Crítica | Black Mirror – 5X03: Rachel, Jack and Ashley Too

“Ela está escrevendo alguma bosta que 20 pessoas vão se relacionar.”

Dos três episódios que compõem a quinta temporada de Black Mirror, Rachel, Jack and Ashley Too é o que mais marcou o anúncio de retorno do popular seriado, encabeçando essa empreitada. A sua temática, entrando no universo da música e seu consumo pelas grandes massas, conversa objetivamente com parte do público que assiste à série. Ora, os ídolos pop continuam a ser parte da vida de muitas pessoas. Mas e quando tais artistas perdem os seus valores para tornarem-se peças descartáveis de uma indústria nociva e impessoal? Quando as mensagens perdem sua sinceridade e transformam-se em meras propagandas de marketing? Mesmo contendo essa boa premissa, que é interessante por ser impulsionada pela presença de Miley Cyrus interpretando uma versão de sua Hannah Montana, os caminhos percorridos por Charlie Brooker são, porém, covardes. A crítica morrerá na praia, enquanto o episódio em si prende-se a unidimensionalidades.

A preferência de Brooker e Anne Sewitzky, responsável por dirigir o episódio, é por uma pegada mais descontraída, originando uma experiência que pontualmente até entretém. Isso, entretanto, acontece às custas de um compromisso pela proposta original da obra e, principalmente, uma coesão de tom. No capítulo, um brinquedo de uma cantora famosa, que tem traços de inteligência artificial, mostra ser imprescindível para poder interromper uma gigantesca conspiração dentro da indústria fonográfica. O drama do núcleo juvenil, principalmente toda a apatia da personagem de Angourie Rice, começa bem, trajando um ar satírico que é assumido pelos momentos iniciais do episódio. O carro do pai da protagonista, uma das maiores fãs de Ashley, personagem de Cyrus, é uma piada por si só, assim como a sua profissão. Há um esquema mais paródico, retomado no terceiro ato, que Sewitzky tenta orquestrar sem muito sucesso em meio à crítica social e ao drama.

Ao mesmo tempo que existe um teor consideravelmente lúdico permeando o episódio, Brooker procura enfiar goela abaixo dos espectadores uma carga acerca da personagem de Cyrus. A jovem está presa aos moldes de uma organização que quer a vender só de uma única maneira, com o mesmo sorriso, a mesma positividade e cores. Já a artista tem que se virar entre ir de sua depressão enraizada, no início, a sua raiva revolucionária, no fim. Isso também acontece com a protagonista, que tem um pano de fundo com a sua mãe e uma rixa com sua irmã. Em um último plano, contudo, nada mais está sendo comunicado. O capítulo opta por uma missão de resgate vazia, que não ressignifica a proposta, mas consolida o discurso como simplista, raso. Esse é um episódio que não consegue, portanto, mesclar um absurdismo naturalmente cômico a uma ideia mais concreta de estudo de personagens e, mais que isso, um estudo que pensa nossa sociedade.

Nem o uso da tecnologia, que costuma surgir como essencial à Black Mirror, é apropriado aos objetivos do episódio. Quando o “brinquedo” inspirado em Ashley, chamado Ashley Too, ganha vida e começa a resmungar, por exemplo, pouco importa ao roteiro pensar o eletrônico por si. Já sabíamos da real Ashley. Ele é, porém, usado complementarmente, como mero artifício de roteiro, ao invés de criar um embate sincero sobre a condição humana, contribuindo para a narrativa essencialmente. Em contrapartida, o que a empresária/tia da personagem de Cyrus quer mover com a sua sobrinha é inverossimilhante demais. Por que não simplesmente inventar músicas novas, chicletes e superficiais, e as creditar para Ashley? É puro maniqueísmo, bobo. Quem acaba sendo vazio é o próprio episódio. Tão moralista a resolução que até surpreende a aceitação de Cyrus para esse papel, que se resume em Ashley abandonando o pop e assumindo o rock. O que?

Black Mirror – 5X03: Rachel, Jack and Ashley Too (EUA, 5 de junho de 2019)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Anne Sewitzky
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Miley Cyrus, Angourie Rice, Madison Davenport, Frances Sholto-Douglas, Greg Kriek, Glenn Webster
Duração: 60 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.