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Crítica | Bo Burnham: Inside

por Kevin Rick
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What the fuck is going on?

– Bo Burnham (e todos nós)

Meu primeiro contato com o trabalho do comediante Bo Burnham aconteceu no Especial de Stand-up da NetflixBo Burnham: Make Happy, e eu me lembro claramente de ter ficado embasbacado com a criatividade do artista dentro do formato majoritariamente limitado. Apesar de sempre ter um grande interesse na forma de comédia ao vivo, em especial a maneira como grandes comediantes criam uma atmosfera de manipulação humorística com seu próprio estilo, timing e objeto, sempre me foi raro, extremamente raro, encontrar boas obras do gênero. E então, sem cerimônia ou expectativas, eu me deparei com esse maluco da internet que utiliza luzes, fumaças e música para inovar dentro da estrutura. Fui assistir sua mais recente obra, Bo Burnham: Inside, esperando algo semelhante, e bam!, Burnham me surpreende novamente.

A obra dirigida/roteirizada/atuada/editada/composta por Bo Burnham é uma completa definição de one-show man, onde o comediante utiliza o ambiente de ansiedade recluso resultante desta maldita Pandemia – interessante notar como ele nunca a cita explicitamente -, assim como a procura, ainda maior dado as circunstâncias, de distrações online, para criar uma peça de arte introspectiva para a nossa realidade aprisionada e aflita. Filmado no espaço de vários meses em um quarto sem graça, bagunçado e cheio de acessórios tecnológicos, nós vemos o artista desenvolvendo “seja lá o que é isso”, como ele mesmo define, através de skits, vídeos musicais, alguns momentos mais comuns de stand-up, entre outras bizarrices divertidas e, especialmente, melancólicas.

É nesse ponto de melancolia que vejo a obra não “apenas” como um especial de comédia, mas sobretudo um espelho tragicômico da maneira obsessiva que a sociedade atualmente utiliza a internet e as redes sociais, principalmente na nossa infeliz realidade de isolamento. Logo, o escapismo do meio virtual se torna ainda mais importante no contexto atual, e o próprio comediante utiliza-o para criar conteúdo, mas emprega em sua obra uma arte observacional. O fato de Burnham ter emergido da internet, mais especificamente do YouTube, é muito bem visto na propriedade e qualidade que ele tem em tirar sarro e referenciar várias – leia-se péssimas – formas de entretenimento moderno.

Eu particularmente não dei muitas gargalhadas durante a experiência, mas certamente mantive um sorriso irônico em toda a duração do sarcástico retrato (e autorretrato) que Burnham faz do consumo online. Buscando criticar a rasa e estúpida alienação virtual, o comediante traz White Woman’s Instagram, um videoclipe de electropop zombando da aparente felicidade vazia em posts de Instagram; uma vinheta debochando da trend de assistir gamers fazendo livestream – sério, as pessoas passam horas assistindo outra pessoa jogando, descrevendo sua experiência -; uma skit onde Burnham conversa com uma meia marxista sobre “como o mundo funciona” em toda a complexidade de exploração social para manutenção do capital; e até… sexting, o fundo do poço contemporâneo; dessa forma, entre vários outros exemplos do especial, Bo Burnham medita sobre o circo caótico do “Welcome to the Internet” – minha música favorita do especial – em uma performance, intencionalmente, de natureza boba/estranha para contemplar o perigo de uma ferramenta que oferece “everything, all of the time“, e especialmente como tem sido utilizada.

De divisões e mudanças do tamanho da tela, a edição rápida e fragmentada cronologicamente, experimentos maravilhosos com luz e sombras, até uma série de efeitos musicais deliciosos, Burnham construiu o perfeito experimento de TV da quarentena, onde a comédia encontra o comentário social dentro de uma elipse para uma época enlouquecedora, triste e de mudança de paradigma de nossa existência. No meio da exibição caótica, eu simplesmente adorei como o cineasta passa atestado de simplicidade nos vários jingles skits não-sutis, que casam perfeitamente com o aspecto vazio do conteúdo virtual que critica.

Por fim, vamos vendo o otimismo inicial do comediante, como também a pegada de criar algo para se distrair, irrompendo ideias complexas no quadro de direções inesperadas de uma arte, em uma das formas mais puras e cruas que já vi, sobre um diário artístico para sobreviver a estes tempos claustrofóbicos, seja de maneira saudável ou não. Acredito ser nesse ponto que Bo Burnham: Inside atinge outra nota: a da auto aversão. O comediante coloca em questionamento o papel da comédia e de si mesmo como artista neste tipo de período, não apenas como distração, mas também na sua necessidade de criar e ter atenção. Termina por ser uma obra socialmente e pessoalmente observacional, no qual Bo Burnham coloca em foco os vários extremos e conflitos que tivemos durante a pandemia, desde ansiedade, crise de consciência, tédio, medo e afins, em torno, em primeiro lugar, do escapismo em entretenimentos vazios, mas especialmente sobre autorreflexão. Não é uma obra transcendente, mas certamente é empática em toda sua sensibilidade tragicômica.

Bo Burnham: Inside | EUA, 2021
Direção: Bo Burnham
Roteiro: Bo Burnham
Com: Bo Burnham
Duração: 87 min.

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