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Crítica | Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América

por Davi Lima
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Diante de um distanciamento cultural e geográfico específico, o protagonista do filme, chamado Borat, direto do Cazaquistão, é a instituição humorada e personalista da obra cinematográfica dirigida por Larry Charles em 2006, em que o absurdo na extrapolação de contatos culturais nos Estados Unidos impõe críticas explícitas à sociedade americana nesse falso documentário irreverente. A partir de uma antologia de esquetes conectadas no subgênero road movie, Borat, em sua história de se tornar um jornalista em seu país, é o centro natural da ambiguidade do real, que provoca uma contra-narrativa hollywoodiana enquanto a percorre como um embate na formação cultural.

Pode-se compreender um jogo bem afinado de três narrativas bem produzidas, em que o discurso humorístico, em meio à dúvida de cenas gravadas com teores bem forjados com situações absurdas e estruturalmente naturais, características do mockumentary, busca surgir da indolência de Borat com o politicamente correto ao mesmo tempo em que segue uma “moralidade ingênua” que equivale ironicamente à sua cultura fora da América. Ou seja, enquanto o espectador é levado por uma história de peripécias críticas com humor físico e verbal com que o ator Sacha Baron Cohen interpreta Borat nas ruas de Nova Iorque, na estrada do Texas e no estacionamento da Califórnia, simultaneamente pontos ficcionais de efeitos cinematográficos de som e imagem de grande influência.

Essa mistura é o mais evidente, em que a mudança de pixels da câmera determina a técnica alternativa da época para cenas mais internas de carros e metrô, em que se colocam câmeras com menos qualidade fotográfica, ou o uso da trilha de suspense quando Borat e seu parceiro Mazat (Ken Davitian), antissemitas, hospedam-se na casa de um casal judeu. Mas a terceira narrativa, a mais progressiva, com tons dramáticos e humor mais implícitos, é a clássica heroica hollywoodiana do protagonista que se apaixona por uma mulher numa terra estrangeira e sacrifica sua jornada para se casar com ela. Essa medida contextual do filme expande as potências ficcionais de um projeto documental assim como potencializa a crítica realista à cultura americana, visto que o seguimento heroico se mantém em constante quebra de expectativa, espertamente conectada às transições para esquetes “boratianas” mais particulares.

De maneira mais direta, a comédia de Borat é o absurdo e o besteirol, mas assim como a composição de sua narrativa vai engrenando os pontos de seu formato como filme, o humor mais infame que não traria graça destrói símbolos sulistas de uma herança escravocrata em uma loja de souvenirs, assim como cantar o inventado e afrontador hino do Cazaquistão com a melodia do hino americano sobre superioridade nacionalista do povo asiático no Texas. Ao longo do filme, posições sociais e políticas de Borat quanto aos negros e homossexuais se contextualizam em estereótipos numa “ingenuidade montada” por ele ser estrangeiro, no entanto, dentro da dinâmica das esquetes, em proporções de rapidez e conexão com a progressão narrativa, a comédia vai se descamando em novas críticas.

Dentro desse meio, as concordâncias iniciais e subsequentes discordâncias de Borat com falas machistas e racistas, diante da construção do personagem imprevisível, na verdade apontam mais para a realidade do que para o personalismo do filme quanto ao protagonista. Por vezes a comédia se torna tensa ou incômoda por denotar o realismo envolto do estilo documental que evidencia, na imprevisibilidade de Borat, pela naturalidade com que discursos desumanos são ditos nos diálogos americanos. A piada séria de Borat se envolve na onda que sua narrativa hollywoodiana vai se tornando dramática como quebra da sua linearidade clássica, assim como planos abertos “românticos” durante o filme bruscamente transitam a imagem para um zoom documental para delimitar harmonicamente o poder em tratar do real e do ficcional.

Como uma vez o famoso documentarista Eduardo Coutinho disse em entrevista à Agência Pública, em 2013, “Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção, nós não vamos sair do lugar”, da mesma forma desvendar como o diretor Larry Charles fez cenas com um “urso de verdade”, ou tentar compreender a coragem do ator Sacha ao se expor a situações desmoralizantes em ambiente público para encarnar seu personagem, desmonta limiares concretos entre a realidade e a ficção. Além disso, em mensagens subliminares, Borat não apenas faz papel de despir podres culturais americanos dentro de sua própria estrutura racista e machista, como prega sua missão inicial como repórter. Ele ironiza especificamente questões consideradas “ínfimas” em relação à injustiça social, no entanto, complementares para o trabalho completo do filme em explorar as imperfeições americanas.

Exemplos, como usar fontes de praças públicas e parques nacionais como banheiro ou lavatório de roupa são especificidades quanto ao valorizado serviço público americano, que no filme são imagens de transição na montagem na maioria das cenas, no entanto implementam essa camada mais autoral e irônica da produção da obra. Seguindo essa linha, não se vale de imunização cômica um filme por apresentar uma crítica pertinente e bem produzida. Da mesma forma que uma das primeiras entrevistas de Borat é com um professor ensinando sobre piadas e ética americana de maneira muito complacente aos absurdos de Borat, o efeito cinematográfico do humor do filme pode ser questionável não pelo senso de humor, mas especialmente por seu cerne trabalhar com a ambiguidade de certas posições deferidas por Borat para causar efeito não ingênuo no espectador.

Por isso que a direção acaba por ser muito certeira em conduzir um filme que se porta paralelamente a uma narrativa clássica, pois nas variações da fotografia e no claro disparate como Borat se comporta socialmente, o trabalho com o humor ácido se administra dentro de uma dimensão explícita, embora não direta necessariamente. Fica explícita, por exemplo, a maneira natural como o irmão de Borat é chamado por ele mesmo de retardado, e seu meio introdutório no Cazaquistão é normalizado para ele falar de um estuprador, ou até mesmo como questiona as piadas americanas sobre sogras, mas comumente sexualiza as mulheres. No entanto, as consequências diretas disso criam um absurdo para o público, uma quebra de expectativa pela personalidade do protagonista ficcional em um meio real, têm direções próprias para o progresso da narrativa, como a falta de compreensão do humor americano para negações no final de uma piada verbal. Por isso, o valor escrito e subtextual da óbvia xenofobia que americanos desenvolveram após o 11 de setembro acaba crescendo pela compreensão disso dentro da obra. Pois mesmo essa xenofobia sendo citada, o projeto todo do filme, até mesmo do título extenso ao sotaque de Sacha, ironiza a paranoia americana com personagens de traços característicos do Oriente Médio ou da Ásia.

Afinal, muito mais que apenas uma comédia crítica e de caráter polêmico, o que se compreende também é como Borat é moldado pela cultura americana em sua disposição a isso, assistindo à série Baywatch, idealizando um amor dentro da narrativa heroica e estereotipando a cultura cazaque como machista que se mistura à liberdade pregada pelos americanos em um contexto de Los Angeles onde a morte é uma fantasia. Dentro da polêmica toda entre o que é real e não é, soa como se Borat incluísse uma moral americana em seu repertório quando ele é fragilizado na ausência do seu sonho vendido na TV americana, quando no final a moral não importa muito, nem o alcance inconsequente das representações de maneira clara, e sim a contra-narrativa que destoa da formação televisiva.

Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan) – EUA | Inglaterra, 2006
Direção: Larry Charles
Roteiro: Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mazer
Elenco: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell, Pamela Anderson
Duração: 84 min.

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