Crítica | Body of Proof – A Série Completa

Investigações criminais não eram novidades narrativas para a televisão quando Body of Proof foi lançada em 2011. Apesar do foco mais centrado em detetives e policiais com passados conturbados, as séries sempre tiverem legistas como personagens relevantes. Os especialistas apontam que a primeira série a ter um protagonista desta profissão foi Quinck, M.G., exibida entre 1976 e 1983. O formato se fixou em 1990 com a popularidade de CSI, NCIS e os derivados Silent Witness, Bones e Crossign Jordan. No começo da segunda década dos anos 2000, mais um personagem legista ganhava as telas, desta vez, uma mulher.

Body of Proof foi uma sobrevivente no que diz respeito ao tempo de duração de uma série. Sempre interessante e relevante, poucas vezes espetacular, mas nunca sensacional, a produção visualmente caprichada tinha personagens carismáticos e esféricos, histórias intrigantes, mas a sensação de estarmos diante de uma narrativa semelhante aos demais produtos de investigação fez a jornada de Megan Hunt (Dana Delany), a protagonista do programa que teve três temporadas, algo entre o morno e o aquecido demasiadamente, nunca fervente, criado por Chris Murphey e exibido entre março de 2011 e maio de 2013.

Ao longo do drama procedural, Dra. Hunt enfrenta uma série de desafios para desenvolver o seu trabalho, além de ter que lidar com os conflitos internos e externos de sua vida pessoal. Hunt, apaixonada pelo que exerce, sempre muda o rumo das investigações, ao fornecer novos olhares para o que inicialmente se oferece como resposta na resolução de um problema, numa postura que permite ao roteiro a inserção de uma boa quantidade de pontos de virada. Inquieta e de temperamento difícil, enfrenta o primeiro caso com bastante aproximação, pois a vítima é uma metáfora da sua própria vida.

Ao leitor, cabe delinear como e por que Hunt trabalha como legista. Depois do flashfoward do parágrafo acima, vamos nos situar. A tal primeira vítima era uma mulher viciada em trabalho, tal como Megan, interesse que a fez perder o casamento, afastar-se da filha Lacey (Mary Mouser) e sofrer depois que é afastada na função de neurocirurgiã após um grave acidente automobilístico. Ela ainda tem problemas com a mãe, Joan Hunt (Joanna Cassidy) e constantemente retoma o passado e a traumática morte do pai. Uma mulher, no mínimo, bombardeada de emoções.

Assim, Hunt passa a trabalhar em laboratório, como legista, sob a supervisão da bem sucedida Dra. Kate Murphy (Jeri Ryan), mulher que vai se aproximar e distanciar constantemente de Hunt na série, haja vista o temperamento da protagonista, sempre indisposta a trabalhar em equipe.  Dra. Hunt parece não compreender a importância do trabalho que envolve um conjunto de pessoas, destinadas a desenvolver ações com foco num propósito específico. Os livros e apostilas sobre o assunto são bem claros ao afirmar que um trabalho em equipe requer que os integrantes saibam exatamente o que os outros desenvolvem, para que todas as ideias, esforços e descobertas sejam direcionados ao bem comum.

Ela é destemida, sofisticada, quase sempre arrogante, mas trabalha brilhantemente, além de ter boas intenções, características que a tornam uma personagem esférica e funcional para ajustar os problemas que gravitam em torno dos conflitos de cada episódio.  A resolução dos casos que em Body of Proof, estão intimamente ligados ao mundo do crime, isto é, estupros, envenenamento, etc. São situações que pedem o passo a passo das regras presente nas cartilhas do “trabalho em equipe”, citada anteriormente. Megan, por sua vez, não parece interessada, provavelmente por viver confusa e no estado de aceitação da nova condição imposta: não operar. É como pedir para qualquer personagem de Grey’s Anatomy parar de operar e suturar sem envolver emoções pessoais durante o exercício de suas funções.

Com total de 49 episódios, tendo em média 45 minutos de duração, Body of Proof foi produzida pela ABC Studios. Cancelada na terceira temporada, teve um desfecho organizado, apesar de apressado. Ao longo do programa, a personagem dialogou com Peter Dunlop (Nic Bishop), seu parceiro de investigação, membro da polícia; os pícaros Ethan Gross (Geoffrey Arend) e Curtis Brumfield (Windell Middlebrooks); os durões e eficientes Bud Morris (John Carroll Lynch) e Samantha Baker (Sonja Sohn); e na última temporada, um contato do passado que ainda parece ter a chama acesa para a protagonista, Tommy Sullivan (Mark Valley).

Dentre os destaques, há o ótimo episódio que mescla a discussão entre ciência e religião ao tratar de exorcismo, além de uma referência bem realizada da visita de Hunt ao criminoso que pode lhe ajudar na resolução de um caso, situação que nos remete ao eficiente O Silêncio dos Inocentes. A equipe de diretores foi extensa, mas quem mais assumiu o posto gerenciador foi Christine Moore, Nelson McCormick e Eric Laneuville, profissionais com oito, quatro e três episódios, respectivamente. A condução musical acima da média ficou por conta de Daniel Licht por 26 episódios e Trevor Morris com 13. A unidade narrativa esteve sob a supervisão da direção de fotografia de Patrick Cady ao longo dos 42 episódios, todos visualmente relevantes.

A equipe de roteiristas também não é pequena, mas quem esteve mais tempo na sala de produção dramatúrgica foi o criador Chris Murphey (39 episódios), Diane John e Matthew V. Lewis (05 episódios cada), dentre outros. Eles são os responsáveis pela criação de personagens que funcionam como super-heróis, pastiche de investigadores, policiais, legistas, quase psicólogos, etc. Ser legista, segundo os documentos oficiais, requer estudar antropologia, psicologia científica e criminologia. Ah, e usar equipamentos de proteção pessoal, objetos que os personagens muitas vezes esquecem ao longo dos episódios.

Há quem aponte também, coerentemente, que séries do tipo foram as responsáveis pelo surgimento do “Efeito CSI”: a necessidade da prova do crime para a resolução de casos na vida real, fora o interesse pelo campo graças aos seriados. Em 2000, por exemplo, havia apenas 04 alunos no curso de Ciências Forenses da Universidade da Virgínia Ocidental, número que aumentou vertiginosamente para 500 em 2006, mudança atribuída ao clima de heroísmo e sofisticação apresentado pela série, um problema de ordem social que requer outro texto para uma discussão mais ampla e muito importante, pois conforme os dados, muitos casos de tribunais encontraram problemas quando os membros dos jurados não conseguiam ver uma alternativa de resolução sem provas, algo possível de acontecer na vida real, mas que nos conflitos dramáticos geralmente sempre tem uma resolução, mesmo que pouco crível.

Ainda no que tange aos elementos do roteiro, Body of Proof é o tipo de série que dialoga com o método de abdução para construção dos episódios, algo que se relaciona ao que Umberto Eco chamou de questão básica da filosofia e da psicanálise: de quem é a culpa? Investigações científicas geralmente partem de três formas canônicas: indução, ligada aos experimentos para construção de generalizações; dedução, método que vai além do geral e abstrato para o específico e o concreto; e a abdução, método que busca a melhor/mais convincente explicação para algo ou um conjunto de coisas. O pensamento por abdução, constantemente presente nas análises da Dra. Megan Hunt, parte de uma postura detetivesca, numa observação do cotidiano além das aparências. O personagem e os espectadores ficam diante de uma narrativa em quebra-cabeça, na busca por desvendar um enigma inicial.

Por fim, mas não menos importante, ao contrário, ponto nevrálgico da análise em questão, temos a equipe de design de produção, setor assinado por Kenneth Hardy e Steven Wolff, ambos com 26 e 12 episódios, respectivamente, responsáveis por gerenciar uma equipe bem ligada nos pormenores: Ellen Totleben, Alex Leafer e Robert Scgleinig na cenografia, Gina Cranham, Jeremy Woodward e Carl Sprague na direção de arte e Susanna Puisto, Roberta Haze e Carol Ramsey nos figurinos.  Vamos começar pelos figurinos: sapatos altos, vestidos cortados com estilo medida, inspirados na moda do mais alto nível, numa forma de compor o design dos personagens, o que torna sem fundamento as críticas sobre o visual da série não corresponder ao real.

Desde quando o produto ficcional em questão se intitulou como documentário? Será que não há a possibilidade de assistir e compreender o que é metáfora? O mesmo se aplica ao espaço cênico e a direção de arte. Dizem que os legistas trabalham com cheiros esquisitos, cadáveres nem sempre frescos e limpos, ao contrário, corpos que geralmente liberam gases e líquidos estranhos. No entanto, vamos refletir: a série trabalha com liberdade criativa, estamos diante da ficção, precisamos saber lidar com as figuras de linguagem que gravitam em torno das narrativas não apenas nos diálogos e ações dos personagens, mas também nos aspectos visuais do que é assistido. Os laboratórios iluminados, com produtos de sobra para experimento, ambiente confortável. Ao menos na ficção é assim e os nossos olhos contemplativos agradecem.

Body of Proof – A Série Completa — EUA, 2011-2013
Criação: Chris Murphey
Direção: Christine Moore, Nelson McCormick, Eric Laneuville
Roteiro: Chris Murphey, Diane John, Matthew V. Lewis
Elenco: Dana Delany, Elyes Gabel, Jeri Ryan, Geoffrey Arend, Mark Valley, Windell Middlebrooks, Mary Mouser, Joanna Cassidy, Nic Bishop, John Carroll Lynch, Sonja Sohn
Duração: 50 min (cada episódio)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.