Home FilmesCríticas Crítica | Confronto no Pavilhão 99

Crítica | Confronto no Pavilhão 99

por Ritter Fan
574 views (a partir de agosto de 2020)

Anote e lembre-se do nome de S. Craig Zahler, que começou sua carreira como diretor de fotografia, depois roteirista do filme de horror Desespero, de 2011, até chegar triunfalmente à cadeira de diretor com o infelizmente pouco conhecido faroeste de horror Rastro de Maldade (Bone Tomahawk), estrelando Kurt Russell. Confronto no Pavilhão 99 pode ser apenas seu segundo longa, mas, com ele, o diretor americano já pavimenta sua promissora carreira com sua pegada autoral, visceral, violenta e chocante.

Zahler, que também escreveu o roteiro, faz algo ainda mais simples que em Rasto de Maldade: um homem, que recorre ao tráfico de drogas para reerguer sua vida, precisa enfrentar uma infernal prisão para impedir que a desgraça completa abata-se sobre sua família. Serei particularmente críptico em termos de história não porque haja reviravoltas ou surpresas, mas sim porque esse é um daqueles filmes que começam de um jeito e acabam de outro completamente diferente, em uma espiral de violência como poucas obras da memória recente e é bem melhor mergulhar em sua premissa sabendo o menos possível.

O primeiro grande acerto de Zahler é resgatar a estrutura de clássicos filmes setentistas de ação, no subgênero “prisão”, como Papillon, Alcatraz – Fuga Impossível e O Expresso da Meia-Noite, estripando-a de qualquer semblante de complexidade, adicionando, ato contínuo, uma pitada de exploitation movie da mesma época e mixando o resultado com os filmes de brucutu dos anos 80, como Comando para Matar ou Stallone Cobra. O que sai dessa genial mistura é um filme angustiantemente divertido, realista até certo ponto, de violência ímpar e com personalidade própria, como se Zahler atualizasse os conceitos das obras citadas para o que o espectador da segunda década dos anos 2000 espera ver fora do eixo explosões/cortes rápidos/imbecilidades em geral que tanto há por aí.

Mas o diretor e roteirista não consegue esse feito sozinho. A escolha de Vince Vaughn para viver o sofrido Bradley Thomas foi um ato de grande inspiração. O ator, que já havia conseguido desvencilhar-se de sua origem exclusivamente cômica com papeis como seu Frank Semyon, de True Detective, ou o Sargento Howell, de Até o Último Homem, alcança outro patamar aqui, convencendo-nos completamente como um anti-herói humano de ação na veia do que Bruce Willis conseguiu fazer em Duro de Matar, mas sem os exageros (espetaculares, lógico) do filme oitentista.

E Confronto no Pavilhão 99 é um exemplo próximo do perfeito de como se aproveitar das características físicas do ator de maneira orgânica dentro da estrutura visual e narrativa de um filme. Zahler posiciona suas câmeras de forma a sempre manter Vaughn em franco destaque nas sequências, mesmo quando ele não é o centro das atenções – momentos raros, confesso, mas que existem – e fazendo com que sua altura e corpulência sejam amplificadas ao máximo, por intermédio de closes e de filmagens que mantém o espectador abaixo da linha do olhar de Bradley (e não Brad!).

Além disso, a direção de arte espartana – e não falo aqui apenas das prisões, naturalmente assim – estabelece uma frieza impessoal a todos os ambientes em que vemos Bradley agir no primeiro terço do filme, em que ele ainda está fora, longe do confinamento. Mesmo nos ambientes caseiros, em que o protagonista interage com sua esposa Lauren (Jennifer Carpenter, a irmã de Dexter, também ótima em seu papel consideravelmente mais limitado), a lógica de posicionamento de props e outros elementos que estabelecem o cenário privilegia o gigantismo de Vaughn que, em uma peformance estoica, mas cheia de significados profundos, tem seu próprio código de conduta e de honra, o que o leva à queda e ao inferno.

Quando sua jornada ladeira abaixo finalmente começa, o espectador já viveu um bom pedaço da duração da obra de mais de duas horas ao lado de Bradley, em sequências atrás de sequências que parecem não ter significado maior do que apenas alongar o filme. No entanto, a partir do momento em que ele é encarcerado, a velocidade é vertiginosa e, ao mesmo tempo, tudo o que aprendemos sobre o personagem nos 40 minutos iniciais são devidamente explorados e trabalhados, funcionando como a lógica interna que o move, evitando quaisquer desperdícios de celuloide ou do tempo do espectador, em uma progressão lógica e fluida.

Novamente, a direção de arte faz o seu belo trabalho, assim como a fotografia de Benji Bakshi (que trabalhou com Zahler em Rastro de Maldade), retratando de forma bastante objetiva a transformação do personagem ao longo de seu inferno prisional, primeiro fazendo uso de cenários quase hospitalares de tão assépticos, com tonalidades azuis, passando para uma caricatura de prisão de segurança máxima, com direito a muros medievais de pedra, masmorras, instrumentos de tortura e, lógico, uma coloração avermelhada, extremamente sugestiva, de certa forma até expositiva, mas que, na estrutura simples da projeção, faz absolutamente todo sentido. E, claro, a entrada de Don Johnson na história, como o mais do que arquetípico “diretor malvado de prisão” é deliciosa, mesmo que o nervosismo simultaneamente se abata no espectador.

A imersão no filme é alcançada quase sempre ao longo de toda sua duração por Zahler, mas o diretor, ao procurar mostrar acontecimentos fora da prisão onde Bradley está, acaba cometendo leves pecados que quebram a narrativa principal em alguns importantes momentos. A escolha em efetivamente lidar com os problemas do protagonista por outro ponto de vista, especialmente o de sua esposa, incomoda primeiro por ser tecnicamente desnecessária – vídeos e telefonemas já resolveriam a necessidade narrativa – e, segundo, por deslocar o eixo da história para fora do ambiente confinado, momentaneamente retirando o espectador da tensão criada. Mesmo assim, Vaughn está tão intenso aqui que é fácil voltar a inserir-se na história e a ser capturado pela cada vez mais sem saída situação de Bradley.

Confronto no Pavilhão 99 é, sem dúvida alguma, uma imperdível volta aos anos 70, com saudáveis doses de anos 80 em uma roupagem simples, própria, moderna e extremamente eficaz, que coloca Vince Vaughn como uma estrela de ação em seu próprio direito. Filmes ditos violentos terão que se esforçar para ultrapassar a qualidade do que Zahler faz aqui. Já anotou aí o nome do diretor?

Brawl in Cell Block 99 (EUA, 2017)
Direção: S. Craig Zahler
Roteiro: S. Craig Zahler
Elenco: Vince Vaughn, Jennifer Carpenter, Tom Guiry, Don Johnson, Marc Blucas, Udo Kier, Mustafa Shakir, Geno Segers, Rob Morgan, Fred Melamed, Clark Johnson, Dan Amboyer
Duração: 132 min.

Você Também pode curtir

26 comentários

atenas 7 de junho de 2020 - 16:18

Assisti ontem. Um filmaço, e achei que não havia mais esse tipo de filme “cru”, B, de violência envolvendo um astro de Hollywood, inclusive. Reclamaram das cenas de ação teatrais demais, mas pra mim elas combinaram bastante com o clima do filme.
E o final tá perfeito, também, era o que tinha que acontecer mesmo. Recomendadaço.

Responder
planocritico 7 de junho de 2020 - 18:08

Um filmaço mesmo. Você já viu os outros do S. Craig Zahler?

Abs,
Ritter.

Responder
Raffiinha 15 de abril de 2020 - 18:46

Aproveitei a quarentena pra finalmente assistir esse filme e olha… Zahler tá no meu coração! O cara faz o tipo de filme que eu gosto: sujo, violento e com personagens carismáticos e totalmente cinzentos. É pra sentar e apreciar..

Responder
planocritico 16 de abril de 2020 - 13:13

Que bom que gostou! Zahler é demais. Se tem o nome dele, eu assisto sem nem querer saber do que se trata! É só uma pena que ele não tenha mais reconhecimento.

Abs,
Ritter.

Responder
atenas 15 de abril de 2021 - 21:30

Vi o Bone Tomahawk e mais um recente com o Vaughn e o Mel Gibson, muito bom, também.
Também vi a produção inglesa de terror, no qual o Zahler era roteirista.

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 21:53

Sim, Puppet Master, de 2018.

Tem ainda Desespero, que foi o primeiro roteiro dele.

Abs,
Ritter.

Responder
JC 17 de maio de 2019 - 18:10

Já estava pra assistir esse filme tinha um tempo, sempre que começava, parava, achando que era outro qualquer.
Hoje resolvi assistir.
Meu paetê do céu que não existe!

Eu jurava que não ia terminar daquele jeito matando o cara, pra fazer um mil continuações.

Meu queixou caiu!

Cenas violentas que poucos filmes de terror fazem. Câmeras maravilhosas, fotografia…amei amei.
Putz!
Virou facilmente preferido.

Responder
planocritico 17 de maio de 2019 - 20:43

HAHAHAHAHHAAHHAHAA

Exatamente minha reação!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 24 de maio de 2018 - 01:05

Mas é que tudo era uma complicada forma de se vingar do coitado!

Abs,
Ritter.

Responder
Rafha 20 de maio de 2018 - 03:42

Ninguem vai comentar a falta de sentido do roteiro?
O cara chegou lá tendo que matar um prisioneiro p cumprir a chantagem e o prisioneiro não existiu … e encontra dentro da prisão o proprio sequestrador traficante que nem estava preso 😂

Responder
Bruninho 25 de abril de 2019 - 03:52

Uma pena o filme não ter sido feito pelo Nolan, talvez aí você tivesse entendido…

Responder
JC 17 de maio de 2019 - 18:10

Você deixou de ler um diálogo importante.
Ele mesmo fala quando Bradley chega no inferno.
Quando ele matou o marido da irmã dele, o grandão ficou vivo. E certamente, denunciou ele. E como o cara é grade…ao invês de matar, deixou ele vivo, e como era chefão grande do crime, foi mandado pra la.

Enfim…..

Responder
maumau 21 de janeiro de 2018 - 22:38

Muito bom o filme…bruto e visceral ao extremo!Vince Vaughn é o cara que estoura crânios com facilidade….
E do kct qd ele fala “estou executando Eleazar”…

Responder
planocritico 23 de janeiro de 2018 - 07:39

Filmaço mesmo!

Abs,
Ritter.

Responder
Fernando Gallon 10 de novembro de 2017 - 17:33

Que filme sensacional, quando vi que era do mesmo diretor do Bone Tomahawk sabia que não poderia perder. Mais um para coleção. Parabéns pela crítica !!

Responder
planocritico 10 de novembro de 2017 - 17:44

Que bom que gostou do filme, @fernandogallon:disqus ! Eu fiquei extasiado ao final, pois não fazia ideia do que esperar dele (nem tinha lido a sinopse, fui só pelo diretor e pelo Vaughn).

E obrigado pelo elogio!

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 18 de outubro de 2017 - 19:40

Nao li a critica porque so leio depois que vejo o filme/serie, mas so dessa frase ” A definição de “filme violento” foi atualizada! ” Meu hype aumentou, to com o filme aqui mais sem a legenda, esse ator desde True Detective ta show como cara violento.

Responder
planocritico 18 de outubro de 2017 - 20:48

Cara, prepare-se para adorar esse filme! Depois me conte o que achou!

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 10 de novembro de 2017 - 18:06

Rapaz que filmão da poha( me perdoe o xingamento) é disso que eu to falando! hehe gostei de mais do filme so acho que precisava melhorar um pouco mais nos efeitos especiais, fora isso o filme mesmo longo é ótimo, ja vi esse ano 3 filmes violentos de excelência, john wick 2, Shot Caller e esse, é ate difícil de escolher o melhor. Que bom que o Vince Vaughn esta procurando novos desafios, e por esse filme é da pra fazer outros nessa temática.

Responder
planocritico 11 de novembro de 2017 - 21:05

Ha, que legal que gostou!

Abs,
Ritter.

Responder
Henrique Guerreiro 17 de outubro de 2017 - 22:14

Tava louco esperando pelo próximo do Zahler desde Bone Tomahawk, um filmaço muito mal compreendido…
Engraçado que fui agora atrás dele (cof cof) e caí aqui na crítica, rs. Me animou ainda mais pra conferir.
E, só por curiosidade, você assistiu por onde?

Responder
planocritico 18 de outubro de 2017 - 14:39

@disqus_E4aJhlS0J0:disqus , vi no Festival do Rio 2017. Foi um dos filmes de lá. Fique de olho para ver se ele não vai entrar em circuito ou se o Netflix não o compra como fez com Bone Tomahawk. Vale MUITO a pena assistir esse!

Abs,
Ritter.

Responder
Henrique Guerreiro 18 de outubro de 2017 - 23:19

Acabei de ver e, realmente, mais um filmaço desse diretor

Responder
planocritico 19 de outubro de 2017 - 00:22

Eita, rápido você, hein? Mas que bom que gostou!

Abs,
Ritter.

Responder
Henrique Guerreiro 19 de outubro de 2017 - 23:53

Hahaha, a tua crítica me instigou mais ainda a ver, não aguentei esperar os meios “oficiais”, rs.

Já estou na espera do Dragged Across Concrete, de novo com Vaughn, agora fazendo dupla com o Mel Gibson.

Abraços!

planocritico 20 de outubro de 2017 - 00:34

Só o nome do próximo filme e o elenco já me faz ser o primeiro na fila para comprar o ingresso! Quero para ontem!

Abs,
Ritter.

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais