Crítica | Bom Dia, Vietnã

Não é preciso ser comunicólogo para saber que o rádio é uma das mídias mais populares e expressivas da história da comunicação humana. Num mundo cada vez mais mergulhado no excesso de imagens que entregam detalhes prontos para codificação, o rádio tem a função de estimular a imaginação do ouvinte. Meio que conseguiu evoluir diante das novas tecnologias, o rádio possui uma linguagem direta, persuasiva e otimista, configurando-se como um meio acessível economicamente, permitindo, inclusive, ser um excelente alfabetizador, pois não exige formação escolar para ser compreendido.

Outro detalhe de suma importância é a presença de um apresentador carismático e magnético. Esse é o caso de Adrian Crounauer (Robbin Williams), protagonista de Bom Dia, Vietnã, dirigido por Barry Levinson, cineasta que teve como guia, o roteiro convencional de Mitch Markowitz. Lançada em 1987, a produção narra a trajetória de um radialista que é enviado ao Vietnã para assumir a programação numa emissora coordenada pelos membros do exército estadunidense.

Em Saigon, o apresentador terá que lidar com a censura ferrenha dos seus gestores, interessados em fazer o que os Estados Unidos mais gostam em épocas de crise: mascarar as celeumas e fingir que está tudo bem. Frenético, divertido e carismático, Crounauer desperta a ira do tenente Steven Hawk (Bruno Kirby), personagem que ocupa o ingrediente básico da fórmula dos antagonistas que pretendem desestabilizar o trabalho bem sucedido do “outro” lado da força.

Enquanto ninguém havia assumido o posto, Steven já tinha arriscado algumas interações sem sucesso nas transmissões. O resultado negativo vem da sua falta de habilidade com o jeito específico de se “fazer rádio”. Depois, num determinado momento de suspensão, ao assumir o posto do simpático Crounauer, expõe estranheza até mesmo para os seus superiores hierárquicos na base militar, já acostumados com o jeito despojado das transmissões e seleções musicais mais recentes.

Por vezes exagerado, mas não caricato e “enjoado”, o personagem de Williams é interpretado com o cuidado de um ator ciente da carga dramático do tipo representado. Não chega a ser esférico o suficiente para tornar-se inesquecível, mas é uma presença que por meio de seu brilhantismo e talento, muda a vida de muitos envolvidos na história. No local, Crounauer torna-se amigo de Tuan (Tung Thanh Tran), vietnamita que o acompanhará em diversas situações de diversão e tensão, tal como a explosão de um bar que ceifa a vida de vários clientes e outros circundantes externos.

Há também espaço para o amor, subtrama pouco interessante da história, mesmo que seja parte integrante de um enredo biográfico. Tudo, por sua vez, vai por água abaixo depois que o irreverente apresentador deixa no ar uma notícia que pode trazer desvantagem estratégica para os estadunidenses. O resultado é a retirada da rádio do ar e o cancelamento da visita do personagem ao local onde trouxe alegria e descontração. Um de seus maiores companheiros nesta breve trajetória, Edward Garlick (Forest Whitaker), é um dos que mais lamenta a futura ausência do amigo que mostrou para todos o poder da oratória na transmissão de notícias radiofônicas.

Com trilha sonora assinada por Alex North, Bom dia, Vietnã conduz a sua narrativa por meio de boas opções musicais, selecionadas cuidadosamente, haja vista ser um dos pontos mais altos da produção em termos de significação dramática.  O design de produção de Roy Walker ganha destaque no quesito cenário, dirigido por Tessa Davies, adequados na composição visual de um estúdio de rádio e suas improvisações numa área de conflitos bélicos. No que tange aos enquadramentos, a direção de fotografia de  Peter Sova não apresenta nada de surpreendente, cumprindo apenas os requisitos básicos dos manuais de linguagem cinematográfica.

Há, no entanto, uma tentativa acertada de enquadrar o personagem de Robbie Williams em alguns momentos de sua apresentação que denotam a intimidade da figura diante do amado posto de apresentador. Alguns anos mais tarde, o ator adentraria novamente numa história sobre o poder comunicacional no rádio, mas desta vez, noutro período de conflito bélico, isto é, a Segunda Grande Guerra Mundial, momento histórico do dramático Um Sinal de Esperança, narrativa onde o rádio alcança uma espécie de presença metafísica.

Ao longo de seus 121 minutos, a produção, segundo a crítica especializada da época, faz algumas críticas ao temeroso conflito desnecessário do Vietnã, uma guerra que demonstrou que os estadunidenses não são infalíveis como se autodenominam. Um pouco extenso para a quantidade de conflitos que tem a resolver e personagens para evoluir, o filme traz o famoso trecho com a canção de Louis Armstrong, What a Wonderful World, acompanhada por cenas de explosões, soldados em combate e as estreladas bandeiras estadunidenses hasteadas em tanques e embarcações de combate.

Não vejo nada de crítico, ao contrário, acho até problemático demais, haja vista a ironia da canção em face das imagens apresentadas. No quesito rádio, entretanto, devo dizer que a produção é uma primorosa lição de como fazer rádio, além de ser uma ilustração bem didática sobre o poder de difusão deste meio de comunicação, sem cair exclusivamente na pedagogia e atrapalhar o entretenimento.

Bom Dia, Vietnã — (Good Morning, Vietnam) Estados Unidos, 1987.
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Mitch Markowitz
Elenco:   Robin Williams, James McIntire, Joe B. Veokeki, John Goyer, Jonathan MacLeod, Juney Smith, Kenneth Pitochelli, Kien Chufak, Lerdcharn Namkiri, Louis Hood, Noble Willingham, Panas Wiwatpanachat, Peter Mackenzie, Prasert Tangpantarat, Ralph Tabakin, Richard Edson, Richard Portnow, Robert Wuhl, Robin Williams, Sangad Sangkao, Suvit Abakaz, Tim O’Hare, Tuan Lai, Tung Thanh Tran, Uikey Kuay, Vanlap Sangko, Wichien Chaopramong
Duração: 121 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.