Home TVEpisódio Crítica | Black Sails – 4X09: XXXVII

Crítica | Black Sails – 4X09: XXXVII

por Ritter Fan
169 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

Quase que integralmente passado na Ilha do Esqueleto e focado na amizade conflituosa entre o Capitão Flint e Long John Silver, o penúltimo episódio de Black Sails é, mais uma vez, uma aula de desenvolvimento de personagens. Ao mesmo tempo, é um capítulo compassado, violento, tenso, mesmo para quem já leu A Ilha  do Tesouro – tem alguém que não leu? – e se lembra do destino da dupla.

Como poucas vezes durante a série, o roteiro de Jonathan E. Steinberg (um dos showrunners) e Dan Shotz (produtor executivo e co-autor de três outros roteiros com Levine e um solo) faz uso de flashback para pontuar a construção do relacionamento entre Flint e Silver. Somos levados para algumas semanas antes do ataque que marca o primeiro episódio desta temporada, quando Flint decide aperfeiçoar o manejo da espada por Silver, especialmente sem uma perna, o que ajuda a explicar a destreza do personagem com a muleta e até sem ela na obra de Robert Louis Stevenson. Usando uma fotografia azulada que esmaece as demais cores, o diretor Steve Boyum dá relevo natural à relação dos dois sendo fortalecida naquele momento, com o passado de Silver sendo puxado por Flint como uma moeda de troca, uma espécie de preço pela confiança irrestrita que um deve depositar no outro, mesmo que pouco descubramos sobre ele na verdade.

E, com esse flashback entremeando todo episódio, o choque com o conflito potencialmente mortal entre os dois se faz sentir. Não houve, assim, qualquer truque ou plano ao final do episódio anterior. Flint realmente furtara o baú do tesouro sem conhecimento de Silver e planejava escondê-lo de Woodes Rogers. Verdade seja dita, porém, o plano dele era tão falho quanto o plano de Silver, pois a fórmula correta é provavelmente entre os dois extremos. Esconder ou entregar todas as pérolas ao governador não parecia algo factível, pois dependia fortemente da mais completa honestidade de intenções de Rogers, um homem que, sabemos muito bem, não merece essa confiança toda e já provou do que é capaz ao unir-se à frota espanhola em Havana para destruir Nassau.

A tensão é crescente ao longo de todo o episódio, especialmente na perseguição de Silver, Israel Hands e outros cinco homens a Flint. São diversos embates seguidos, alguns mais rápidos, outros mais demorados (um deles com direito a uma katana!), culminando na espetacular sequência em que, depois de derrotar Hands com surpreendente eficiência, Flint tenta mais uma vez convencer Silver de que ele está certo, somente para ver o amigo desistir dessa amizade e partir para o ataque.

Mas reparem como os flashbacks são importantes para já nos dar o resultado dessa luta sem que precisássemos efetivamente ver seu final. Em todo o treinamento de Silver, o máximo que ele conseguiu foi evitar o golpe fatal de Flint. Assim, em circunstância alguma o astucioso pirata ganharia um duelo com o temido capitão e ele sabia disso, seguindo adiante mesmo assim. No entanto, usei mais acima a palavra “amizade” e temos a prova final dela, por parte de Flint, quando ele mata o coitado do Dooley para salvar Silver. Certamente alguém poderia argumentar que Flint assim agiu por precisar de Silver, mas tenho para mim que há algo mais ali, uma genuína amizade, uma verdadeira parceria que quase cai totalmente por terra, sendo salva (ao menos parcialmente e pelo momento) pela atitude traiçoeira de Rogers em chacinar os piratas a sangue frio.

As únicas duas sequências não relacionadas diretamente com o conflito entre Flint e Silver são protagonizadas por Rogers e Rackham. No caso de Rogers, seu espetacular diálogo com Madi, tendo o fantasma desfocado de Eleanor como uma enervante participante, com direito ao “tic, tic, tic” das agulhas de tricô, foi como ver um homem ser empurrado para a beirada do abismo. Tendo que encarar uma Madi fria e direta que deixa às escâncaras sua culpa pelas mortes de sua amada e de seu filho nascituro, Rogers quebra completamente e precipita a ação impensada que muito claramente levará à vingança do quarteto de piratas remanescente, sendo que três deles os mais duros ossos de roer da série toda (ok, juntamente com Vane e Teach).

A sequência com Jack Rackham foi de certa forma poética e profética. Sendo guiado por um pirata da velha guarda até a Ilha do Esqueleto, os dois conversam e o idoso ex-bucaneiro vê em Rackham o futuro de uma “profissão” que ele sabe está morrendo. De certa forma, o que vemos, aqui, ecoa e espelha o outro fenomenal diálogo que Rackham tem com a jovem aristocrata no episódio XXXV. Se os piratas são lendas em sua própria época, Rackham e seus pares modernos conseguem ser também admirados pela geração anterior. Isso dá esperanças a Calico Jack da correção de sua missão e do que ele agora planeja para Nassau juntamente com a Sra. Guthrie, Max e Anne, que coletivamente parecem representar o futuro da pirataria. Aliás, falando nas três mulheres, considerando que grande parte da narrativa do episódio anterior caiu em seus respectivos colos, foi uma escolha acertada do roteiro deixá-las de fora deste episódio que precisava de foco para que permitisse a construção da tensão entre Flint e Silver.

Estamos muito perto do fim. Só há quatro piratas vivos se considerarmos que Rackham ou não chegará ou demorará a ancorar na Ilha do Tesouro. Todo o desenvolvimento de personagens já chegou ao seu ponto mais alto e, agora, só resta o conflito final com a Coroa Britânica, que promete ser brutal e extremamente satisfatório (para nós, pelo menos), encaixando-se como uma luva na obra imortal de Stevenson.

Black Sails – 4X09: XXXVII (EUA, 26 de março de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Steve Boyum
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Dan Shotz
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin, Harriet Walter
Duração: 56 min. aprox.

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17 comentários

André Mozzer 19 de junho de 2017 - 08:47

Está faltando coragem de ver o ultimo episódio putsss

Uma dúvida, é sério que fica tudo amarrado no ultimo episódio? Está dando a impressão que tem história aí pra mais uma temporada, ou já isso já seria o livro.

E quanto ao livro, como um indisciplinado na leitura, não li, mas fiz uma pesquisa para compra-lo e tem diversas edições, qual é a correta Ritter?

Responder
planocritico 19 de junho de 2017 - 15:07

@andrmozzer:disqus , vai tranquilo para o último episódio. Só vou dizer isso.

E LEIA O LIVRO! É infanto-juvenil, pelo que não há nem de longe o nível de violência da série, mas é uma leitura fantástica, imperdível mesmo e você verá que o livro se encaixa muito bem com o final da série, ainda que algumas considerações tenham que ser feitas (mas que só posso fazer depois que você ver e ler tudo).

Sobre as edições, essa daqui é a que eu tenho e posso dizer que é a completa e com uma boa tradução (eu li a versão original em inglês também, o que aconselho você fazer, se dominar o inglês): https://www.amazon.com.br/Ilha-Do-Tesouro-Cole%C3%A7%C3%A3o-Pocket/dp/8525411329/ref=sr_1_2?s=books&ie=UTF8&qid=1497891960&sr=1-2&keywords=a+ilha+do+tesouro

Abs,
Ritter.

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André Mozzer 19 de junho de 2017 - 16:05

Sensacional Ritter, livro comprado!! E sobre o ultimo episódio não passa de hoje.

Muito Obrigado!!

Responder
planocritico 19 de junho de 2017 - 18:18

Boa final de série e boa leitura! Depois vá lá nas críticas comentar (temos do livro também!).

Abs,
Ritter.

Responder
Lenin Pessoto 29 de março de 2017 - 20:15

Não vou dizer muita coisa, foi mais um excelente episódio.
Tenho apenas duas ressalvas:
-Pra um quase series finale, eu esperava um ritmo mais acelerado a partir da segunda metade do episódio, terminando com um baque enorme p/ o último, quando a série na verdade manteve o ritmo lento (apesar de com qualidade) o tempo todo, só acelerando nas cenas de luta (e que cenas! Aposto q não era o único que simpatizava com o pirata chinês [?] mesmo sem ele não ter relevância na série).
-A queima do barco. Posso não ter prestado total atenção, mas o que exatamente aconteceu??? O barco apenas começou a pegar fogo ou a essa altura Rogers já tinha começado a atacar? Pareceu-me mais uma conveniência de roteiro.

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planocritico 29 de março de 2017 - 21:26

@leninpessoto:disqus , no caso do Walrus, os soldados britânicos foram boiando até lá usando a névoa como cobertura e colocaram fogo no navio por fora. Depois, vieram os escaleres com os soldado para matar os piratas que se jogaram na água.

Abs,
Ritter.

Responder
az 29 de março de 2017 - 18:50

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER

Excepto Calico Jack, todas as personagens do livro e reais, ainda vivas, supostamente sobrevivem a isto, morrendo de causas naturais anos mais tarde.
Mas não quer dizer que a série termine assim…

Responder
planocritico 29 de março de 2017 - 19:26

@disqus_I7fEFrDAqP:disqus , tomei a liberdade de incluir um aviso bem grande de spoiler em seu comentário para quem não tiver lido o livro.

Abs,
Ritter.

Responder
az 30 de março de 2017 - 07:45

Desculpe, também pensei nisso, mas não dei importância.
Ok, tudo bem 🙂

Responder
Junito 29 de março de 2017 - 13:37

Instalei ontem Assassin’s Creed IV Black Flag de novo so pra ficar no mundo dos piratas e me sentir o Flint, ja que a serie ta acabando.

Responder
planocritico 29 de março de 2017 - 13:38

Putz, que boa ideia! Essa série fará falta mesmo!

Abs e uma garrafa de rum para você!
– Ritter.

Responder
Junito Hartley 29 de março de 2017 - 10:23

Rapaz nao lembro de nenhuma serie que li aqui ter em media por episodio 5 estrelas. O episodio foi tenso, ainda mais por assisti sabendo que so tem mais um episodio e depois nunca mais, triste! Gostei que aparentemente o Flint e o Silver nao vao ficar inimigos, apesar que pelo livro eles sao. So nos resta aguardar esse ultimo episodio e que ele feche com chave de ouro essa maravilhosa serie.

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planocritico 29 de março de 2017 - 13:14

@Junito_Silva:disqus , essa série tem realmente merecido as notas altas. Ela é consistentemente espetacular. Estou muito ansioso pelo último episódio!

Abs,
Ritter.

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Cesar 29 de março de 2017 - 09:34

Se eu conseguisse, eu leria nessa semana que resta “A ilha do Tesouro” só pra ver o que rola no inicio, pra eu ver se vai bater com o final da série!
hahahhhahaha
Alguém sabe aí pra dizer?
Flint pode ter errado MUITO durante a série, mas não consigo torcer por um final que não seja o melhor possível pra ele e pro Silver, são personagens sensacionais, com todas nuances possíveis do ser humano.

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planocritico 29 de março de 2017 - 13:16

@disqus_8wUsGlXIKs:disqus , vale ler sim. Está batendo direitinho até agora. Claro que a pegada da série é bem mais pesada e violenta do que no livro e há muito mais profundidade no passado dos personagens, mas o encaixe vai ser muito próximo do perfeito, se tudo continuar assim.

Sobre torcer por Flint e Silver, isso é inevitável. São dois personagens fantásticos e toda a série é feita para mostra que eles sim, são pessoas complicadas, cada um com seu lado sombrio, mas que eles tem honra e objetivos nobres.

Abs,
Ritter.

Responder
Márcio Xavier 28 de março de 2017 - 16:46

Finalmente consegui assistir um episódio de BS antes da crítica ser postada.
Cara, que episódio tenso. Somos levados de um lado para o outro, acreditando algumas vezes que Silver vai desistir, outras vezes que alguém vai aparecer e avisar pra eles da mudança de planos do governador e em várias que um deles vai mesmo matar o outro. E esse temor é fortalecido após as cenas da construção do bromance cuticuti perna de pau entre os dois.

* os responsáveis pelas coreografias de luta deviam dar uma consultoria em Punho de aço.
* E a Madi? E a Bonny?
* E o Billy se prova realmente um fdp traíra. Perdi as esperanças nele. Aguardando uma morte parecida com a da Águia de Sangue de Vikings pra ele. E com direito aos dois corvos de Odin comendo suas vísceras enquanto vivo..

Responder
planocritico 28 de março de 2017 - 17:01

@mrcioxavier:disqus , cara, foi um episódio tenso mesmo e muito bem construído justamente por ter esse “bromance cuticuti perna de pau” como você bem coloca.

Sobre seus comentários extras:

1. Concordo. Aliás, praticamente qualquer série tem coreografia melhor que Punho de Ferro…

2. A Madi está lá no navio do governador e basicamente deu um tapa na cara dele com aquelas palavras ferinas… Já a Bonny, bem, ela está lá na Filadélfia com a Max. Acho que ela volta para a Nassau ainda!

3. É, o Billy Bones realmente não é flor que se cheire… Sobre o destino dele, bem, falta só mais um episódio para descobrirmos!

Abs,
Ritter.

Responder

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