Crítica | Black Summer – 1ª Temporada

Em apenas oito curtíssimos episódios, Black Summer me levou de um “ah não, haja paciência, mais uma série de zumbi!” com direito a olhos revirados para um “eita, não esperava mesmo ver o que vi” com direito a olhos vidrados. Mérito de Karl Schaefer e John Hyams, o primeiro responsável por Z Nation, da qual Black Summer em tese é um prelúdio.

Digo em tese, pois o começo do apocalipse zumbi que a nova série aborda não lembra em absolutamente nada a pegada cômica e histérica que é a marca registrada da encerrada Z Nation. Não só Black Summer é séria, como ela é genuinamente fria, pesada, crua, cruel, violenta e imersiva, sem enrolação, capaz de fazer o espectador imergir na narrativa já no começo do tenso primeiro episódio, só voltando à tona no desnorteador capítulo de encerramento. De correlação uma com a outra fica o fato que o “verão negro” do título é citado em Z Nation como tendo sido realmente o marcador do começo do fim do mundo. E só. O resto é puro apocalipse zumbi de horror básico e, por isso mesmo, muito bem vindo.

Não há, na proposta de Black Summer, a sofisticação e complexidade de The Walking Dead ou uma tentativa de realmente inovar como na recente Kingdom. Muito ao contrário, o que vemos é a completa volta ao óbvio e ao clichê, mas o óbvio e o clichê feitos com maestria, com artifícios de câmera desenhados cirurgicamente para criar o máximo de tensão, fotografia azulada opressora e com uma pegada suja, que coloca a raça humana na pior das luzes possível, a do egoísmo e descaso com terceiros. A crítica social clássica romeriana encontra outra matiz aqui e foca no indivíduo que, no perigo, só pensa em si mesmo, relegando todos – absolutamente todos – a segundo plano em uma visão claramente pessimista de mundo, mas que corajosamente joga em nossa cara talvez a mais honesta caracterização do que poderia acontecer nos momentos iniciais de uma praga como essa, algo que Fear the Walking Dead tentou, mas nem de longe conseguiu alcançar.

Para fazer isso, Schaefer e Hyams, pelo menos nessa primeira temporada, sacrificaram algo muito caro em séries de TV: a caracterização dos personagens. No lugar de construir cada um com quem devemos nos importar, ele pega cada personagem no primeiro episódio e, em curtos capítulos, já os coloca em situações periclitantes com poucos diálogos, zero de exposição, mas muita expressão. Olhares e gestos dizem tudo aqui e é perfeitamente possível concluir que o que temos na série são arquétipos e não exatamente personagens: a linda e durona mulher branca, o negro de passado misterioso, mas coração de ouro, a estrangeira que não fala uma palavra de inglês, mas consegue se comunicar melhor do que todo mundo, o solitário bobalhão que milagrosamente consegue viver mais do que 10 segundos nesse cenário, o latino trabalhador honrado e assim por diante. Nomes não são importantes, mas sim como cada um lida com as situações que são colocadas a frente deles e é por aí, organicamente, que aprendemos sobre quem eles são.

Sem dúvida que, a longo prazo, essa escolha narrativa não se sustentará, mas quem é que quer uma série de zumbi interminável não é mesmo? O importante é ela funcionar organicamente dentro de sua proposta e Black Summer definitivamente funciona. E, se a caracterização é defenestrada logo de cara, o mesmo é feito com a estrutura de narrativa una. Se pararmos para pensar em retrospecto ao final da temporada, cada episódio conta uma história com começo, meio e fim. Sim, há a costura entre eles levando a um conjunto harmônico, mas é perfeitamente possível embarcar na história escolhendo qualquer episódio para começar. Os arquétipos de personagens refletem nos arquétipos de gêneros utilizados para os capítulos: há o episódio de apresentação de personagens, depois o road movie estilo Mad Max, depois o do personagem solitário, depois o pseudo-Colheita Maldita, depois o do grupo preso no restaurante, depois o do roubo e assim por diante. Há material para todos os gostos e sem que se faça concessões do tipo “personagem principal que não vai morrer”. E, quando eles morrem, as mortes não são bonitas, românticas, idealizadas ou precedidas de discursos. Eles só morrem. Horrivelmente às vezes, outras quase off camera.

E, por se tratar de uma abordagem de início de apocalipse zumbi, há pujança de tudo: comida, carros que funcionam, combustível, lugares para se esconder e assim por diante. Portanto, é, só por aí, algo diferente do que nos acostumamos a ver nesse tipo de obra, além de funcionar para uma vasta economia em maquiagem e efeitos especiais. Em Black Summer, os zumbis são humanos com sangue falso no rosto e lente de contato esbranquiçada correndo como loucos à la Madrugada dos Mortos. Convenhamos que, se eu tiver que escolher entre quilos de maquiagem espetacular e uma história boa e bem filmada, ficarei com o segundo sempre. E Black Summer entrega do segundo em quantidades surpreendentes.

Estava preparado para reclamar da repetição temática da nova série e de sua mais absoluta desnecessidade. Afinal, há uma infinidade de desmortos televisivos por aí (e nem estou falando do Faustão ou do Sílvio Santos!) para os mais variados gostos possíveis, de zumbi chique de uma multimilionária história fantástica em terra fictícia, passando por desmortas psíquicas e chegando em moradoras do subúrbio americano, além dos que já mencionei mais acima. Nesse cenário, Black Summer não era “necessária”, mas a série se impõe e se torna mais do que digna de ganhar um espaço de destaque dentre os diversos comedores de carne humana que invadiram as telinhas.

Black Summer – 1ª Temporada (Idem, Canada/EUA – 11 de abril de 2019)
Criação: Karl Schaefer, John Hyams
Direção: John Hyams, Abram Cox
Roteiro: Karl Schaefer, John Hyams, Abram Cox, Daniel Schaefer
Elenco: Jaime King, Justin Chu Cary, Kelsey Flower, Gwynyth Walsh, Christine Lee, Mustafa Alabssi, Erika Hau, Sal Velez, Jr., Edsson Morales, Aidan Fink, Kash Hill, Nyren B. Evelyn
Duração: 280 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.