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Crítica | Brasa Dormida

por Luiz Santiago
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O diretor Humberto Mauro, que ganhou o título de “pai do cinema brasileiro“, começou sua carreira em 1925, com o curta-metragem Valadião, o Cratera. Seus dois primeiros longas, Na Primavera da Vida (1926) e Tesouro Perdido (1927) foram um ensaio de aprimoramento técnico do diretor, chegando a um estágio de bastante solidez no filme que foi o seu primeiro sucesso de público (e um verdadeiro fracasso de crítica), o romance Brasa Dormida, de 1928.

A história se passa entre a capital federal, Rio de Janeiro, e o interior de Minas Gerais, onde Luiz (Luís Soroa) um filho renegado por viver uma vida de gastos e sugeridamente de “baixa moral”, acaba por acaso encontrando um anúncio de jornal que indica uma oportunidade de emprego numa usina. É assim que o jovem protagonista, tentando mudar de vida, conhece o usineiro Carlos Silva (Côrtes Real) — as passagens de tempo e espaço aqui não são sempre perfeitamente definidas, então o espectador precisa ficar atento — e ganha o emprego de gerente da propriedade, assumindo o lugar do mal-caráter Pedro Bento (Pedro Fantol), que irá se ressentir imensamente de sua demissão e atuará como o grande vilão da história.

Integrante da Era dos Ciclos Regionais de nosso cinema, mais especificamente do Ciclo de Cataguases (MG), Brasa Dormida traz uma elogiável execução de um drama romântico simples, aliado a um problema de relações sociais e empregatícias do Brasil da época. Por mais que flerte com alguns caminhos hoje saturados (e à época, já bem utilizados em Hollywood), o filme consegue uma excelente criação de conflito e traz uma aplaudível manipulação de luz pelo fotógrafo Edgar Brasil, com criação de cenas noturnas e sequências românticas dotadas de uma beleza e um escrúpulo estético notáveis para um filme brasileiro de final dos anos 1920.

Humberto Mauro não consegue um resultado tão bom com a direção de atores, especialmente no caso da atriz Nita Ney, que ganha inúmeros closes e parece transportar-se magicamente de um estado de espírito para outro em questão de segundos, mas logra um ótimo resultado no encadeamento cênico, tanto na direção quanto na montagem, pela qual ele também foi o responsável, assim como pela direção de arte. As cenas de flashback com o diário de Luiz e seus momentos de paquera com Anita recebem um tratamento inventivo, orgânico e elegante, assim como a montagem paralela que dá o tom do conflito final entre mocinho e bandido, com a criação de genuína tensão e boa condução do evento, tanto entre os beligerantes, quanto no bloco dos trabalhadores que fazem de tudo para apartar a briga e salvar Luiz.

Em algumas cenas, os intertítulos parecem que estão colocados de maneira atrasada ou adiantada, gerando pequenos tropeços nos blocos finais. A história de amor, porém, acaba ganhando o sentido esperado e consegue se estabelecer sem parecer forçada ou enjoativa. O casal de protagonistas é simpático e a maneira como o roteiro costura a “luta para se endireitar” de Luiz cria uma empatia moral por parte do público, que acompanha a transformação de personalidade, a forma como ele encara o trabalho, a bela amizade que constrói com Máximo (Máximo Serrano) e a forma como vai vencendo os tropeços em seu caminho, sem grandes exageros ou estranhas ações épicas. Uma história de amor e companheirismo conduzida com competência e graça.

Brasa Dormida (Braza Dormida) — Brasil, 1928
Direção: Humberto Mauro
Roteiro: Humberto Mauro
Elenco: Nita Ney, Luís Soroa, Máximo Serrano, Pedro Fantol, Rosendo Franco, Cortes Real, Pascoal Ciodaro, José Venâncio de Godoy, Barros Farias, Haroldo Mauro, Lelita Rosa
Duração: 97 min.

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