Crítica | Bolt – Supercão

“O que é esse líquido vermelho saindo da minha pata?

É chamado sangue, herói!”

O chamado ao heroísmo de um personagem que não tem super-poderes. Quem disse que poderes são necessários para se ser super? Bolt é uma animação que responde perguntas previamente respondidas sobre o arquétipo que seu personagem-título carrega. Na época de seu lançamento, o sub-gênero de super-heróis estava eufórico, preenchendo inúmeras salas de cinema. As animações, paralelamente, já contavam com o seu próprio exemplar magnífico incorporando essa temática: Os Incríveis. A comparação é inevitável, revelando os primeiros equívocos do longa-metragem sobre o cachorro que achava ter super-poderes, acreditando no personagem que interpretava em um mero seriado de televisão – no melhor estilo, obviamente, O Show de Truman. A ação inicial é extremamente inferior, assim como o universo super-heroico, embora fictício, criado, genérico por ser genérico – uma crítica ao sub-gênero, porventura. Bolt (John Travolta) e Penny (Miley Cyrus), como uma dupla dinâmica, são mais carismáticos e a trajetória do protagonista é moldada sobre a dualidade do seu interesse em retornar à casa, após ser separado de seu “lar”, ao passo das descobertas que o mundo em que residiu por anos era uma ilusão muita da sem-graça – comicamente, as piadas do filme também costumam ser.

“Nenhum outro lar é melhor que o seu, pois ele pertence a você”, canta a canção mais icônica da animação, evidenciada justamente por aparecer no meio da obra e no seu término, encerrando a resolução extremamente harmoniosa da narrativa. O número surge juntamente a uma montagem “engraçadinha”, compilando cenas bem-humoradas, enquanto Bolt e companhia – parcerias fomentadas na jornada até então, sobre a compreensão de uma inaptidão super-heroica clássica – investem-se em uma viagem pelo território norte-americano. Nem Que a Vaca Tussa e O Galinho Chicken Little também comportavam espirituosos segmentos dinâmicos, acompanhados musicalmente, ao mesmo tempo que construíam relacionamentos e mostravam uma mudança de comportamento nos seus personagens principais. O supercão está descobrindo coisas novas em um mundo, contudo, que não é sua habitação original, mas uma renovação do significado de moradia, de pertencimento. O próprio conceito de cachorro é explorado, porque o protagonista passa a ser ensinado de diversas coisas, como cavar buracos ou encarar outros animais de sua espécie. A ideia não é estapafúrdia: Mittens (Susie Essman), uma gata das ruas, embasa-se sobre camadas similares, com medo da rejeição.

A animação subverte, competentemente, a noção original do protagonista sobre ser um super-herói – as cenas com a percepção de que os seus super-poderes não existem são certeiras, assim como a interpretação de John Travolta, ingênuo. O cerne desse confronto intra-pessoal, no entanto, não possui qualquer relevância narrativa, porque, desde o início, a jornada apresentada pelo enredo engloba o reencontro do cachorro com Penny. Já a jornada discursiva não compartilha do mesmo interesse. Num piscar de olhos, o super-herói canino é transportado de Los Angeles para Nova Iorque. Bolt nunca questiona o seu reencontro à garota – ao menos, não até o filme decidir, pobremente, que está na hora dessa premissa ser repensada. As problemáticas da obra acabam por não ser muito verdadeiras, porém, forjadas indiscriminadamente no último minuto, exageradíssimo de cafona e melodramático, enquanto o protagonista corre até Penny apenas para ver a garota abraçar um outro animal, enormemente similar ao astro de televisão. Um cachorro está correndo até você, mas você não o enxerga, mesmo o bicho estando aparentemente no seu campo de visão. As imagens animadas dispostas ao espectador, contrapondo-se, são porcas em decorrência de uma mera estruturação cênica fracassada.

A mesma música citada, “Barking at the Moon”, com uma melodia graciosa para conquistar o espectador, aborda um retorno à morada que nunca é explorado, nem mesmo comentado no decorrer do longa-metragem – o enfoque é muito mais na ruptura com o universo de imaginação. A questão é transformada, portanto, em mote narrativo aleatório, enquanto o protagonista está justamente aproveitando uma vida distante desse seu lar presumido, agora estando perto de amigos verdadeiros. A aproximação com a natureza, com a vida vivida, era suposto de ser o desenvolvimento presente. Os versos cantados, dessa maneira, são completamente absurdos à proposta de conflito durante o encaminhamento à conclusão da animação: Mittens sugere a Bolt que o seu parceiro permaneça em Las Vegas, em uma casa improvisada, entretanto, o cachorro precisa retornar a sua dona, ao seu mundo que, aparentemente, é de faz de contas, mas o animal não quer acreditar nisso, como nunca quis. A condução do filme para o entendimento, por parte do espectador, de que existe uma problemática específica sendo trabalhada é péssima, quase como uma auto-sabotagem quando reiterada a inserção dessa canção. A roadtrip nem é mesmo uma realidade narrativa íntegra, contudo, um trecho momentâneo. A atmosfera, efêmera.

O clássico O Mágico de Oz também contrariava a mensagem que carregava sobre “não existir lugar como lar”, consideravelmente injustificada. A casa de Dorothy, em um caso, era um lugar em preto e branco, e, nessa situação, a casa de Bolt é uma ilusão completa. As cores eram mais desbotadas – os mundos descobertos mais reais, mais coloridos. Bolt – Supercão, enfim, é uma confusão nos termos do seu âmbito dissertativo, sobre o que está sendo passado para o espectador e, mais importante ainda, como as coisas estão sendo transmitidas. A coesão é inexistente, sufocando algumas pontuações narrativas, como o terceiro ato completo, ao espaço da não-credibilidade, ao sentimentalismo estratosfericamente manipulado, desonesto por não ter embasamento argumentativo. O relacionamento entre cachorro e criança permanece sendo relativamente bonito, a quebra com a realidade interessantíssima, mas a animação alcança o posto problemático de ser uma das produções dos estúdios Disney que mais abrange temáticas diferentes de maneira rasa, construídas sem a mínima inventividade. O pequeno roedor, portanto, pontualmente engraçado, ao menos concilia-se com Bolt nessa jornada de heroísmo às avessas, não necessariamente original, muito pelo contrário, quiçá brevemente charmosa.

Bolt – Supercão (Bolt) – EUA, 2008
Direção: Chris Williams, Byron Howard
Roteiro: Dan Fogelman, Chris Williams
Elenco: John Travolta, Miley Cyrus, Susie Essman, Mark Walton, Malcolm McDowell, James Lipton, Greg Germann, Diedrich Bader, Nick Swardson, J.P. Manoux, Dan Fogelman, Kari Wahlgren, Chloë Grace Moretz, Randy Savage
Duração: 98 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.