Crítica | Black Sheep (2018)

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2019.

No final de 2000, o assassinato do jovem nigeriano Damiola Taylor, de apenas 10 anos, chocou o Reino Unido e foi alvo de um escrutínio constante da imprensa, que acompanhou as investigações, a acusação e subsequente absolvição de quatro outros jovens e, mais tarde, a condenação de dois irmãos pelo crime. A morte, que aconteceu em Peckham, um distrito ao sudeste de Londres, porém, afetou mais do que a vítima, seus pais e amigos. A tragédia reverberou, também, na vida de Cornelius Walker, que sequer conhecia o jovem brutalmente esfaqueado.

Filho de nigerianos e morando em Peckham quando Damiola foi morto, Cornelius poderia facilmente ter sido a vítima do assassinato. Essa constatação levou sua mãe a ficar inquieta e a procurar outro lugar para eles morarem. Damiola era uma realidade próxima demais deles para que fosse possível ficar confortável em Peckham. Com isso, alguns meses depois da morte de Damiola, a família Walker mudou-se para Essex, condado ao sul da Inglaterra, onde Cornelius certamente estaria a salvo. Mas a verdadeira história de horror começaria desse ponto.

Usando o testemunho filmado do próprio Cornelius 15 anos depois do ocorrido e competentes reconstituições de momentos-chave da vida do jovem em Essex, com o ator Kai Francis Lewis encarnado Cornelius, o curta-metragem de menos de 30 minutos começa a pinta um quadro digno de figurar em uma versão de Corra!, com o então garoto percebendo que o bairro para onde fora levado para a mãe era dominado por brancos abertamente racistas. E só lembrando: estamos falando dos anos 2000, não de 1960…

Mas, muito sinceramente, até aí não há grande novidade, não é mesmo? Ed Perkins, o diretor da obra, não tem pressa em desvelar o ponto nodal da questão, deixando o Cornelius já adulto e claramente traumatizado, lentamente relembrar os detalhes de sua vida em Essex. Para quem tiver interesse em assistir o documentário sem saber do que exatamente se trata, sugiro parar a leitura por aqui, pois o que segue pode ser visto como spoiler.

Vamos então continuar?

Pois bem, a tragédia anunciada pela estrutura do filme de Perkins não é necessariamente a física no sentido clássico. Sim, Cornelius sofreu o bullying físico de jovens racistas, mas sua resposta, sua reação de defesa à terrível situação ao seu redor foi permitir sua “assimilação”. Cornelius, portanto, passou a fazer de tudo para parecer física e intelectualmente um branco de maneira que a gangue branca local o aceitasse nem que fosse como uma espécie de animal de estimação, uma “curiosidade” ou uma “benevolência” deles.

E, quando digo “fazer de tudo”, isso inclui esbranquiçar a cor de sua pele, usar lentes de contato azuis e emular o sotaque e as roupas usadas pelos demais jovens do bairro. Ah, e como esquecer das atitudes violentas da gangue perpetradas também por Cornelius?

A combinação dos relatos recentes da própria vítima – agora já com sua aparência original – e as reconstituições dos eventos resulta em um curta doloroso de se ver. Doloroso por constatar que esse é apenas um exemplo dos efeitos nefastos do racismo. Sim, é uma história aparentemente inusitada, mas ela reflete um ambiente tóxico, nocivo e inacreditável, mesmo que documentários que denunciam o racismo não faltem por aí.

O curta, porém, foca quase que exclusivamente nessa “assimilação” de Cornelius, mesmo que o rapaz acabe abordando também conflitos familiares, notadamente com seu pai. Mas o diretor, em sua escolha narrativa, aparentemente decidiu quase que completamente emudecer esse lado da história, emprestando uma sensação de que faltou algo no documentário. Não que a situação que é o foco fosse mudar ou tornar-se menos pungente se a narrativa envolvendo o que parece ser a violência pelo menos verbal – mas provavelmente física – do pai de Cornelius fosse  introduzida na história, mas, como a questão é mencionada e, depois, “esquecida”, fica a sensação de um buraco, de um vazio para que seja possível realmente compreender o escopo do drama do jovem.

Da mesma maneira, as consequências do que ele fez há 15 anos ficam para a imaginação do espectador, notadamente como Cornelius acabou desvencilhando-se dessa prisão a céu aberto em Essex, como ele voltou a ser Cornelius. Novamente, compreendo perfeitamente o foco do curta, mas a sensação que ele nos deixa é de que faltou pelo menos alguns poucos minutos para amarrar e fechar a história, para trazê-la ao presente.

No entanto, independente de qualquer coisa, Black Sheep é, talvez justamente por sua aparentemente simplicidade, uma obra forte, daquelas que marcam o espectador. Abrir mão conscientemente de sua identidade étnica para reunir-se àqueles que te odeiam exige algum tipo de força de vontade sobre-humana, um instinto de sobrevivência que ninguém deveria ter que usar.

Direção: Ed Perkins
Com: Cornelius Walker, Kai Francis Lewis
Duração: 26 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.