Crítica | Black Mirror: Bandersnatch

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Bandersnatch é um filme interativo. Sua estreia em 28 de dezembro de 2018, na Netflix, veio praticamente de surpresa, com divulgação tímida apenas alguns dias antes da disponibilização da obra, e nada mais. A tag que marca o filme, no entanto, fez o serviço sujo de viralização: Black Mirror. E com isso, veio a frase-feita que todos odeiam odiar: “ainnn, mas isso é muito [insira aqui a palavrinha mágica]“. Como se isso explicasse ou justificasse alguma coisa. De toda forma, se o fez no passado, certamente não faz aqui. Bandersnatch é um filme ok, cheio de frufrus narrativos (não se preocupem, eu já tenho idade para usar essa gíria) que são até bastante divertidos, chamam a nossa atenção até um certo momento da experiência mas, no final, a frase que nos vem à mente é… “meu Deus, que preguiça!“.

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Dirigido por David Slade (sim, ele assinou A Saga Crepúsculo: Eclipse, mas tem uma carreira respeitada na TV), o filme nos coloca na trilha de Stefan Butler (Fionn Whitehead) um programador que se vê fascinado por um livro que foi de sua mãe (se você já sabe o nome do livro, clique aqui. Se você não sabe o nome do livro, clique aqui) e trabalha na adaptação da obra para um videogame. A trama se passa na Inglaterra, em 1984, e basicamente tudo segue nos moldes que esperamos de Black Mirror até o momento em que o filme deixa de ser filme e se torna uma experiência híbrida, onde o espectador precisa escolher os caminhos que Stefan deve seguir. Na forma como foi pensado, o longa nos deixa diante da seguinte situação: temos 10 segundos para escolher entre duas opções, ou um caminho aleatório é escolhido por nós.

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Como apontei antes, a experiência de Bandersnatch é bastante válida e, acima de tudo, diverte, ao menos em sua maior parte. A direção de Slade consegue criar muito bem a sensação basilar de um cenário de conspiração e o roteiro de Charlie Brooker faz o que se deve fazer no início de obras assim: nos inundar de pistas. De posse de diversas informações e sendo obrigado a escolher caminhos para o protagonista, o espectador vai subindo alguns degraus na percepção de sua realidade diante, controlando a realidade dentro da tela. Explico: se de início temos a impressão blasé de que o filme é apenas uma escolha básica de “faz isso/faz aquilo“, essa percepção é virada de cabeça para baixo quando o texto resolve dar o seu maior passo metalinguístico, estabelecendo o diálogo entre personagem e espectador. Não chega a ser uma quebra de quarta parede, mas com certeza é o melhor momento de interação e o ponto mais alto de toda a proposta do filme. Fora isso…

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… o que temos é uma pequena enganação bem embrulhada em afirmações de “conflitos ou finais infinitos” (onde foi que eu vi isso antes?) e retornos a um ponto onde a única opção é aquela que o espectador não escolheu antes. Para cada um desses novos caminhos temos um “curta-metragem” que tenta juntar as pontas e dar sentido ao todo, mas, pelo menos para mim, nenhum deles terminou bem e nenhum deles esteve, até mesmo em seu desenvolvimento, à altura do que toda a trama promete. É inegável, porém, a existência de referências e sequências marcantes, como a óbvia piscadela para a escolha do nome do livro-jogo-filme (sacaram a interação? “isso é muito Black Mirror, meeeeu!“), um personagem de Alice no País do Espelho. A marca estética também ajuda bastante a apreciação, com fotografia majoritariamente saturada e uns close-ups que, mesmo em grande quantidade, não enjoam, porque são bem utilizados pelo diretor.

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Um deleite pessoal foi a colocação de um crítico de games, num ambiente bem pensado pela direção arte, para comentar o resultado final do jogo de Stefan ou de Colin Ritman em cada um dos finais alternativos. E por falar em Colin Ritman, este personagem é interpretado por um ator de quem gosto bastante, Will Poulter, que ganha máximo destaque em todas as cenas que aparece. Seus parceiros de elenco também estão elogiáveis (bom… exceto Alice Lowe, que não poderia estar mais desconfortável como terapeuta) mas todas as participações além da de Stefan ficam apenas na superfície. E sim, isso é perfeitamente compreensível por conta da jogabilidade e foco no protagonista, que deve guiar a narrativa até um final de consequências resultantes de nossas escolhas. Ocorre que o produto aqui não é exatamente um jogo. E nem exatamente um filme. É um híbrido entre mídias que, como tal, deveria seguir o básico das regras de cada lado para poder funcionar com perfeição. Obviamente, isso não acontece.

SPOILERS!

Bandersnatch é uma experiência interessante, mas só consegue chegar a muito custo na linha de “boa experiência” porque é incompleta como filme e parcialmente frustrante como jogo. Como era de se esperar, os muito impressionados de plantão já começaram a discutir se “o futuro do cinema será esse“… Eu realmente espero que não. Que cada mídia possa ter a oportunidade de contar sua história e dar ao consumidor tudo o que a experiência promete e permite. Muitos casamentos entre diferentes meios narrativos já foram feitos e alguns deram bastante certo, mas essa versão de Você Decide feita por streaming simplesmente nos deixa sem o mel e sem a cabaça. Prefiro ver meus filminhos em paz, com todos os destinos organicamente decididos pelo roteirista. Ou pelo menos eu acho que quero. Não sei bem se estou no controle… Será que tem alguém […?]. Se você quer saber o destino de Luiz Santiago depois dessas últimas palavras, clique aqui. Se você acha que já perdeu tempo demais da sua vida lendo esse texto, clique aqui

Black Mirror: Bandersnatch (EUA, 28 de dezembro de 2018)
Direção: David Slade
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Asim Chaudhry, Alice Lowe, Craig Parkinson, Will Poulter, Fionn Whitehead, Tallulah Haddon, Catriona Knox, Jonathan Aris, Paul Bradley, Alan Asaad, Suzanne Burden, Jeff Minter
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.