Crítica | Bike Vs. Carros

Em alguns países, o deslocamento de bicicleta por todos os espaços urbanos é a representação cabal da possibilidade de transporte que não seja exclusivamente os automóveis, símbolo de status para muitas sociedades mergulhadas nos processos simbólicos que engendram o capitalismo. Assim, somos todos integrantes da Terra, um planeta rico em recursos naturais, mas habitado por seres humanos mais complexos que os teoremas matemáticas estabelecidos na história da humanidade. Escrito e dirigido por Fredrik Gertten, Bike Vs. Carros é um documentário que nos revela, por meio de uma narrativa atraente, os embates entre membros de ONGS, sócios e interessados pela indústria automobilística, políticos e membros da sociedade civil.

Mas, afinal de contas, o que é mais viável? As bicicletas ou os carros? Dentro de uma linha de pensamento sustentável, claro que os automóveis perdem a sua força, pois a emissão de gases, os transtornos dos congestionamentos e outras celeumas da vida urbana apontam para a preferência das bicicletas como um meio mais econômico, pratico e saudável para a natureza. No entanto, como se deslocar em meio aos obstáculos urbanos de cidades desenhadas para atender apenas às necessidades de motoristas de carros? Entraves são expostos diante da situação, pois além deste problema, precisamos ainda lidar com a falta de organização urbana de algumas cidades, problema apontado em Urbanized, documentário que também reflete, dentre tantas questões, as dificuldades de determinados habitantes de algumas cidades com investimentos estruturais esteticamente deslumbrantes, mas com bairros e vias distantes uma das outras, o que impede o atendimento de suas necessidades de consumo mais básicas.

Promovendo deslocamentos imensos que poderiam ser evitados, caso houvesse organização no desenho destes espaços urbanos, tendo em vista o atendimento aos cidadãos que as habitam, indo além do cumprimento de burocracias de planejamento. Sem aderir ao panfleto, mas com postura militante forte, o que pode ser confundido pelos que geralmente fogem do debate, o documentário apresenta experiências em diversos pontos do mundo, aponta sem medo de ocupar um posicionamento claro, a bicicleta como um dos meios do futuro, haja vista o crescimento vertiginoso da indústria automobilística, setor que não acompanha as necessidades ambientais e causa transtorno, dentre outras discussões.

Com direção de fotografia de Janice D’Avila, Bike Vs. Carros é uma produção que cumpre bem a sua função narrativa enquanto produto audiovisual. No que tange aos aspectos sonoros, a condução sonora de Florecia Di Concilio faz o filme fluir, juntamente com os didáticos e bem realizados efeitos visuais assinados pela equipe de Flávio Gayjutz, didáticos e necessários para que possamos compreender o fluxo de informações expostas para processamento do espectador. Atingiria ainda mais pessoas se tivesse um ritmo mais dinâmico do meio ao final, principalmente na contemporaneidade, era da pressa e da falta de paciência das pessoas, o que tem transformado a nossa sociedade num caos constante em todas as esferas de nossas vidas.

Interessante não apenas para educadores ou ciclistas, Bike Vs. Carros se revela um documentário necessário para as discussões sobre o futuro, não algo tão distante e à longo prazo, mas algo como o tempo verbal “futuro do presente”, mais imediato e próximo do que possamos imaginar. Cenas como a da abertura, demonstrando um ciclista que precisa descer da bicicleta para subir escadas carregando o seu meio de transporte, tendo em vista encontrar outra possibilidade de acesso não podem continuar acontecendo com a frequência que ocorrem. Motoristas que ao adentrar em seus carros, sentem-se personagens de filmes da franquia Velozes e Furiosos também englobam outro grande problema, pois tais pessoas, geralmente com alinhamento comportamental e pensamento extremista, típico de um “lado” da sociedade que não pensa no total, mas apenas nos integrantes de seu “grupo”. O meio ambiente, por sinal, agradece.

Bike Vs. Carros – Alemanha/Brasil/Estados Unidos/França/Suiça, 2015.
Direção: Fredrik Gertten
Roteiro: Fredrik Gertten
Elenco: Aline Cavalcante, Dan Koeppel, Raquel Ronilk, Nicolas Habbib, Ivan Naurholm, Joel Ewanick, Don Ward, Fabio Mendonça, Karem Rojas
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.