Crítica | Black Lightning – 1X04: Black Jesus

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Desde a abertura da série nós sabemos de o apelido de Jefferson Pierce em sua comunidade é “Black Jesus”. Há um bom sentido histórico e simbólico ligado a este apelido e foi com prazer que o vimos voltar à série, agora como o título de um capítulo que, apesar de manter a qualidade geral muito semelhando ao que o antecedeu (Lawanda: The Book of Burial) faz a temporada avançar. E para caminhos bem interessantes.

Escrito por Pat Charles (que infelizmente não tem um aplaudível currículo recente, pois foi ele o produtor-supervisor e roteirista de dois episódios daquela coisa chamada Punho de Ferro), Black Jesus funciona mais do lado dos vilões, dos cidadãos comuns e da ascensão de Tormenta (ou Anissa Pierce) do que do lado do Raio Negro. E isso é um ponto de partida muito bom para o texto, porque não nos deixa de molho em uma única coisa, largando soltas uma série de pontas que poderiam acrescentar bastante à série. Claro que o herói tem a participação massiva no episódio (afinal, o show é dele), mas notem como passamos mais tempo com mistérios paralelos em desenvolvimento do que em uma caminhada cega e sedenta do protagonista, cujo objetivo é derrubar a Gangue dos Cem. Até a cena do jantar (a gente já percebeu que refeições em família é algo importante para os Pierce, outra coisa bacana da série) é acompanhada de convidados, em uma conversa séria e ao mesmo tempo cômica a respeito das ações do Raio Negro na cidade.

Nesse sentido, nada como termos na direção alguém tão experiente como Michael Schultz. Sendo um ótimo contador de histórias e um diretor engajado em causas relacionadas à comunidade negra nos Estados Unidos, como a luta pelos direitos civis e filmes de teor político, Schultz consegue fazer das cenas mais simples de um roteiro algo que pode gerar sentimentos bem desconfortáveis. Dois exemplos aqui bastam.

O primeiro, e melhor deles, é a sequência com Lady Eve (Jill Scott está maravilhosa no papel!) fazendo uma espécie de sucção em alguém vivo numa maca e conversando com Tobias (Marvin ‘Krondon’ Jones III segue impressionando, mesmo quando seu personagem não está em momentos de fúria). Percebam que a câmera tem os movimentos mais ordinários possíveis, mas eles vão de um ângulo para outro igualmente incômodo, o que não nos desconecta do angustiante barulho (pontos para a edição e mixagem de som!) e faz com que almejemos que aquilo acabe logo. Sem contar que o roteiro, nesse momento, faz um contraponto racial absolutamente instigante, colocando uma mulher negra, em uma posição de grande poder, falando com um homem albino, igualmente criminoso, também poderoso, mas em uma posição que deve explicações e respeito à chefe. E mais ainda, a história de como determinados povos tratam os albinos como seres mágicos e vendem, cortam partes e queimam partes do corpo dessas pessoas em “rituais de magia” é algo que realmente existe (Tanzânia, Malauí e Burundi apresentam casos disso até hoje!) e que serve também como uma acertada colocação dramática — sendo aqui importante destacar que Tobias é um homem negro, mas que nasceu albino.

O outro momento abraça pontos adicionais da série. A cena em que Anissa e Grace encontram um grupo de homens que estão ali para agredi-las. A montagem paralela se segmenta no começo (uma falha que, a longo prazo, não incomoda), mas logo alcança um ótimo princípio de exposição dos problemas, mostrando a cena de Anissa lidando com os “valentões”, o Raio Negro observando um carregamento da nova e potente droga do mercado e Gambi (que a gente sabe que está fazendo um jogo duplo) identificando “algo estranho” próximo ao bar e indo investigar o local. Será que ele descobrirá Tormenta ANTES do pai dela? Faz sentido, certo? Em algum momento Gambi precisará saber dos poderes dela, porque pelas fotografias que tivemos da série, o uniforme de Anissa tem o mesmo princípio estético que o do Raio Negro, então só pode ter sido feito pela mesma pessoa, concordam?

As peças do jogo se movem. A chegada da irmã de Tobias à cidade; a “criação” de um vilão ideológico em Khalil (uma pena!) e a percepção de que as coisas na cidade crescerão a tal ponto que Raio Negro sozinho não dará conta são componentes que, até aqui, funcionam muito bem. Eu tenho receios em relação a essa toada mais aberta, mas não vou adicionar isso ao texto porque são hipóteses e não faz sentido criticar algo que ainda não existe. De uma coisa não temos dúvida: Black Lightning tem maus bocados pela frente…

Black Lightning 1X04: Black Jesus (EUA, 6 de fevereiro de 2018)
Direção: Michael Schultz
Roteiro: Pat Charles
Elenco: China Anne McClain, Nafessa Williams, Christine Adams, Marvin ‘Krondon’ Jones III, Damon Guptonf, James Remar, Jill Scott, Jordan Calloway, Skye P. Marshall, Edwina Findley Dickerson, Jason Louder, Chantal Thuy, Amanda Davis, Kat Logan, Taylor Polidore
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.