Crítica | Braddock: O Super Comando

Aviso: Assistir a esse filme faz a barba crescer mais rapidamente.

Missing in Action, que ganhou o hilário título brasileiro Braddock: O Super Comando, foi filmado juntamente com seu prelúdio, Missing in Action 2: The Beginning (ou Braddock 2: O Início da Missão) que não era para ser prelúdio, mas sim o primeiro a ser lançado. Só não assim foi porque consideraram que o roteiro do que acabou indo ao ar antes era melhor, o que é, claro, uma grande mentira, já que a Golan Globus sabia que Rambo II: A Missão, seria lançado em 1985 e a produtora queria correr para não só ser a primeira a contar essa história de prisioneiros de guerra americanos no Vietnã, como também para evitar uma briga judicial por plágio.

Mas como assim plágio, alguns podem perguntar. Simples, o roteiro original de Rambo II era de James Cameron e estava rolando em Hollywood há algum tempo. A Golan Globus foi uma das produtoras que chegaram a pensar em produzir a história, mas deram para trás, ainda que isso tenha sido a fagulha para eles chutarem o balde e resolverem contar a mesma história, só que com “pequenas diferenças”. Afinal, para que pagar se basta copiar? O resultado foi a transformação do expressivo Chuck Norris em mais um astro de filmes de brucutu oitentistas e o maior sucesso da empresa.

E o mais curioso é notar que, apesar dos sensíveis contornos de filme B que Braddock: O Super Comando inegavelmente tem, a obra não é aquela idiotice completa que se poderia esperar. Há até um comedimento muito grande com a pancadaria desenfreada, com o personagem do título, um coronel americano aposentado que fugira há 10 anos de um campo de prisioneiros do Vietnã e que tem certeza que há outros como ele, ganhando uma razoavelmente boa construção narrativa. Claro que os dotes dramáticos de Norris são o grande destaque para a credibilidade do personagem, que reage exatamente da mesma forma quando beija uma mulher ou quando atira com uma metralhadora .50. E a barba sempre arrumada e os pelos cobrindo o corpo todo emprestam outras camadas extras de compreensão metafísica de um personagem perturbado e sofrido que faz de tudo para voltar para o Vietnã e salvar seus colegas já que o governo americano mostra-se burocrático e covarde ao extremo e o vietnamita simplesmente vilanesco e mentiroso.

Brincadeiras à parte, falo sério quando afirmo que o filme não é de todo imprestável. A preocupação política na época com as alegações da efetiva existência de prisioneiros de guerra mesmo após o fim do conflito era alvo de uma investigação parlamentar nos EUA e Rambo II e, por pré-plágio, Braddock, se aproveitaram do momento. Nesse ponto, apesar da projeção começar com uma desnecessariamente longa sequência de pesadelo que coloca o coronel em uma missão no Vietnã durante a guerra, com cenas tiradas do que seria o prelúdio do ano seguinte, o roteiro logo embarca em uma pegada política efetivamente interessante, ainda que maniqueísta que protrai no tempo a ação propriamente e traz um mínimo de camada de seriedade para a obra.

Somente quando Braddock, irritado pela politicagem (é incrível a feição de frustração de Norris!), parte para a Tailândia para reunir equipamento para voltar e delicadamente perfurar vietnamitas com projéteis e armas brancas, é que o que se espera do filme realmente começa e, mesmo assim, com grande parte da ação ficando justamente nesses preparativos, já que o governo vietnamita manda seus minions para acabar com o ex-militar lá pelo país vizinho mesmo. É, resumindo, diversão descerebrada garantida para quem quiser apenas isso e nada mais. Aliás, em termos comparativos, chego a arriscar e afirmar que, apesar de Rambo II ter suas arestas sem dúvida mais polidas, Braddock não deixa lá muito a dever ao filme de Sylvester Stallone, com a grande diferença que Braddock tem Chuck Norris e Chuck Norris é Chuck Norris, se é que me entendem.

Título brasileiro idiota não obstante, Braddock: O Super Comando é mais uma pérola que os anos 80 produzia em atacado. Uma bobagem do começo ao fim com uma ou duas tentativas de fazer algo além disso que colocou Chuck Norris de maneira mais proeminente no mapa, finalmente fazendo jus a esse grande ator que nunca, em circunstância alguma, sai de seu personagem.

Braddock: O Super Comando (Missing in Action, EUA – 1984)
Direção: Joseph Zito
Roteiro: James Bruner (baseado em personagens criados por Arthur Silver, Larry Levinson e Steve Bing e história de John Crowther e Lance Hool)
Elenco: Chuck Norris, M. Emmet Walsh, David Tress, Lenore Kasdorf, James Hong, Ernie Ortega, Pierrino Mascarino, Erich Anderson, Joseph Carberry, Avi Kleinberger, Willie Williams, Ric Segreto, Bella Flores
Duração: 101 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.