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Crítica | Blaze, de Stephen King

por Rafael Lima
247 views (a partir de agosto de 2020)

Durante o fim dos 1970, e o começo dos anos 1980, Stephen King publicou uma série de romances sob o pseudônimo de Richard Bachman. Parte do objetivo do autor ao fazer isso era se por à prova como escritor, descobrindo se as pessoas ainda gostariam de suas histórias sem a marca “Stephen King”. Além disso, em sua maioria, os romances de Bachman foram escritos antes de o autor ter se tornado a força cultural que é hoje, antecedendo obras que o estabeleceram como o “mestre do terror”, como A Hora do Vampiro, e O Iluminado. Embora tenha sido publicado somente em 2007 (sem nunca ter ganhado tradução no Brasil até agora, 2019), Blaze foi escrito na década de 1970, e traz traços do escritor jovem e raivoso que King foi um dia, embora também já o aproxime mais do estilo que o consagraria.

A história acompanha Clayton Blaisdell Jr, ou como também é conhecido, Blaze, um bandido pé de chinelo de mais de dois metros de altura que sofre de deficiência mental devido a ferimentos infligidos por seu próprio pai durante a infância. Definhando de solidão em uma cabana no frio inverno do Maine, Blaze decide dar um “último golpe” e por em prática o plano de seu falecido parceiro de vigarices, George, de sequestrar o bebê de uma rica família da região. Mesmo contra os conselhos de “George”, a voz em sua cabeça que assume a persona do parceiro morto, Blaze sequestra a criança e passa a ser implacavelmente caçado pelo FBI. Ao mesmo tempo em que vai ficando cada vez mais afeiçoado ao Bebê em sua cabana, o bandido vai relembrando sua vida desde sua sofrida infância com o pai abusivo, até a situação em que se encontra.

Blaze é um dos romances mais intimistas de Stephen King que li até então. A obra é fortemente carregada pela nostalgia e pela sensação de companheirismo entre os personagens, lembrando as noveletas que deram origens a clássicos do cinema, como Um Sonho de Liberdade e Conta Comigo. Sendo muito mais uma história de personagem do que propriamente de narrativa, Blaze apresenta um protagonista interessante e moralmente ambíguo na figura do personagem-título. Em muitos aspectos, Blaze tem a pureza de uma criança e claramente não tem a inteligência necessária para executar o crime que está cometendo, já que em um trecho tragicômico, chega a dar o seu nome ao fazer uma ligação a cobrar para pedir o resgate do bebê que sequestrou.

 Entretanto, apesar de humanizar fortemente a figura de seu protagonista, King não nos deixa esquecer que Blaze pode ser um homem extremamente perigoso, mesmo que não seja malicioso. O personagem praticamente não tem noção de sua força descomunal e, quando age com violência, é mais por um medo quase infantil do que por qualquer outra coisa. O leitor também vai ter pensamentos conflitantes em relação ao protagonista devido à sua afetada bússola moral, já que Blaze chega muitas vezes bem perto da crueldade impensável, à medida em que a voz de “George” vai ficando mais forte e maliciosa na cabeça do sequestrador, ora funcionando como Superego, ora como Id.

Entretanto, a história central do sequestro e da caçada policial nunca consegue encontrar um bom ritmo, sendo arrastada demais em alguns momentos e corrida demais em outros. São nos flashbacks que Blaze encontra os seus melhores momentos, adotando uma atmosfera nostálgica que o autor sempre dominou muito bem, sendo este romance provavelmente uma de suas primeiras experiências com o estilo. Estes trechos mostram a vida de Blaze quando menino, primeiramente com o pai, depois em um abrigo para menores, onde ainda na infância encontra o seu melhor amigo John, passando pela primeira paixão platônica, adolescência e por fim, suas primeiras investidas no crime ao lado de George. Esses flashbacks são carregados de uma forte sensação de nostalgia e melancolia, pois apesar de trazerem momentos de alegria e esperança, também trazem a vida constantemente tirando de Blaze as oportunidades que ele poderia ter tido para não chegar ao ponto desesperador em que o encontramos no presente. O desfecho da obra, um ponto que nunca foi o forte da escrita de King, acaba sendo um pouco falho pela forma abrupta com que o autor o coloca, denunciando certa pressa do romancista em fechar a narrativa.

 Blaze é um drama com toques policiais que passa bem longe das histórias de horror que King está mais acostumado a nos contar. Embora o autor tenha revisado fortemente o material que escreveu nos anos 1970, percebe na prosa um escritor que ainda tentava achar a sua voz, mas que aqui já está muito mais próximo do King consagrado do que nos livros iniciais de Richard Bachman. O romance apresenta um protagonista interessante, que por fora é um assustador homem de mais dois metros de altura que poderia esmagar a cabeça de alguém com as mãos, mas que possui a inteligência e o coração (para o bem e para o mal) de uma criança de dez anos. Com bons momentos de suspense no presente e de drama juvenil nos flashbacks, Blaze vale a conferida por ser uma leitura rápida, embora sofra de certa falta de ritmo nos trechos situados no presente e possua um desfecho por demais abrupto.

Blaze (Estados Unidos, 2007)
Autor: Stephen King (Sob o pseudônimo de Richard Bachman)
Editora: Scribner
Páginas: 304.

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7 comentários

Garage Sale 29 de junho de 2019 - 02:41

Gostei e me diverti muito com sua auto biografia!!

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Maurilei Teodoro 28 de junho de 2019 - 12:27

Esse livro do King ainda não li. Já está na minha lista de leituras!

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Rafael Lima 28 de junho de 2019 - 20:13

Vale a pena dar uma lida. Ainda que não esteja entre os melhores trabalhos do King, o tom intimista e nostálgico do livro é contagiante.

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Maria Caroline Lima 28 de junho de 2019 - 09:45

Desfecho realmente não é o forte do Stephen King, mas continua valendo a pena. Ótima resenha! Estou tentando ler todos dele e fiquei bem feliz quando o Blazer chegou aqui. Dos livros do Richard Bachman, o melhor até agora é o Fúria, pena que é difícil de encontrar É excelente e dá pra ver muito do futuro escritor que o King se tornaria

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Rafael Lima 28 de junho de 2019 - 20:22

“Fúria” eu não cheguei a ler. O interessante dos livros de Bachman (em sua maioria) é que mostra um King mais “raivoso”, digamos assim, e bem mais niilista do que o estilo que consagrou o autor (embora com uma prosa levemente mais imatura, na minha opinião, o que é normal, já que foram seus primeiros trabalhos).

Como disse na resenha, no caso de “Blaze”, senti muitas características da obra do King que ele trataria de forma mais completa em obras futuras, funcionando como uma espécie de transição do King desses romances iniciais com a obra mais consagrada do autor.

Obrigado pela leitura, e pelo comentário, Maria Caroline.

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Pedro, o Homem Sem Medo 9 de julho de 2019 - 18:35

Se quiser um bom final do King, eu recomendo O Cemitério e Revival.

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Rafael Lima 19 de julho de 2019 - 13:58

“Revival” eu ainda não lí. Mas o final de “O Cemitério” é cruel pra caramba mesmo (no bom sentido).

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