Crítica | Blueberry: Forte Navajo (1963)

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Jean Giraud ainda ia completar 18 anos e nem tinha adotado o pseudônimo Moebius quando começou o seu trabalho temporário na revista Far West, onde ficou responsável por um projeto que claramente mostrou o seu amor pelos westerns americanos e que também serviria de raiz para a criação de Blueberry, sete anos depois. Essas tirinhas cômicas chamadas Frank et Jérémie, provaram o talento do jovem desenhista. Após um breve trabalho com Jijé em uma história também de faroeste para o título Jerry Spring, na revista Spirou, Giraud estava marcado como uma revelação da banda desenhada franco-belga e teria o seu primeiro grande marco internacional após a criação da revista Pilote, em 1959, espaço onde o artista, ao lado Jean-Michel Charlier (roteiros) criou o Tenente Blueberry. Era o ano de 1963.

Em Forte Navajo, aventura de estreia do título, Giraud e Charlier trouxeram o clima de filmes ambientados na Guerra dos Apaches ou sobre o grande líder Cochise, chefe da tribo dos Chiricahua. Na HQ, a trama se passa logo após o final da Guerra Civil Americana (1861 – 1865) e em um momento de paz dos Apaches com o governo americano. Historicamente falando há uma pequena mudança no desencadear dos fatos para tornar os acontecimentos mais impactantes em termos de roteiro, todavia, mesmo com essas alterações, o nível de similaridade com os fatos reais é impressionante.

Algumas fontes históricas apontam para o fato de que Cochise na verdade não estava em paz com os americanos. Ele apenas havia interrompido a caçada e os ataques aos “casacos-azuis”, mas não fizera isso por real empenho de paz e sim por conveniência. Há também relatos de que ele organizou alguns roubos de alimentos em um dos Fortes afastados, o que deixava os militares ainda mais irritados (especialmente os racistas, que usavam desses roubos para defender o extermínio a qualquer aldeia de nativos que encontrassem), criando um forte desejo de vingança. Charlier, porém, joga com a carta do fim das animosidades e, novamente, esta é uma mudança feita em benefício da história, que consegue mais rapidamente a receita para a formação do time dos mocinhos e dos vilões.

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Primeira página de Forte Navajo, a estreia de Blueberry nos quadrinhos. Série originalmente era publicada em preto e branco.

Levando isso em conta, é bom pensar que embora houvesse uma espécie de trégua com os americanos (ao menos no território do Arizona), os Apaches não eram um povo homogênico e, como todo em toda organização política e social, sempre existem discordâncias, desvios de comportamento e desobediência às lideranças — algo bastante infame em uma sociedade tribal — que é basicamente o “Lado B” da história que está sendo contada aqui. Os verdadeiros culpados aqui são um braço dos Chiricahuas provenientes do México, que atacam um rancho de um americano, mataram os moradores locais e sequestraram seu filho (e esta é uma história real, que aconteceu com John Ward. Seu rancho se localizava em em Sonoita Creek, Santa Cruz, Arizona), plantando pistas que levassem o Exército aos Apaches.

Notem que mesmo diante das já citadas mudanças histórias — inclusive no apontamento de que a Guerra Civil tinha acabado há pouco, quando na verdade o evento no qual esta história é baseada (o caso do Tenente George Nicholas Bascom ou apenas “Bascom Affair”) aconteceu em 1861, no primeiro ano da Guerra Civil — o texto constrói com bastante competência todo o espaço onde um enfrentamento entre nativos e colonos se intensificaria, marcando uma nova fase da Guerra Apache no sudoeste do país. A arte expressiva, com uso aplaudível dos elementos para tornar o ambiente crível e com uma dedicação bem grande à movimentação dos personagens (a noção de fluidez visual é admirável em Moebius) traz lembranças de filmes que aludem a este período ou personagens, como Sangue de Heróis (1948) e Herança Sagrada (1953).

No meio dessa briga é que temos, quase despreocupadamente, a introdução de Blueberry, um Tenente do Exército, com excelente histórico durante a guerra mas com um comportamento totalmente fora do que é esperado de um militar. Logo nas primeiras páginas temos uma visão geral sobre este estranho “casaco azul”. Ele é mulherengo, beberrão e gosta de trapacear no jogo, dando uma primeira má impressão no leitor que se dissipará mais adiante, quando o senso de justiça dele vem à tona e também a sua intolerância à discriminação. O curioso é que na história não existem movimentos de desobediência direta às ordens militares e isso tira de cena as facilidades de resolução do caso. É interessante ver como Blueberry praticamente se entrega às situações e espera para ver o que vai acontecer, agindo diretamente apenas em último caso e quase sempre sob subterfúgios.

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Capa da revista Pilote #210 (31 de outubro de 1963), onde Forte Navajo começou a ser publicada.

À medida que vemos o desenvolvimento de alguns planos e mergulhamos nessa trama cada vez mais tensa, com a ameaça dos Apaches crescendo e a representação da Cavalaria Americana entre dois tipos de pessoas (os que sabiam conviver com os nativos e os racistas), percebemos que a história caminha para uma finalização perfeitamente adequada ao que o enredo vinha mostrando, um resultado épico a seu modo. Mesmo que a trama em si não tenha encerramento aqui (a história se estenderia até o segundo volume da saga, Tempestade no Oeste) Charlier e Giraud não fugiram ao título e entregaram uma grandiosa aventura dentro e fora do Forte Navajo, onde as ideias e as primeiras ações de uma guerra que poderia ter sido evitadas foram, ao contrário, iniciadas. Um estrondo de crítica política e militar. Assim começa um dos quadrinhos de faroeste mais importantes da Nona Arte.

Blueberry #1: Forte Navajo (Fort Navajo) — França, 1963
Edição original:
Revista Pilote
Edição original em álbum:
 Dargaud (a partir de 1965)
No Brasil: Série Graphic Novel #21 (Abril Jovem, 1990)
Roteiro: Jean-Michel Charlier
Arte: Jean Giraud (Moebius)
48 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.