Home TVEpisódio Crítica | Black Mirror – 5X02: Smithereens

Crítica | Black Mirror – 5X02: Smithereens

por Gabriel Carvalho
326 views (a partir de agosto de 2020)

“Todo lugar que você olha as pessoas estão presas às coisas.”

Smithereens não conta com nenhuma tecnologia avançada em sua premissa. O episódio também nunca chega a ser um exemplar de Black Mirror que objetivamente perturba, como The National Anthem e Shut Up and Dance. Indiretamente, contudo, existem provocações que engradecem o estudo de sociedade e tecnologia que Charlie Brooker conduz. Como nestes dois casos e esse segundo episódio da quinta temporada da série, os paralelos traçados são com o nosso presente e os meios que possuímos hoje para nos comunicarmos com as pessoas. O enfoque, porém, é na condição humana e como a sociedade passa a enxergar uma pessoa mediante os seus dados que encontram-se na internet. Depois do protagonista Chris, interpretado por Andrew Scott, sequestrar um estagiário de uma empresa, o passado do personagem começará a ser investigado por várias autoridades, para que os policiais consigam prevenir uma tragédia de acontecer. Em contrapartida, o sequestrador só anseia conversar por celular com o presidente do Smithereens, uma rede social.

Os interesses mais críticos do episódio envolvendo a nossa tecnologia, por conta da época ser a presente, moram na parte investigativa da premissa, que desponta após Chris iniciar o sequestro e perceber-se cercado por carros de polícia. Smithereens é um episódio com uma veia cômica mais sombria permeando-o constantemente, porque existe um claro contraste entre as autoridades oficiais e os funcionários da rede social. Eles entram paralelamente no jogo para saber quem é essa pessoa que quer tanto se comunicar com Billy Bauer (Topher Grace), o homem mais poderoso da empresa. Enquanto dois policiais precisam visitar a casa da mãe de Chris para saber o seu paradeiro, a mesmíssima informação é adquirida por outros personagens em questão de instantes. Há uma clara intenção de Brooker em exemplificar o poderio das redes sociais nos dias atuais, com acesso a muito mais informações que qualquer entidade governamental. Billy Bauer é quase um Deus, enquanto seus lacaios tiram fotos e as postam nas redes,  dando-o conhecimento.

O episódio em questão explora, ao mesmo tempo que propõe pensamentos acerca do uso da tecnologia nos dias atuais, a pirâmide social que é criada por essas empresas. Tais redes não são movimentadas pelos seus serviços, porém, pelas pessoas que gratuitamente cedem seus dados para elas. Conhecimento é poder e quem possui poder hoje, mais do que qualquer outra pessoa, são os donos dessas grandes organizações. Mas o roteiro de Brooker, naquele que é o melhor episódio da quinta temporada, também sabe usufruir da tecnologia para movimentar a sua narrativa. As redes sociais não são apenas os alvos da mensagem, contudo, também parte da estrutura. Essa pirâmide, consequentemente, ganha embasamento no enredo, que precisa criar uma interação entre um mero estagiário e o presidente. Topher Grace encarna um homem no auge de sua serenidade, que antes não possuía nenhuma preocupação, enquanto o sequestrado, vivido por Damson Idris, é quem desespera-se por algo que não tem nada a ver, por ser pego pelo acaso.

Smithereens, porém, demora para iniciar-se propriamente. Também contém uma trama secundária, acerca de uma mãe enlutada, que é encaixada sem muita coesão, esquecida por um bom tempo. Permanece, no entanto, o interesse de Charlie em criticar a impessoalidade com que os donos das redes tratam os seus usuários. O capítulo enquanto thriller, por sorte, mostra ser muito competente, reorganizando-se o tempo todo diante de novas problemáticas. O roteiro perspicazmente usa dos erros do protagonista para transformar os seus rumos, assim como a tecnologia, criando questões que dependem da sua existência, impulsionando o seu valor. Em meio a estresses, a câmera de James Hawes confina bem os seus personagens dentro do carro, num episódio que sabe enervar o espectador. Já Andrew Scott, excelente, consolida sua inexperiência como sequestrador, assim como a sua enorme depressão, desamparo por ser ninguém. O encerramento ajuda a movimentar um anonimato.  Tal caso de Chris só é importante por questão de segundos para um mundo inteiro.

Em vista deste ser o seu protagonista, a obra apresenta um homem médio, como qualquer outro que consome o Facebook e o Twitter, mas que carrega uma culpa por usar a rede erroneamente. O capítulo até saboreia uma sugestão de transferência dessa carga para os responsáveis pela rede social, como Billy Bauer comenta em uma cena. Entretanto, o episódio é mais esperto que isso, preferindo apenas se ater à condição ordinária do que aconteceu com o personagem. Para a empresa, para Billy Bauer, não significa nada o passado de Chris, apenas mais um entre milhões e milhões de usuários. Por um segundo, o homem, portanto, apenas quer ganhar a atenção de uma pessoa que normalmente não se preocuparia com uma tragédia como a dele. O contraponto entre o homem que tem tudo e o que tem nada, o que cria e o que consome. Enquanto Chris precisa viver as consequências de suas ações, Bauer tem todo o tempo do mundo para simplesmente ficar uma semana em silêncio. Depois desta narrativa concluir-se, os olhos se fecham e a vida continua.

Black Mirror – 5X02: Smithereens (EUA, 5 de junho de 2019)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: James Hawes
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Damson Idris, Andrew Scott, Topher Grace, Ruibo Qian, Crystal Clarke, Ambreen Razia
Duração: 60 min.

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20 comentários

Massy Andrade 26 de agosto de 2020 - 02:24

Zuckerberg não dá a mínima para os discursos de ódio no Face.

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Marta Santos 11 de março de 2020 - 22:27

Achei esse episódio uma merda e sinceramente não quero assistir nenhum outro. Aff qual o sentido de tudo aquilo só pra contar que ele foi acidente devido ao seu vício pelo acesso a empresa de mídia.

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Ex Cartman 14 de junho de 2019 - 13:56

melhor episódio dessa péssima temporada, alia trilher policial com humor britânico foi uma puta sacada.

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Flavio Batista 11 de junho de 2019 - 10:43

É o melhor da temporada, mas nao foi o q eu mais gostei (curti mais striking vipers)
Ate tive minha cota de surpresa qdo é revelado o responsavel pelo acidente.

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Fórmula Finesse 10 de junho de 2019 - 11:13

O melhor episódio dessa nova e curtíssima temporada; o final foi muito legal: vida que segue, não importa as tragédias por atacado que consumimos velozmente (público) ou se és diretamente impactado por elas (Bauer)…

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Teco Sodre 10 de junho de 2019 - 10:05

Achei um pouco batido o tema, a motivação dele era séria e pesada, mas pensei que ele tramava uma “retaliação” mais elaborada, algo mais “punch”. No começo do episódio, imaginei que ele matava, todo dia, um funcionário da empresa, como retaliação por ter feito algum mal a ele. Então, como construção, o episódio é até tenso, mas achei a conclusão bem morna, quase fria.

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Erik Romão 9 de junho de 2019 - 17:19

Episódio bacana. Só acho que ficou um pouco enrolado no meio, aquele puxa e empurra entre as autoridades e os funcionários da rede social ficou um pouco cansativo depois de um tempo, sei que faz parte da proposta mas se fosse uns 5-10 minutos mais curto teria um ritmo melhor. O final foi ótimo

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Igor Tiago 8 de junho de 2019 - 10:01

Acho que essa foi a primeira vez que eu ri em um episódio de Black mirror haha, eu até achei que o episódio seria realmente uma comédia porém mais pra frente a chapa começou a esquentar e o roteiro conseguiu balancear bem os dois aspectos do episódio. Até Can’t take my eyes off of you como a música relaxante de espera achei que era só uma gag qualquer mas no final que eu saquei que era mais. Ótimo episódio e ótima crítica também

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Érica Pazzi 8 de junho de 2019 - 00:04

Sua crítica me animou pra ver o episódio

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Cesar 7 de junho de 2019 - 23:50

Sei la mano, quando pego um episodio de BM pra ver, espero algo unico, original. O episodio em questao conta uma estoria parecida com tantas outras que ja saturamos. É um episodio legal? É! Mas pra quase dois anos de espera, sao 3 episodios bem abaixo da media, indiscutivelmente a season mais fraca. Achei que com a redução de episodios a quallidade daria mais um salto. Doce engano.

Começo a me perguntar se o Charlie Brooker ja esgotou seu “teto” de criatividade.

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Pé De Pano 7 de junho de 2019 - 21:13

Talvez eu veja esse (apenas por causa do Jim Moriarty…).

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paulo ricardo 7 de junho de 2019 - 20:13

Achei muito ruim , chato ! O Terceiro episódio tbm é ruim , gostei muito só do primeiro !

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André Rodrigues 8 de junho de 2019 - 23:16

Sério que vc achou bom o primeiro?

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Adriana Santos 7 de junho de 2019 - 18:13

A música nos créditos foi escolhida perfeitamente, nunca mais vou ouvi-la do mesmo jeito. Ótima crítica!

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O Homem do QI200 7 de junho de 2019 - 16:51

O melhor episódio da temporada e olha que achei que seria horrível. Começou devagar e até desinteressante, depois me prendeu de um jeito que fiquei chateado quando acabou.

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Gabriel Carvalho 7 de junho de 2019 - 17:58

Tamos juntos nessa. Quando engajei no episódio, ele provou ser ótimo para mim.

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JC 7 de junho de 2019 - 16:31

Esse achei bem Black Mirror haahahah
Muito bom! Não achei ruim como muitos falaram….ao contrário! Dá pra pensar bastante e o final não é leve.
Os outros dois achei apenas okay.

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Gabriel Carvalho 7 de junho de 2019 - 17:58

Também achei. E acho um Black Mirror inteligente, que está realmente pensando alguma coisa com os seus acontecimentos, com a sua narrativa.

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Fabricio 7 de junho de 2019 - 15:41

Excelente critica e excelente episódio, pra mim, de longe o melhor dessa temporada.

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Gabriel Carvalho 7 de junho de 2019 - 16:16

Valeu, Ghostface. Também acho o melhor da temporada, de longe.

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