Crítica | Bobók, de Fiódor Dostoiévski

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estrelas 3,5

Algumas informações prévias são necessárias para que o leitor de Bobók entenda o material que tem em mãos. Um ano antes deste lançamento, Dostoiévski publicara o romance Os Demônios (1872), que teve uma recepção aterradora da crítica, que negativizou a obra até onde pode e chamou, mais de uma vez, Dostoiévski de louco.

Em janeiro 1873, algo providencial aconteceu. Dostoiévski se tornou editor-chefe de um semanário de política e literatura chamado Grajdanin, para o qual criou uma seção de nome Diário de um Escritor. Foi nela que o autor publicou o conto Bobók, onde basicamente faz uma carta-resposta inflamada, cômica e muito bem estrutura sobre a crítica literária russa, que parecia cada vez mais olhar torto para Dostoiévski, especialmente após assumir a editoria do Grajdanin.

Utilizando de um recurso inteligente como a sátira menipeia, o autor mergulha profundamente na alma de seus detratores, começando a fazer ele mesmo a crítica-resposta a partir de um elemento interessante dessa sátira, que é o direcionamento às ideias ou atitudes mentais (poderíamos acrescentar também “ideologias“) e menos às pessoas, como era comum nas sátiras de Aristófanes. Embora certos comportamentos individuais venham à tona no conto, eles não possuem tanto peso quanto as ideias de grandeza, baixeza, pureza ou sujeira que os personagens possuem e sobre as quais a trama se desenrola, tudo isso por um motivo muito simples: estão todos mortos.

Há uma ácida sugestão indireta do protagonista — que é um escritor rejeitado e é quem narra a história — de que o mundo dos vivos está tão ruim que sua ideia de diversão é ir ao cemitério. Essa iniciativa vem depois de ele fazer com que o leitor conheça suas desventuras, sua rejeição diante dos editores e da forma como as pessoas o veem. A loucura que tantos críticos atribuíram a Dostoiévski aparece aqui como uma boa piada e faz referências interessantes ao estado de saúde mental de toda a humanidade. Afinal, quem define e separa loucos e sãos? É daí que surge a fonte de Machado de Assis para seu O Alienista, de 1881.

Por mais espirituosa e às vezes cômica que seja a história, a passagem do “mundo real” que vemos no início do conto e o “mundo dos mortos” que preenche todo o miolo não é a coisa mais suavemente feita por Dostoiévski e só não nos deixa tão insatisfeitos quanto o abrupto final, que tem um ar proposital de “fim da loucura“. Diante de um peso literário tão grande vindo da sátira no cemitério, essa interrupção acabou por acrescentar um amargor intencional à história e ao personagem, diminuindo assim o impacto que teria uma finalização mais compassada. Isso poderia ser conseguido pelos motivos que fazem os mortos se calarem ou pelo modo como o malfadado escritor-narrador se dirige a nós e fala de sua brilhante ideia para um novo escrito, talvez aquele que fará todos (os críticos também!) gostarem dele.

Bobók traz uma grande imagem sobre o que acontece com o homem após a morte. Ou pelo menos nos três primeiros meses após a morte. Incentivando brigas, corrompendo hierarquias e colocando todos no mesmo barco, independente de quem foi em vida, Dostoiévski brinca com a importância da humildade e da humanidade nas pessoas, olhando para um estágio onde dívidas (algo que ele conhecia tão bem!) poderiam ser pagas de várias formas, especialmente se começassem com uma chance dada ao devedor. Em Bobók, ele não fica devendo resposta a ninguém e prova que para responder a uma crítica, não é preciso adotar o mesmo tom daquele que acusa. Dá para ser muito mais destruidor… e melhor.

Bobók (Rússia, 1873)
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Paulo Bezerra
No Brasil: Editora 34
85 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.