Crítica | Black Mirror – 5X02: Smithereens

“Todo lugar que você olha as pessoas estão presas às coisas.”

Smithereens não conta com nenhuma tecnologia avançada em sua premissa. O episódio também nunca chega a ser um exemplar de Black Mirror que objetivamente perturba, como The National Anthem e Shut Up and Dance. Indiretamente, contudo, existem provocações que engradecem o estudo de sociedade e tecnologia que Charlie Brooker conduz. Como nestes dois casos e esse segundo episódio da quinta temporada da série, os paralelos traçados são com o nosso presente e os meios que possuímos hoje para nos comunicarmos com as pessoas. O enfoque, porém, é na condição humana e como a sociedade passa a enxergar uma pessoa mediante os seus dados que encontram-se na internet. Depois do protagonista Chris, interpretado por Andrew Scott, sequestrar um estagiário de uma empresa, o passado do personagem começará a ser investigado por várias autoridades, para que os policiais consigam prevenir uma tragédia de acontecer. Em contrapartida, o sequestrador só anseia conversar por celular com o presidente do Smithereens, uma rede social.

Os interesses mais críticos do episódio envolvendo a nossa tecnologia, por conta da época ser a presente, moram na parte investigativa da premissa, que desponta após Chris iniciar o sequestro e perceber-se cercado por carros de polícia. Smithereens é um episódio com uma veia cômica mais sombria permeando-o constantemente, porque existe um claro contraste entre as autoridades oficiais e os funcionários da rede social. Eles entram paralelamente no jogo para saber quem é essa pessoa que quer tanto se comunicar com Billy Bauer (Topher Grace), o homem mais poderoso da empresa. Enquanto dois policiais precisam visitar a casa da mãe de Chris para saber o seu paradeiro, a mesmíssima informação é adquirida por outros personagens em questão de instantes. Há uma clara intenção de Brooker em exemplificar o poderio das redes sociais nos dias atuais, com acesso a muito mais informações que qualquer entidade governamental. Billy Bauer é quase um Deus, enquanto seus lacaios tiram fotos e as postam nas redes,  dando-o conhecimento.

O episódio em questão explora, ao mesmo tempo que propõe pensamentos acerca do uso da tecnologia nos dias atuais, a pirâmide social que é criada por essas empresas. Tais redes não são movimentadas pelos seus serviços, porém, pelas pessoas que gratuitamente cedem seus dados para elas. Conhecimento é poder e quem possui poder hoje, mais do que qualquer outra pessoa, são os donos dessas grandes organizações. Mas o roteiro de Brooker, naquele que é o melhor episódio da quinta temporada, também sabe usufruir da tecnologia para movimentar a sua narrativa. As redes sociais não são apenas os alvos da mensagem, contudo, também parte da estrutura. Essa pirâmide, consequentemente, ganha embasamento no enredo, que precisa criar uma interação entre um mero estagiário e o presidente. Topher Grace encarna um homem no auge de sua serenidade, que antes não possuía nenhuma preocupação, enquanto o sequestrado, vivido por Damson Idris, é quem desespera-se por algo que não tem nada a ver, por ser pego pelo acaso.

Smithereens, porém, demora para iniciar-se propriamente. Também contém uma trama secundária, acerca de uma mãe enlutada, que é encaixada sem muita coesão, esquecida por um bom tempo. Permanece, no entanto, o interesse de Charlie em criticar a impessoalidade com que os donos das redes tratam os seus usuários. O capítulo enquanto thriller, por sorte, mostra ser muito competente, reorganizando-se o tempo todo diante de novas problemáticas. O roteiro perspicazmente usa dos erros do protagonista para transformar os seus rumos, assim como a tecnologia, criando questões que dependem da sua existência, impulsionando o seu valor. Em meio a estresses, a câmera de James Hawes confina bem os seus personagens dentro do carro, num episódio que sabe enervar o espectador. Já Andrew Scott, excelente, consolida sua inexperiência como sequestrador, assim como a sua enorme depressão, desamparo por ser ninguém. O encerramento ajuda a movimentar um anonimato.  Tal caso de Chris só é importante por questão de segundos para um mundo inteiro.

Em vista deste ser o seu protagonista, a obra apresenta um homem médio, como qualquer outro que consome o Facebook e o Twitter, mas que carrega uma culpa por usar a rede erroneamente. O capítulo até saboreia uma sugestão de transferência dessa carga para os responsáveis pela rede social, como Billy Bauer comenta em uma cena. Entretanto, o episódio é mais esperto que isso, preferindo apenas se ater à condição ordinária do que aconteceu com o personagem. Para a empresa, para Billy Bauer, não significa nada o passado de Chris, apenas mais um entre milhões e milhões de usuários. Por um segundo, o homem, portanto, apenas quer ganhar a atenção de uma pessoa que normalmente não se preocuparia com uma tragédia como a dele. O contraponto entre o homem que tem tudo e o que tem nada, o que cria e o que consome. Enquanto Chris precisa viver as consequências de suas ações, Bauer tem todo o tempo do mundo para simplesmente ficar uma semana em silêncio. Depois desta narrativa concluir-se, os olhos se fecham e a vida continua.

Black Mirror – 5X02: Smithereens (EUA, 5 de junho de 2019)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: James Hawes
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Damson Idris, Andrew Scott, Topher Grace, Ruibo Qian, Crystal Clarke, Ambreen Razia
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.