Crítica | Black Lightning – 1X07: Equinox: The Book of Fate

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 SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios e, aquias críticas das HQs.

Não era para acontecer, mas Black Lightning parece ter caído em um dilema que não é nada positivo vindo de uma série da CW: o destaque mais do que devido (e de maneira melodramática, o que é ainda pior) para questões pessoais, emocionais e/ou familiares do que para os “assuntos heroicos”, que são a espinha dorsal do show. A esta altura, nós já sabemos muito bem aonde isso pode nos levar (alô Arrow, alô The Flash) e não há nada para comemorar. Mas calma. Não é o fim. É apenas um incômodo e amedrontador sinal de atenção.

A tonalidade básica dos roteiros da série até aqui foi de um trabalho paulatino de desenvolvimento do Raio Negro, alguns de seus valores pessoais, relação com a família e com a comunidade. Isso foi a base de toda a primeira parte da temporada, que segurou bem o tranco da apresentação sólida de um herói desconhecido, fez o personagem se tornar impactante e, por fim, trouxe Anissa como Tormenta, no momento certo. Mas aí chegamos em Equinox: The Book of Fate, um episódio que precisava deixar alguns caprichos de lado e apresentar uma visão geral do enredo, em seu novo momento de possibilidades vilanescas, justamente para quebrar a maldição melodramática típica das séries ruins da emissora. Mas o roteirista Lamont Magee misturou o que não era para ser misturando e tirou todo o potencial do episódio, que se salva por pouco.

Sim, o maior problema deste sétimo episódio é o roteiro. Seu outro lado, a direção de Bille Woodruff, segue as regras do jogo, não fazendo nada de espetacular, mas também não tornando a exposição do drama algo visualmente intragável. Claro que ele poderia não perder tempo em planos nos cenários vazios ou compor melhor as surpresas de partida e chegada do Raio Negro em cena (a montagem também tem seu papel negativo aí), mas são caminhos menos problemáticos se considerarmos que não havia aqui nada de tão importante visualmente e que exigisse um apuro tão grande do diretor, o que seu trabalho em um ponto “ok” dentro do que o episódio precisava. Vale lembrar que na melhor e mais exigente sequência do episódio, o ataque a Lady Eve, Woodruff faz um baita trabalho de câmera, fazendo bons movimentos e considerando bons ângulos para salientar o suspense e nos deixar temerosos para o que pode acontecer com a personagem.

E é neste ponto em que eu queria chegar. Desde o último capítulo, o núcleo de mistérios envolvendo Lady Eve e Gambi era uma das coisas mais interessantes ainda em suspenso. Com a chegada de Anissa para o ramo heroico, essa relação com o passado se tornava ainda melhor. Mas aqui temos um ataque a uma das personagens coadjuvantes mais interessantes da série e um escanteamento desses mistérios do passado para uma permanência maior da relação temerosa dos Pierce para com a filha heroína. Não faz sentido essa mudança de ponto de vista, especialmente porque o núcleo encostado é infinitamente melhor, e nem vou falar do erro absurdo que foi tirarem Lady Eve do jogo (ou será que ela não foi, de fato?). Como venho apontando desde And Then the Devil Brought the Plague: The Book of Green Light, o trabalho familiar da série é interessante, mas os roteiros não podem tomar isso como o lema central, em detrimento da ação do Raio Negro ou de Tormenta, porque aí tudo estará perdido.

Não bastasse essa má organização do roteiro, ainda temos um final que depõe inteiramente contra o episódio. Não dá para terminar uma história apontando para coisas que o espectador não faz ideia do que se trata. Existe uma sugestão de que o que ocorre com Lala (a ressurreição) seja parte dos experimentos de Lady Eve (ou não?), mas como isso também era um mistério para nós, como podemos aceitar um cliffhanger solto desses? “Ah, mas é intrigante!“. De fato, é intrigante. Mas é ruim! Não se trata de chegar dando respostas. A gente não precisa de respostas agora. Mas se for para adicionar mistérios e novas estranhezas, que seja com base em algo que o público consiga fazer uma imediata teia de conexões e pense em possibilidades. É isso que mantém o jogo ativo. Da forma como veio aqui, isto foi apenas uma ação aleatória, sem critério algum. Sorte que tivemos boas cenas isoladas ao longo do episódio — mesmo com todos os buracos do roteiro — que conseguiram manter o capítulo acima da média. Talvez não seja o caso da próxima vez.

Black Lightning – 1X07: Equinox: The Book of Fate (EUA, 2018)
Direção: Bille Woodruff
Roteiro: Lamont Magee
Elenco: Cress Williams, China Anne McClain, Nafessa Williams, Christine Adams, Marvin ‘Krondon’ Jones III, Damon Gupton, James Remar, Jill Scott, Edwina Findley Dickerson, William Catlett, Charlbi Dean Kriek, Tracey Bonner, Derick Anthony, Amanda Davis, Jigga
Duração: 43 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.