Crítica | Bons Meninos

Eles são meus melhores amigos, fazemos tudo juntos.

Se uma comédia politicamente incorreta com 3 crianças como protagonistas em um mundo cada vez mais politicamente correto já não é um risco e tanto a se correr, Bons Meninos surpreende ainda mais por conseguir acessá-la de um modo a atingir um balanço dramático de comentários pertinentes sobre a precocidade das gerações infantis em meio à ampla exposição da sociedade líquida, mas sem suavizar a estruturação esquizofrênica inspirada em Superbad no humor absurdo. Algo semelhante aconteceu ano passado com Fora de Série, a versão feminina do humor específico do filme mencionado, e notoriamente pela temática e pauta feminista em alta, ele engoliu este que nem chegou nos lançamentos comerciais brasileiros, mas que talvez consiga relacionar melhor as propriedades temáticas no exercício de gênero sem precisar limpar as mãos.

O infantil num cenário adulto possibilita diversificadas variações cômicas, partindo do referencial à cultura pop e atravessando o inusitado linguajar chulo não completamente compreendido pela ingenuidade da idade e, obviamente, contrastante com o físico das crianças. É impressionante como não há freios morais, o roteiro é tão habilidoso que transforma situações de risco à vida em uma leveza temporária para a comédia, sem perder o elemento de suspense que risca a aventura de danos psicológicos nos garotos. Keith L. Williams, Jacob Tremblay e Brady Noon conduzem o trio com uma química singular, fortalecida pelos diálogos que mesclam tiradinhas irônicas programadas para algo físico no futuro e um espaço de intervalo para improvisos situacionais inesperados, também previamente pensados na aventura de desdobramentos instáveis, propositalmente para amplificar a comédia e fornecer o material para os aprendizados.

Não que o estudo de amadurecimento seja eximiamente complexo, mas ele é preciso no didatismo, aproveitando os pontos de transição com sabedoria ao debochar do teor passageiro da dramatização, mas sem reiterar a importância daqueles momentos para a formação dos jovens. Nas entrelinhas, essa ideia de cada criança ser produto do meio convivente é ainda mais bem exposta com as pontuais cenas de relação pessoal de cada um com os pais, exercitando na cabeça do público a criação peculiar daquelas personalidades. Max (personagem de Tremblay) encarna a possível maturação de uma masculinidade tóxica, com criação conservadora e disciplina à base da punição pelo seu pai, o garoto é incentivado desde cedo a pensar nas mulheres como objeto de conquista particular, tanto que o mote de sua jornada é conseguir “beijar pela primeira vez” e sua primeira cena já é um exercício de masturbação consciente, provocações cirúrgicas para o público questionar a velocidade daqueles desejos ao mesmo tempo em que ri de aonde aquilo iria chegar.

Já Lucas (interpretado por Keith) tem uma mentalidade completamente diferente por ter um respaldo em casa dialogado mais diretamente. Mesmo que suas figuras paternas passem por problemas pessoais de relacionamento, eles não deixam isso afetar a criação do filho por não esconderem isso, nem nada dele, abertamente conversando com o menino sobre qualquer tema, logo, fazendo-o compreender quaisquer questionamentos que apareçam rapidamente, criando um amplo círculo de conhecimento futuramente transformado em vontades próprias de ter atitudes benevolentes. E nele que o filme espertamente adiciona o bullying como pauta, mesmo que propriamente os personagens em nenhum momento sofram de fato. Porque o filme entende que o ambiente de higienismo social é possível no contexto, e além de desviar do clichê, direciona-o a favor do incorreto, quebrando estereótipos antigos e saudavelmente inserindo outros com base nas consequências dos males das influências dos arredores.

Por fim, e não menos importante, Thor (feito por Brady) propositalmente não tem o respaldo familiar, justamente por ser o personagem mais intimamente conflitante ali. É a típica criança que não procura ajuda pelo medo de ter de revelar seus verdadeiros desejos e encara os julgamentos do mundo. Uma insegurança que começa ao forçar ser outra pessoa e futuramente refletiria em algo ainda mais problemático. Seu arco é, dos três, talvez o melhor cuidado na via emocional, principalmente por seu contraste ser posicionado em devido atrito com Max, que basicamente surge como oposto. Aliás, essa guerra de contrastes é o que faz a engrenagem funcionar, tanto na comédia quanto surpreendentemente no drama, já que o filme abre um espaço interessante de reflexão próximo ao 3° ato sobre a naturalidade das amizades esvaídas pelo tempo e maturação de como cada um vai se descobrindo, uma tarefa árdua e até além do que o filme propunha de articular três coming-of-age distintos e igualmente complementares.

É uma espécie de Conta Comigo misturado com Goonies do millenium, referente ao clima oitentista de amizades eternas estabelecidas por um “momento” inesquecível para os personagens, em um cenário urbano colegial moderno. Ácida, fluida e extramente engraçada (a piada do colar é pra entrar pra história), tematicamente relevante e surpreendentemente emocionante, Bons Meninos é um filme completo, embora seja um humor besteirol tipicamente adulto, dialoga perfeitamente com o espectro do universo que participa, conseguindo assim atingir todas as idades com eficiência e cinematograficamente brincando com todas as convenções de gênero de uma forma inteligente. Talvez seja cedo para falar, mas esse tem tudo para ser um clássico high school do século XXI. No mínimo, é uma das comédias mais surpreendentes da última década.

Bons Meninos (Good Boys, EUA – 2019)
Direção: Gene Stupnitsky
Roteiro: Gene Stupnitsky, Lee Eisenberg
Elenco: Jacob Tremblay, Keith L. Williams, Brady Noon, Molly Gordon, Midori Francis, Izaac Wang, Millie Davis, Josh Caras
Duração: 89 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.