Crítica | Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha

Poucas narrativas literárias que demarcaram os primeiros passos da produção genuinamente brasileira trataram da homossexualidade como o romance Bom-Crioulo, escrito pelo cearense Adolfo Caminha, em 1895. Nenhuma das narrativas, no entanto, investiu da mesma maneira na carga de intensidade e num desenvolvimento dramático deliberadamente polêmico quanto à paixão dos marinheiros Amaro (emissor) e Aleixo (destinatário), envolvida numa redoma de preconceito social, vulnerabilidade de corpos e desfecho trágico.

Outro detalhe importante para começar a análise: um protagonista negro e homossexual, mesmo que tenha sido construído dentro de um mecanismo para reforçar o preconceito, demonstra a postura de Adolfo Caminha como um escritor corajoso. Em sua narrativa, o autor apresenta aos leitores a vida áspera no mar e a brutalidade das relações humanas dentro da Marinha. Em A Normalista, de 1893, o homoerotismo já havia passeado pelas páginas literárias do autor numa determinada “cena” entre Lídia e Maria do Carmo, personagens que decidem colocar em prática uma passagem de O Primo Basílio, de Eça de Queirós.

Acredita-se, também, que Adolfo Caminha tenha captado a atmosfera densa e O Barão de Lavos, romance português de 1891, publicado pelo escritor Abel Botelho. Em alguns textos críticos, Caminha alega ter lido também Um Homem Gasto, de Ferreira Leal, de 1885, produção literária considerada “menor” segundo a sua análise, temática trabalhada com mais requinte nos doze capítulos de Bom-Crioulo. O Ateneu, de Raul Pompéia, também trazia indiretamente a abordagem homoerótica. Por isso, a trajetória de Amaro e Aleixo não é inovadora, mas é a publicação com maior impacto dentro deste segmento temático. Cabe ressaltar que a obra é (quase) “contemporânea” da polêmica acerca do julgamento de Oscar Wilde pela imoralidade de O Retrato de Dorian Gray e a questão do “amor que não ousa dizer o nome”.

Em Bom-Crioulo, conhecemos Amaro, um homem negro que atua como marinheiro, mas já foi escravo durante boa parte de sua vida. Forte e imponente, ele segue o estereótipo do homem negro másculo dotado da força física e descomunal, musculoso talhado para exercer atividades braçais e ser uma máquina sexual. Apaixonado e não correspondido por Aleixo, o seu contraste, homem branco que também atua na marinha e depende da proteção de Amaro para não sofrer abusos na embarcação. Em meio ao processo de reconhecimento da força interior que o dilacera, vemos Amaro ser um dos observadores dos castigos físicos e da violência que os comandantes das Forças Armadas agem diante dos seus “serviçais”. Amaro, apaixonado e ensandecido por Aleixo, não suporta ver que seu sentimento sequer é levado em consideração, principalmente depois que o jovem branco apaixona-se por D. Carolina, uma mulher que inicia a história como amiga de Amaro, mas logo adiante, torna-se o ponto nevrálgico de sua ira.

Tomado pela sensação de rejeição e cego diante da paixão, Amaro desempenha uma espécie de “Otelo brasileiro”, agindo sem pensar nas consequências ao desferir golpes de navalha na pessoa que despertou, inicialmente, sentimentos nobres. Tal como o fatídico personagem de Shakespeare, o alvo da paixão é dizimado por um ato de violência deflagrado num momento de pouca sanidade. Diferente do amor visto numa perspectiva espiritualizada, como retratado no bojo do Romantismo, Bom-Crioulo expõe traços específicos da corrente na qual está filiado, isto é, o Naturalismo, corrente que segundo os estudos literários, “é a própria vida interpretada pela arte”. Nos romances de cunho naturalista, o corpo e sua carnalidade são postos como parte central da narrativa, numa pomposa postura descritiva com riqueza de detalhes, às vezes, caricatural e exagerada.

Ao longo de suas páginas, o narrador descreve minuciosamente os seus personagens e nos faz compreender detidamente a tarefa de cada um no desenvolvimento da ação. Amaro, personagem que traz alguns traços de Billy Budd, marinheiro semelhante de Herman Melville, é descrito como “nu da cintura pra cima, numa riquíssima exibição de músculos”. No auge dos seus trinta anos, ele é psicologicamente demarcado pela paixão e postura instintiva, animalesca, o que o leva a cometer atos inadequados de acordo com a “razão”. Seu porte é associado ao trabalho desenvolvido na marinha, mas também ao tempo de escravo, marca de um passado recente. Seu contraponto é Aleixo, tido como “belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizou em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”. Pueril e fragilizado fisicamente, o marinheiro branco dos olhos azuis é apresenta alguma evolução psicológica próxima ao final, antes da tragédia que ceifa a sua jovem vida.

A dualidade na construção dos personagens nos faz lembrar bastante de Ceci e Isabel, personagem de José de Alencar em O Guarani.  No caso de Bom-Crioulo, a dualidade está no frágil x forte, negro x branco, andrógino x másculo, dentre outros recursos de contraste. No meio dos marinheiros envolvidos na atmosfera de paixão e desejo há D. Carolina, elo lascivo da história, uma portuguesa que exerceu a prostituição durante boa parte de sua vida e sustenta a sua existência com aluguel de quartos numa residência na Rua da Misericórdia. Além da catalisadora da tragédia e dos marinheiros que recebem a iluminação principal do “espetáculo” literário de Adolfo Caminha, temos ainda o perverso castigador Agostinho; Herculano, o marinheiro melancólico; e Santana, concebido como mais um dos personagens frágeis contrapostos ao porte exorbitante de Amaro. São “tipos” que gravitam pela narrativa com suas respectivas funções para o desenvolvimento de núcleos da história.

No que concerne aos aspectos estéticos, a condução narrativa de Bom-Crioulo investe na descrição em terceira pessoa. Onisciente, o narrador é meticuloso na observação, por vezes distanciada, dos acontecimentos. Entre os fatos ocorridos no mar, durante os trabalhos exercidos pelos marinheiros em navegação, e a Rua da Misericórdia, ambos os espaços concebidos por meio de adjetivações abjetas e obscuras, o narrador usa bastante as reticências, transforma algumas passagens em momentos nebulosos e quando se dá conta de estar numa cena “proibida”, afasta-se tal como um zoom-out ou fade cinematográfico. Curioso o fato do romance ainda não ter ganhado uma tradução intersemiótica para a televisão ou cinema, haja vista a carga dramática, o potencial e a atualidade do enredo.

Bom-Crioulo ganhou traduções para diversas línguas, com capas de todo tipo. Algumas sensuais, outras bastante exóticas, outras mais discretas e sérias, enfim, leituras diversas, no que alguns estudos acadêmicos chamam de literatura gay made in Brazil, termo tão polêmico quanto o romance e alvo de opiniões contrárias. Execrado pela crítica da época, o livro só ganhou notoriedade muito tempo depois de sua publicação. Adolfo Caminha, autor que morreu jovem, aos 29 anos, vítima de tuberculose, deixou ainda dois romances inacabados, O Emigrado e Ângelo. Além de A Normalista, o autor tem O País dos Ianques como publicação pouco conhecida, mas foi com Bom-Crioulo que o cearense deixou seu nome para a posteridade.

Bom-Crioulo (Brasil, 1895)
Autor: Adolfo Caminha
Editora: Ática – Série Bom Livro
Páginas: 102.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.