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Crítica | Blaze, de Stephen King

por Rafael Lima
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Durante o fim dos 1970, e o começo dos anos 1980, Stephen King publicou uma série de romances sob o pseudônimo de Richard Bachman. Parte do objetivo do autor ao fazer isso era se por à prova como escritor, descobrindo se as pessoas ainda gostariam de suas histórias sem a marca “Stephen King”. Além disso, em sua maioria, os romances de Bachman foram escritos antes de o autor ter se tornado a força cultural que é hoje, antecedendo obras que o estabeleceram como o “mestre do terror”, como A Hora do Vampiro, e O Iluminado. Embora tenha sido publicado somente em 2007 (sem nunca ter ganhado tradução no Brasil até agora, 2019), Blaze foi escrito na década de 1970, e traz traços do escritor jovem e raivoso que King foi um dia, embora também já o aproxime mais do estilo que o consagraria.

A história acompanha Clayton Blaisdell Jr, ou como também é conhecido, Blaze, um bandido pé de chinelo de mais de dois metros de altura que sofre de deficiência mental devido a ferimentos infligidos por seu próprio pai durante a infância. Definhando de solidão em uma cabana no frio inverno do Maine, Blaze decide dar um “último golpe” e por em prática o plano de seu falecido parceiro de vigarices, George, de sequestrar o bebê de uma rica família da região. Mesmo contra os conselhos de “George”, a voz em sua cabeça que assume a persona do parceiro morto, Blaze sequestra a criança e passa a ser implacavelmente caçado pelo FBI. Ao mesmo tempo em que vai ficando cada vez mais afeiçoado ao Bebê em sua cabana, o bandido vai relembrando sua vida desde sua sofrida infância com o pai abusivo, até a situação em que se encontra.

Blaze é um dos romances mais intimistas de Stephen King que li até então. A obra é fortemente carregada pela nostalgia e pela sensação de companheirismo entre os personagens, lembrando as noveletas que deram origens a clássicos do cinema, como Um Sonho de Liberdade e Conta Comigo. Sendo muito mais uma história de personagem do que propriamente de narrativa, Blaze apresenta um protagonista interessante e moralmente ambíguo na figura do personagem-título. Em muitos aspectos, Blaze tem a pureza de uma criança e claramente não tem a inteligência necessária para executar o crime que está cometendo, já que em um trecho tragicômico, chega a dar o seu nome ao fazer uma ligação a cobrar para pedir o resgate do bebê que sequestrou.

 Entretanto, apesar de humanizar fortemente a figura de seu protagonista, King não nos deixa esquecer que Blaze pode ser um homem extremamente perigoso, mesmo que não seja malicioso. O personagem praticamente não tem noção de sua força descomunal e, quando age com violência, é mais por um medo quase infantil do que por qualquer outra coisa. O leitor também vai ter pensamentos conflitantes em relação ao protagonista devido à sua afetada bússola moral, já que Blaze chega muitas vezes bem perto da crueldade impensável, à medida em que a voz de “George” vai ficando mais forte e maliciosa na cabeça do sequestrador, ora funcionando como Superego, ora como Id.

Entretanto, a história central do sequestro e da caçada policial nunca consegue encontrar um bom ritmo, sendo arrastada demais em alguns momentos e corrida demais em outros. São nos flashbacks que Blaze encontra os seus melhores momentos, adotando uma atmosfera nostálgica que o autor sempre dominou muito bem, sendo este romance provavelmente uma de suas primeiras experiências com o estilo. Estes trechos mostram a vida de Blaze quando menino, primeiramente com o pai, depois em um abrigo para menores, onde ainda na infância encontra o seu melhor amigo John, passando pela primeira paixão platônica, adolescência e por fim, suas primeiras investidas no crime ao lado de George. Esses flashbacks são carregados de uma forte sensação de nostalgia e melancolia, pois apesar de trazerem momentos de alegria e esperança, também trazem a vida constantemente tirando de Blaze as oportunidades que ele poderia ter tido para não chegar ao ponto desesperador em que o encontramos no presente. O desfecho da obra, um ponto que nunca foi o forte da escrita de King, acaba sendo um pouco falho pela forma abrupta com que o autor o coloca, denunciando certa pressa do romancista em fechar a narrativa.

 Blaze é um drama com toques policiais que passa bem longe das histórias de horror que King está mais acostumado a nos contar. Embora o autor tenha revisado fortemente o material que escreveu nos anos 1970, percebe na prosa um escritor que ainda tentava achar a sua voz, mas que aqui já está muito mais próximo do King consagrado do que nos livros iniciais de Richard Bachman. O romance apresenta um protagonista interessante, que por fora é um assustador homem de mais dois metros de altura que poderia esmagar a cabeça de alguém com as mãos, mas que possui a inteligência e o coração (para o bem e para o mal) de uma criança de dez anos. Com bons momentos de suspense no presente e de drama juvenil nos flashbacks, Blaze vale a conferida por ser uma leitura rápida, embora sofra de certa falta de ritmo nos trechos situados no presente e possua um desfecho por demais abrupto.

Blaze (Estados Unidos, 2007)
Autor: Stephen King (Sob o pseudônimo de Richard Bachman)
Editora: Scribner
Páginas: 304.

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