Crítica | Black Mirror – 5X01: Striking Vipers

“Eu transei com um urso polar e ainda não consigo te tirar da cabeça.”

Os videogames são conhecidos por originar novas realidades e novas identidades para os seus jogadores. Em um jogo de tiro, por exemplo, a pessoa que joga pode assumir um caráter bastante calculista, ignorando vítimas e consequências virtuais, sem necessariamente ser uma psicopata no mundo em si. Com a possibilidade de realidade aumentada que Striking Vipers propõe pela sua premissa, essa ressignificação do eu tem o seu escopo exponenciado. Quem nós somos quando controlamos um avatar? No primeiro episódio da quinta temporada de Black Mirror, o jogo de luta homônimo emulará tudo o que acontecer durante os combates entre os combatentes, dos seus socos aos seus chutes. O jogador sente o que o seu personagem respectivo sentir. Há, porém, uma reviravolta em Striking Vipers que resume a sua temática com mais concisão e provocação. Charlie Brooker entra em mares mais específicos ao estudar a questão das identidades dos seres humanos, agora estando em outros universos com outros corpos e sem as amarras dos cotidianos.

Usando a tecnologia para comentar sobre pessoas e seus comportamentos, o problema mais grave do episódio, que começa uma temporada menor se comparada às anteriores, mora em não saber explorar verdadeiramente a sua premissa. Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II são antigos amigos que começam a viver secretas vidas duplas após jogarem um jogo em realidade aumentada. O teor abrupto com que um grande acontecimento surge, a reviravolta, é condizente com a(s) natureza(s) desses personagens, sem nunca antes terem pensado em se verem do modo como passam a se ver quando estão dentro do jogo, jogando. Mas a direção de Owen Harris, em contrapartida, não consegue usufruir completamente das tensões em questão, preferindo se sustentar apenas na premissa do que em uma construção que permaneça provocativa. O argumento de Charlie Brooker já é instigante naturalmente, portanto, o que o cineasta precisava conduzir era uma execução justa ao caráter erótico intencionado a tais amigos, que nasce no caso.

Por exemplo, cita-se uma transcendência às partidas jogadas por esses personagens que não é mostrada em nenhuma das cenas, as quais são pouco estimulantes. A própria qualidade dos combates propriamente ditos é questionável, com planos estranhos que não compreendem se irão aproveitar a estética de videogame ou não. Owen Harris, assim como as tensões sexuais, também não consegue explorar com extrema competência as perturbações dos personagens, os quais se encontram em meio a uma séria ressignificação de identidade. Yahya Abdul-Mateen II, nesse passo, tem até um peso extra em jogo. Isso é mais culpa, porém, do roteiro de Brooker, um pouco redundante e restringido a abrir seus leques para novos caminhos. Por outra instância, existe uma discussão sobre matrimônio na narrativa, que é genérica se comparada a premissa sobre avatares, apesar de funcionar. Nicole Beharie, por sinal, complementa bem o elenco, possuindo um arco próprio, que é paralelamente coeso às desventuras do seu marido no mundo dos jogos eletrônicos.

Charlie, com isso, mostra estar menos corajoso aqui do que antigamente era. A sua escolha é por uma trajetória mais segura, que termina repensando em menor escala tais relacionamentos. O mais interessante de Striking Vipers, entretanto, é rejeitar alguma definição mais concreta do que acontece com os seus personagens, acerca do que estão sentindo e pensando. O episódio está, pelo contrário, meramente estimulando a existência de um outro mundo com outras possibilidades sensoriais. Não é porque nos videogames eles atuam e se relacionam de uma certa maneira que na vida real os mesmos sentimentos existiriam. Os personagens em jogos de luta não são apenas uns avatares, mas outras identidades sendo assumidas e vividas, sem impedimentos, o que abre espaço para inúmeras explorações por parte dos próprios protagonistas, sobre quem serão e sobre quem são. Esse cerne é provocativo, instigante e constrói uma gama enorme de nuances para esses dois homens. Uma pena o episódio em si não sustentar tal premissa com esse mesmo vigor.

Black Mirror – 5X01: Striking Vipers (EUA, 5 de junho de 2019)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Owen Harris
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Anthony Mackie, Yahya Abdul-Mateen II, Nicole Beharie, Pom Klementieff, Ludi Lin
Duração: 61 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.