relação ainda pode ser notada em toda a sua força e certamente aproveitada pelo espectador.

Dos companheiros, os meus destaques vão para Romana e Leela, que (enfim!) encontram-se pela primeira vez. A participação de Leela é ainda mais intensa pela forma como ela ajuda Charlie a encontrar respostas para algumas coisas através do enfrentamento direto, sendo a personagem clássica melhor representada em todo o roteiro. Romana já aparece aqui de forma mais burocratizada, como a gente sabe que ficam as pessoas muito tempo ligadas a Gallifrey. Embora estejamos diante da Romana II (Lalla Ward), em essência, ela se parece bem mais com a primeira Romana (Mary Tamm) quando se encontrou com o Doutor em The Ribos Operation.

Zagreus é um arco que normalmente divide opiniões entre os fãs, embora eu não conheça muita gente que o tenha odiado. Trata-se de uma boa história, no todo, mas a ambição e o desenvolvimento muito intricado, um tanto repetitivo e cheio de cenas pouco importantes para a história depõem fortemente contra a saga. Aqui, porém, o espectador terá o aglutinamento de uma longa linha de aventuras da Big Finish e um novo capítulo na relação entre o 8º Doutor e Charlie, com ele indo para o Divergent Universe, colocando-se em quarentena para se desintoxicar do elixir anti-time e não afetar o nosso Universo com essas partículas. O que ele não esperava é que a companhia que imaginava ter deixado “livre de problemas” estava escondida em alguma lugar em sua nave… Encerrou-se um grande problema e basicamente abriu-se as portas para outro, numa nova fase da relação do Doutor com sua companheira neste Universo.

Project: Zagreus (Big Finish Mensal #50) — Reino Unido, novembro de 2003
Direção: Gary Russell
Roteiro: Alan Barnes, Gary Russell
Elenco: Peter Davison, Colin Baker, Sylvester McCoy, Paul McGann, India Fisher, Lalla Ward, Louise Jameson, Don Warrington, Nicholas Courtney, Anneke Wills, Stephen Perring, Elisabeth Sladen, Conrad Westmaas, Mark Strickson, Sarah Sutton, Nicola Bryant, Caroline Morris, Maggie Stables, Bonnie Langford, Robert Jezek, Stephen Fewell, Sophie Aldred, Lisa Bowerman, Miles Richardson, John Leeson
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.