Crítica | Boneca Russa – 1ª Temporada

Reduzir Boneca Russa a uma série que faz com que sua protagonista revisite o mesmo dia toda vez que morre, em um loop temporal aparentemente interminável é um desserviço à série criada por Natasha Lyonne, Amy Poehler e Leslye Headland, com Lyonne estrelando no papel de Nadia Vulvokov. É bem verdade que o artifício serve para fisgar o espectador que por acaso não tiver sido fisgado pela atuação de Lyonne, mas a grande verdade é que ele é apenas um gatilho para um grande estudo de personagens.

É importante logo de cara deixar claro que a série tem sua própria lógica interna e as regras do loop temporal, que faz com que Nadia recomece seu dia dentro do psicodélico banheiro da casa de sua amiga Maxine (Greta Lee) na noite de sua festa de aniversário de 36 anos toda vez que morre, vão sendo expostas aos poucos, na medida em que a trama é desenvolvida e sempre cirurgicamente no ponto em que a repetição começa a ficar enfadonha. É também essencial não querer uma explicação científica para o que ocorre, muito na linha do que simplesmente acontece, do nada, no já clássico Feitiço do Tempo. O foco é realmente lidar com a natureza humana e esmiuçar primeiro Nadia e depois Alan Zaveri (Charlie Barnett), observando como eles lidam com a responsabilidade, culpa e como conseguem (ou não) desenvolver empatia).

Muito do que vemos acontecer, especialmente no começo mais lento e de certa forma cuidadoso – em contraste com uma razoável correria na segunda metade – é perfeitamente relacionável com muita gente de uma maneira ou de outra. O egocentrismo de Nadia é pulsante, assim como seu descuido consigo mesma e com seus relacionamentos. Para ela, com exceção talvez de Maxine, todos ao seu redor são desimportantes ou pelo menos bem menos importante do que o prazer momentâneo que eles ou substâncias (drogas) e atos (sexo) proporcionados por eles podem significar para ela, mesmo que, no fundo, ela reconheça a efemeridade disso tudo.

Como ainda tenho Orange is the New Black muito vívida em minha mente, confesso que tive dificuldades para deixar de ver a detenta Nicky Nichols na atuação de Lyonne, até porque em muitos (ou seriam todos?) aspectos, Nichols e Vulvokov são extremamente parecidas. Mas, com o tempo, pude perceber o trabalho nuançado da atriz que sem dúvida usa seu profundo verniz de “moleque de rua”, algo que é reiterado por sua aparência desleixada, para esconder uma vida complicada sob o ponto de vista psicológico. Nadia é uma mulher profundamente marcada por uma infância difícil, da qual ela muito provavelmente não conseguiu sair completamente ainda. E, na medida em que a trama ganha mais densidade, lá pela metade da curta temporada, vemos a proverbial cebola ser descascada (ou, mais apropriadamente, a Matriosca sendo aberta), revelando as diversas camadas que a atriz imprimiu na personagem.

Alan, o personagem de Barnett cuja função manterei em mistério na presente crítica por preciosismo anti-spoiler, é um belo contraste à Nadia, uma pessoa programada para viver programada, para seguir, como um trem, sempre pelo mesmo trilho. Quando os dois se conhecem, é como azeite e vinagre, nunca se misturando, nunca estabelecendo química até que… eles finalmente a estabelece. Paredes erigidas de um lado e de outro começam a ser derrubadas e a convergência passa a magicamente acontecer, com os dois atores merecendo todos os louros tanto pelo trabalho de afastamento quando o de aproximação.

Todos os demais personagens que gravitam ao redor da dupla principal são apenas satélites, presentes em função dos dois corpos celestes mais relevantes, mas cada um mantendo fortemente seus traços de personalidade, valendo destaque para a canalhice auto-consciente de Mike Kershaw (Jeremy Lowell Bobb), a bondade ingênua de Maxine e a meiguice arrependida de Beatrice (Dascha Polanco, também de OITNB). Eles colorem toda a ambientação, cumprem suas funções e estabelecem a cola pseudo-realista que a série tenta manter o tempo todo de forma a deixar o lado sobrenatural, místico (ou seja lá como quiserem classificar o que acontece) como um mero detalhe.

Sei que o final pode deixar muita gente em dúvida, mas ele é simples, na realidade. Não há muita ambição em se criar grandes mistérios insolúveis ou de fundir a cabeça. Tudo que precisamos saber está lá e o que acontece no multiverso criado pelas sucessivas mortes de Nadia é didaticamente “desenhado” nos minutos finais do último episódio. O importante de verdade, porém, não é entender a mecânica desse universo, mas sim compreender o que Nadia e Alan precisam fazer para restabelecer a ordem em suas vidas e essas tarefas, se pararmos para realmente refletir, não diferem em nada dos obstáculos que cada um de nós precisa enfrentar ao longo de nossa jornada única por aqui, com maior ou menor grau de dificuldade.

Boneca Russa é um prazer de série que usa um artifício comum da ficção científica como um inteligente trampolim para mergulhar na psiquê humana e fazer-nos estudar com cuidado essa pessoa que vemos sempre que olhamos para um espelho. Nós somos o nosso reflexo e, diferente de Nadia, só temos uma chance para nos acertar.

Boneca Russa – 1ª Temporada (Russian Doll, EUA – 1º de fevereiro de 2019)
Criação: Natasha Lyonne, Amy Poehler, Leslye Headland
Direção: Leslye Headland, Jamie Babbit, Natasha Lyonne
Roteiro: Natasha Lyonne, Amy Poehler, Leslye Headland, Allison Silverman, Cirocco Dunlap, Jocelyn Bioh, Flora Birnbaum
Elenco: Natasha Lyonne, Greta Lee, Yul Vazquez, Charlie Barnett, Elizabeth Ashley, Kate Jennings Grant, Rebecca Henderson, Ritesh Rajan, Jeremy Lowell Bobb, Dascha Polanco, Brendan Sexton III, Waris Ahluwalia
Duração: 208 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.