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Crítica | Braid

por Anthonio Delbon
167 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Braid é, certamente, um dos games independentes mais populares e reconhecidos na indústria. E é fácil notar o porquê. Misturando quebra-cabeças inteligentes e uma mecânica baseada em jogos de plataforma, no melhor estilo anos 90, o jogo apresenta ideias geniais e uma interessante história que se conecta com o jogador como poucos games são capazes. Mas Braid é ainda mais.

Qualquer pessoa familiarizada com videogames logo notará do que o jogo se trata. Controlando Tim, um singelo homem de terno e gravata, o jogador busca encontrar uma princesa capturada por um monstro malvado. Em cada “mundo” há trechos em livros abertos que explicam o enredo, servindo como uma espécie de passado dos personagens, cheio de memórias confusas e curiosas reflexões. Mas deixemos isso para mais tarde.

O ponto mais original de Braid é a capacidade do jogador controlar o tempo. Um pulo errado, um reflexo tardio, um mau cálculo…tudo pode ser corrigido e aproveitado pelo jogador, dando ao game uma fantástica game de possibilidades a ser explorada. E nem por isso Braid é fácil. Muito pelo contrário. Para alcançar as peças do quebra-cabeça a ser montado em cada parte do game (um quebra-cabeça literal, que contém uma pintura do que parece ser uma parte da vida de Tim), é necessário ficar bem focado e prestar atenção nos tempos dos inimigos para não errar a própria ação.

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O gameplay consiste basicamente em usar tais mecânicas para chegar aos lugares impossíveis de serem alcançadas sob um primeiro olhar. E os distintos mecanismos adversários dão até alguma sensação de ação em certas partes, sem deixar de lado o cálculo, principal arma de Tim. Todavia, por mais que as habilidades obtidas por ele durante sua jornada sejam realmente criativas, como diminuir o tempo ou criar um clone, os desafios também são grandes e difíceis, o que pode tornar o jogo um pouco cansativo ou afastar um jogador mais casual dessa ótima obra.

Mas não deveria.

Uma rápida olhada já fascina. Com sete cenários, Braid encanta com a delicadeza das pinturas e as cores vivas empregadas, responsáveis por dar diferente ambientação em cada um dos estágios. A trilha sonora ajuda da mesma forma, ora dando um tom aventuresco no início, como se fosse Bilbo Bolseiro saindo do Condado, ora deixando o clima mais tenso e o ar mais sufocante. O esmero estético colocado em cada cena é, de fato, admirável.

Antes de voltar ao enredo, é impossível fechar os olhos para as inúmeras referências à Mario, desde o design das fases até o próprio contexto de Tim. O bom é que Braid ousa e transforma essa busca pela princesa em uma grande metáfora para o que Jonathan Blow, desenvolvedor do game e defensor da ideia de que os games podem ser muito mais do que são atualmente, chamou de um “conceito inexplicável”. E por mais que a mecânica de controlar o tempo seja uma ideia brilhante e tenha uma física muitíssimo bem executada, é a junção com a história contada que eleva Braid ao patamar dos grandes games já criados.

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Aqui vão possíveis spoilers e leves questionamentos para quem já terminou o jogo e ficou eufórico com o fim.

Os escritos sobre a história e o final do jogo são cheios de pensamentos não só sobre o próprio Tim, mas também de como o relacionamento entre duas pessoas acontece. Afinal, logo no início, Braid avisa que a princesa caiu nas mãos de um horrível monstro mau e que isso aconteceu porque Tim errou. O jogo passa e a curiosidade sobre qual foi o erro aumenta, permeada por divagações sobre os sentimentos humanos colocados sob o holofote da relação com a princesa fugida.

A impressão, em outra parte, é a de que ele a abandonou e foi buscar outra coisa. Há sentimento de culpa e insegurança também ligados à algum desejo obscuro. Arrependimento, talvez? E os quadros, sempre mostrando a conexão de Tim com uma bebida – vista sempre em diferentes ângulos – dão certamente pistas sobre o que a vida dele se tornou. Mas o que a princesa representa, ou a loja de doces…como o controle do tempo tem relação com o sentimento de Tim e a sutil reviravolta que o final produz também são questões deliciosas a serem interpretadas. E como o próprio jogo faz, o escrito aqui também não passa de algumas ideias surgidas ao longo do game, que creio serem parte da experiência que Braid proporciona.

Há ainda quem interprete o jogo como uma alusão à criação das bombas nucleares, e essa é, sem dúvida, uma das ideias mais interessantes vistas em fóruns de discussão. E são por elas que Braid, mesmo tendo nota baixíssima quando se trata de replay, transcende uma única jogada e mostra o potencial dos games indies, continuamente bem explorado até os dias atuais, fazendo com que até grandes empresas, como a Ubisoft, invistam em jogos menores e mais poéticos com o mesmo cuidado dos blockbusters de ação, vide o excelente Child Of Light.

Braid
Desenvolvedor: Number None, Inc.
Lançamento: 6 de agosto de 2008
Gênero: Puzzle, Plataforma
Disponível para: XBOX 360, PS3 E PC

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2 comentários

Handerson Ornelas. 6 de março de 2015 - 20:47

Seria legal se o Jonathan Blow aparecesse aqui nos comentários hahaha

Como foi mostrado no documentário “Indie Game: The Movie” (ta ligado né, Anthonio? Haha), Jonathan comentava em toda critica do jogo quando foi lançado, além de ter entrado em depressão pelo “público nao ter entendido sua real mensagem no jogo”. A verdade é que ele ficou meio pancada com o sucesso…

Ainda nao joguei, mas tenho muita curiosidade. Excelente critica! Abração, Anthonio!

Responder
anthoniodelbon 7 de março de 2015 - 01:09

Valeu Handerson!! Esse documentário é ótimo mesmo cara. A crítica só chegou um pouco atrasada e na língua errada, hahaha, caso contrário que ele apareceria por aqui mesmo.

Inclusive parece que sai o novo jogo dele esse ano né. The Witness…to ansioso pra ver aonde ele foi depois do sucesso de Braid.

Abração meu velho! Comente sempre!

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