Home FilmesCríticas Crítica | Bill & Ted: Encare a Música

Crítica | Bill & Ted: Encare a Música

por Ritter Fan
2426 views (a partir de agosto de 2020)

O terceiro longa da franquia Bill & Ted tinha absolutamente tudo para dar errado. Afinal, se continuações já são normalmente piores que os originais, terceiras partes carregam a maldição da “trilogia” que poucas conseguem quebrar. E, com o ingrediente complicado da gigantesca distância temporal – são nada menos do que 29 anos desde o segundo filme! – a probabilidade de tudo o que tornou clássicos os dois primeiros longas ser esquecido ou pervertido estava mais para certeza matemática. Mas… como é bom ver certezas como essa serem completamente estilhaçadas!

Bill & Ted: Encare a Música, em poucas palavras, não só mantém muito bem a linha de tudo que os longas anteriores ofereceram de melhor, como arrisca e dobra a aposta (ou triplica), saindo vitorioso com um encerramento de trilogia que não tem vergonha alguma de usar uma combinação de nostalgia com material novo e muitas homenagens musicais que, por incrível que pareça, chegam a emocionar mesmo aqueles que porventura não tenham tido a oportunidade de ver os dois filmes originais em seus respectivos anos de lançamento. E o melhor é que ele faz isso sem exagerar nas pirotecnias típicas de continuações, ainda que, naturalmente, com o uso de CGI, o leque de possibilidades seja bem maior.

Mais uma vez com Chris Matheson e Ed Solomon no roteiro, a história reúne os dois elementos-chave dos filmes anteriores, a viagem no tempo e a viagem metafísica, mas sem se contentar em apenas repetir o que já foi feito. Ao contrário – e por isso afirmei que a aposta foi triplicada – o longa lida com três duplas viajando pelo tempo: Bill (Alex Winter) e Ted (Keanu Reeves) para achar a música que salvará a realidade como a conhecemos e unirá a humanidade através do tempo; suas filhas Wilhelmina “Billie” Logan (Brigette Lundy-Paine) e Theodora “Thea” Preston (Samara Weaving) para reunir uma banda e suas esposas, as princesas Joanna Preston (Jayma Mays) e Elizabeth Logan (Erinn Hayes), para encontrar alguma linha temporal em que elas tenham sido mais felizes com seus maridos. Consciente do tempo apertado, porém, os roteiristas, que ainda se dão ao luxo de usar o artifício do tempo real a partir dos 20 minutos de projeção, mantiveram o foco nos pais e nas filhas, deixando as esposas apenas como uma subtrama sempre presente, mas que permanece em segundo plano.

Essa estrutura pode parecer complicada, mas a decupagem de Dean Parisot – que dirigiu pouquíssimos longas, mas que dentre eles está a ode ao fandom chamada Heróis Fora de Órbita (Galaxy Quest) – juntamente com a montagem de Don Zimmerman (também de Galaxy Quest), resultam em uma progressão narrativa perfeita e bem explicada, mas sem precisar recorrer a textos explicativos que não façam parte da brincadeira, que entrelaçam as histórias e as linhas temporais criando um conjunto harmônico que, depois do engraçado, mas calmo prelúdio na festa de casamento de Missy com Deacon (sim!) que serve para apresentar o status quo triste de Bill e Ted, só acelera o passo, ganhando ritmo verdadeiramente alucinante, mas nunca confuso, em seu terço final.

O lado da nostalgia também está lá para quem souber aproveitar. Afinal, além do retorno de Winter e Reeves, sempre simpáticos e com a mesma energia que sempre mostraram juntos, voltam ao elenco não só William Sadler, novamente se divertindo muito vivendo a Morte (com trocadilho), como também Hal Landon Jr. como o pai de Ted e Amy Stoch (ex-Amy Stock-Poynton) como Missy, ex-madrasta tanto de Bill quanto de Ted e, agora, cunhada dos dois e nora dos  pais de Bill e Ted e… ah, sei lá, fiquei confuso… E, como se isso não bastasse, o saudoso George Carlin é homenageado duplamente aparecendo por segundos como um holograma de Rufus feito com base em imagens de arquivo e, também, na forma da personagem Kelly (Kristen Schaal), filha de Rufus que põe a história em movimento e que foi batizada assim por que esse é o nome da filha de George Carlin (na verdade, a homenagem é tripla, pois Kelly Carlin também faz uma breve ponta).

E não se enganem: a nostalgia e as homenagens funcionam muito bem dentro da estrutura do filme, jamais parecendo forçadas e jamais dando a impressão – como acontece muito por aí – que o roteiro teve que se contorcer para acomodar essa ou aquela referência. Muito ao contrário, é algo natural ao ponto de muito provavelmente quem não viu os filmes anteriores (ainda que seja improvável quem não os assistiu ter interesse pelo terceiro) dificilmente sentirá problemas que não seja, talvez, a desconfiança aqui e ali que tem mais história para ser conhecida por trás de determinadas cenas, mas nada que tire o prazer de assistir ao longa.

As atuações são boas como de praxe. Diria que Winter e Reeves, apesar de ainda serem Bill e Ted, estão um pouco menos à vontade em seus papéis de completos bobalhões de bons corações, algo que é muito mais culpa da idade do que dos atores. Por outro lado,  Lundy-Paine como Billie, a filha de Ted, e Weaving como Thea, a filha de Bill, estão muito bem fazendo impressões de Winter e Reeves mais novos vivendo Bill e Ted, mas ao mesmo tempo emprestando suas próprias personalidades às personagens. Chega ao ponto de, em diversos momentos, suas aventuras pelo tempo serem mais interessantes do que a de seus progenitores, em uma simpática maneira de a franquia passar o bastão para uma nova geração. Também vale destaque as presenças da sempre elegante Holland Taylor com a Grande Líder no futuro e do surpreendentemente engraçado Anthony Carrigan como… Dennis Caleb McCoy (vejam o filme para descobrir que personagem é esse).

Contando ainda com pontas ilustres, um ótimo tino musical e as esperadas e generosas doses de humor bobo, mas extremamente simpático – algo que, em tempos atuais, nunca é demais – Bill & Ted: Encare a Música é a improbabilidade cinematográfica devidamente materializada, a bem-vinda exceção para confirmar a regra. Nada como ser surpreendido tanto tempo depois que a continuação anterior também surpreendeu. Most bodacious!

Bill & Ted: Encare a Música (Bill & Ted Face the Music, EUA – 28 de agosto de 2020)
Direção: Dean Parisot
Roteiro: Chris Matheson, Ed Solomon
Elenco: Keanu Reeves, Alex Winter, Brigette Lundy-Paine, Samara Weaving, William Sadler, Kristen Schaal, Anthony Carrigan, Jayma Mays, Erinn Hayes, Holland Taylor, Kid Cudi, Jillian Bell, Hal Landon Jr., Amy Stoch, Beck Bennett, Win Butler, George Carlin
Duração: 88 min.

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