Crítica | Big Little Lies – 2ª Temporada

  • spoilers.

Big Little Lies era para ter sido um minissérie finita baseada em romance homônimo de Liane Moriarty, mas o sucesso da produção fez com que a HBO, David E. Kelly e toda a equipe criativa voltasse para uma continuação, uma segunda temporada, por mais que ela fosse desnecessária. O ônus, então, passou a ser duplo, pois o showrunner precisaria não só mostrar relevância para justificar a sequência, como também apresentar algo que no mínimo se aproximasse da qualidade do original. 

Infelizmente, mesmo trazendo a autora do livro para ainda mais perto do processo criativo, Kelly não conseguiu nem uma coisa, nem outra. Essa segunda temporada não passa de um trabalho básico e genérico de repetição temática que não traz nada de realmente novo a não ser penduricalhos narrativos que só existem para permitir duração suficiente para sete episódios. 

A impressão que tenho é que Kelly sabia disso e, para criar um imã para os espectadores e eventualmente atrair outros, tratou de escalar Meryl Streep no papel de Mary Louise Wright, mãe de Perry (Alexander Skarsgard), marido abusivo de Celeste (Nicole Kidman) e estuprador de Jane Chapman (Shailene Woodley), morto ao final da temporada anterior. A veterana atriz, claro, acaba sendo realmente o único grande destaque desse novo capítulo que gira em torno das consequências do ocorrido para cada uma das agora conhecidas como As Cinco de Monterey, o que inclui uma discreta investigação policial e, principalmente, uma tentativa de Mary Louise de conseguir a guarda de seus netos em razão do desequilíbrio emocional da nora.

Na verdade, reconheço que estou exagerando ao dizer que Streep é o único grande destaque da temporada. Toda a relação de sua personagem com a Celeste de Kidman merece reconhecimento, ainda que os oito capítulos invistam proporcionalmente pouco tempo nas duas, com os roteiros tentando equilibrar os focos e dando atenção a cada uma das cinco mulheres, mas sem lograr o mesmo êxito. Mas voltarei para as outras quatro mais para a frente na crítica, já que Celeste é mesmo quem ganha o desenvolvimento mais fluido.

A presença disruptiva de Mary Louise (Streep constrói sua personagem de tal maneira que dá vontade de pular na tela para enforcá-la, ainda que ela não esteja completamente despida de razão) funciona como a gota d’água para desfazer o pouco da base sólida sob os pés de Celeste, que se mostra cada vez mais complexa perante sua terapeuta, sem conseguir reconhecer o quanto Perry fez mal a ela. Esse lado psiquiátrico da narrativa é ao mesmo tempo fascinante e torturante, funcionando como um bom – mas não exatamente necessário – complemento ao que fora apresentado antes. 

Nos primeiros episódios, antes de Mary Louise partir de vez para o ataque, vemos Celeste lutando contra sua memória afetiva de Perry e, como espectadores, podemos não entender o porquê de ela não sentir apenas alívio por seu marido abusivo não estar mais ao seu lado. A temporada esboça uma abordagem desse lado da história e esse aprofundamento teria sido bem-vindo, talvez realmente tornando a temporada mais do que algo apenas mediano. Mas, infelizmente, esse aprofundamento nunca vem de verdade, sendo substituído muito rapidamente por uma disputa judicial mal desenvolvida que a todo momento recorre a revelações novas sobre o passado da família Wright para trazer surpresas e reviravoltas que mais parecem desespero de roteirista sem imaginação que acha que esse tipo de twist é realmente necessário para tornar seu trabalho memorável.

E isso sem contar com a já mencionada necessidade de Kelly de trabalhar de maneira mais ou menos equânime cada uma das outras quatro protagonistas. Se na minissérie original isso era vital até pela forma original com que ele colocou a história na telinha, agora tornou-se algo forçado que não funciona de verdade em momento algum. 

Renata Klein (Laura Dern) e Madeline Mackenzie (Reese Whiterspoon) têm que lidar com o desmoronamento de seus respectivos casamentos, um por fraude e falência e outro por infidelidade, Bonnie Carlson (Zoë Kravitz) com a culpa direta que sente pela morte de Perry e, finalmente, Jane, que precisa lidar com os efeitos de seu trauma que a impedem de se relacionar romanticamente com seu colega de trabalho Corey (Douglas Smith). São situações não só pouco originais, como cansativas e repetitivas que detraem e muito do foco narrativo principal, convertendo-se em literais penduricalhos que fazem barulho e adornam, mas nunca realmente embelezam a história. Falta profundidade a cada uma dessas subtramas, ainda que seja particularmente divertido ver Renata literalmente derreter e ter um ataque de nervos, quebrando os brinquedinhos de seu marido imbecil. 

Kelly chega até mesmo a introduzir outra mãe na temporada, Elizabeth (Crystal Fox), que é chamada por Nathan (James Tupper) para tentar ajudar com o distanciamento de Bonnie. Nesse aspecto, o desvio narrativo é enorme e completamente injustificado, com a introdução extemporânea de todo outro cansativo drama familiar envolvendo abuso e negligência, além de um desconcertante lado “místico” que é usado pelo roteiro, pasmem, para explicar o porquê de Bonnie ter empurrado Perry escada abaixo como se alguma racionalização desse tipo fosse efetivamente necessária ou até mesmo minimamente crível dentro do contexto apresentado.   

A segunda temporada de Big Little Lies, no final das contas, é o típico exemplo de descontrole criativo, de não saber quando parar e da ascendência da ganância sobre a arte. Aparentemente, uma história bem construída ou minimamente relevante é desnecessária se Meryl Streep estiver no elenco. Ainda bem que sempre teremos a sensacional primeira – e até onde me consta, única – temporada para rever. 

Big Little Lies – 2ª Temporada (Idem, EUA – de 09 de junho a 21 de julho de 2019)
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: David E. Kelley, Liane Moriarty (baseado em romance de Liane Moriarty)
Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Laura Dern, Zoë Kravitz, Alexander Skarsgård, Adam Scott, James Tupper, Jeffrey Nording, Meryl Streep, Kathryn Newton, Iain Armitage, Darby Camp, Cameron Crovetti, Nicholas Crovetti, Chloe Coleman, Ivy George, Merrin Dungey, Robin Weigert, P. J. Byrne, Douglas Smith, Crystal Fox, Martin Donovan, Poorna Jagannathan, Denis O’Hare, Becky Ann Baker
Duração: 45 min. aprox. (cada episódio – sete episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.